São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A culpa é de FHC
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Acusado histrionicamente por Dilma como responsável pela corrupção na Petrobras, o ex-presidente é em verdade culpado por não ter feito uma firme oposição ao PT

“A culpa é da esquerda e ela coloca em quem ela quiser”. A frase, do excelente escritor e blogueiro Felipe Moura Brasil, aplica-se perfeitamente à última entrevista concedida pela presidente Dilma.

Ao comentar sobre o gigantesco escândalo do Petrolão, Dilma disparou uma pérola que ficará nos anais das falas políticas inconsequentes:

A gente olhando os dados que vocês mesmos divulgam nos jornais: se em 96, 97 tivessem investigado e tivessem, naquele momento, punido, nós não teríamos o caso desse funcionário da Petrobras que ficou durante mais de dez anos, mais de 20, quase 20 anos, praticando atos de corrupção. A impunidade - isso eu disse durante toda minha campanha - a impunidade, ela leva água para o moinho da corrupção”.

Nas entrelinhas, Dilma culpava o governo FHC – que terminou faz 13 anos! – pelos atuais atos de corrupção da estatal.

Sua fala, involuntariamente hilária (porém, sinistramente cínica), acabou gerando milhares de memes - do tipo “Não fui eu. Foi o FHC”, descrevendo situações engraçadas do cotidiano - os quais se espalharam em velocidade de cruzeiro pela internet.

Os memes cumprem o papel de ridicularizar Dilma e sua fala. Antes de tirar os petistas do poder, eles precisam ser humilhados à exaustão, para não voltarem mais.

Atribuir o escândalo de corrupção da Petrobras a FHC é um devaneio psicótico, por certo. No entanto, justiça seja feita, FHC tem culpa no cartório.

Qual culpa? Eu digo.

Durante o seu governo, FHC atuou tal como Alexander Kérensky, o socialdemocrata menchevique que - através de escolhas políticas inadequadas - tudo fez para aumentar o poder dos bolcheviques. No nosso caso, as escolhas de Fernando Henrique aumentaram o poder do PT.

Enumero alguns episódios, os quais considero cruciais.

FHC fez questão de sucatear as Forças Armadas – e, em especial, deixar deteriorar os salários da tropa - a tal ponto, que em 2002, toda a caserna aderiu à candidatura de Lula.

Coisa parecida aconteceu com o restante da máquina estatal: funcionários públicos ficaram quase oito anos sem nenhum aumento salarial, contribuindo para a ojeriza a um inexistente “modelo neoliberal” e, inconscientemente, aumentando a militância petista.

Ao propor a necessária Reforma da Previdência, FHC conseguiu ganhar a antipatia dos aposentados – segmento importante, em um país que fica velho antes de ficar rico – expressando-se mal, chamando de “vagabundos”, aqueles que se aposentavam precocemente.

Ainda mais imperdoável foi a Reforma Agrária ambiciosa, a qual contribuiu imensamente para aumentar o poder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), o braço armado do PT.

O “improvável presidente”, no fim do mandato, resolveu portar-se então como sociólogo: fez de tudo para passar a faixa para o “operário do povo”, numa espécie de “final feliz“  para as suas teses marxistas da década de 60 e 70.

Para ele, seria uma linda transição democrática. Para o Brasil, iniciava-se o calvário o qual estamos vivendo agora.

Não que José Serra teria sido um bom presidente. Porém, com a vantagem do retrovisor, uma coisa fica clara: qualquer coisa é melhor que o PT.

Assim que Lula assumiu, o ex-presidente FHC portou-se como manda o figurino: ficou mais ou menos alheio à situação, dedicando-se a outros afazeres. Enquanto isso, o PT tratava-o como pária e vociferava sobre uma tal “herança maldita” do governo tucano. FHC jamais se defendeu e deixou que o mito se instalasse de vez.

O principal programa do PT – o Bolsa Família - havia sido apenas a unificação de diversos outros programas sociais já em vigor durante o governo tucano (veja aqui). Entretanto, FHC sempre foi extremamente tímido para defender esse legado e, com isso, deu de bandeja um formidável arsenal eleitoral para os petistas, responsável por, no mínimo, duas das três vitórias eleitorais seguintes.

As privatizações, outro legado de FHC, foram feitas sem preparar a mentalidade do povo e sem sua participação. Tidas como “privataria”, ajudaram no projeto do PT de se colocar como defensor do “patrimônio nacional”, uma piada sinistra, como hoje se pode comprovar.

Por fim, FHC poderia ter se redimido de tudo em 2005: no auge do mensalão, o clima político estava propício para o impeachment de Lula. Indo para o terceiro ano de governo federal, o PT ainda não tinha se entranhado de forma tão decisiva no aparelho estatal.

Extirpado do poder mais cedo, o PT não teria tempo de montar todos os esquemas do Petrolão, comprado a população mais pobre com o “Bolsa Família”, destruído a economia brasileira, sujado as instituições e alterado decisivamente o balanço de poder. Era um câncer, mas não estava em processo de metástase.

Com a desculpa de preservar a economia e as instituições, FHC deu seu sinal vermelho para o processo de impeachment, o qual não foi para frente por falta de apoio. A história, a seguir, todos conhecem.

Lula se reelegeu, elegeu e reelegeu Dilma e o resultado final foi justamente uma economia e as instituições bastante abaladas, além de uma crise sem precedentes.

Parafraseando Felipe Moura Brasil: a culpa é do PT e ele põe em quem ele quiser. Com exceção de FHC. O PT não pode culpar FHC. Deveria agradecê-lo.

Quem pode culpar FHC somos nós, brasileiros, que vamos pagar a conta da destruição em massa implementada pelos petistas.

 



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