São Paulo, 27 de Abril de 2017

/ Opinião

A assessoria de imprensa do PT
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E como nossos mandatários reagiram às mais de 900 mil pessoas nas ruas (talvez muito mais de um milhão de pessoas)? Comemoraram! Por que motivo? Resumidamente, porque poderiam ser maiores!

Este governo comemora tudo. Isso não é estranho? As chances de impeachment, entre idas e vindas, mantêm uma persistente trajetória de alta. Não obstante, a tirar pelas notícias dos nossos principais jornais, os caciques petistas estão sempre em festa.

Para ilustrar este fato, peguemos o exemplo das manifestações de 16 de agosto. O governo passou a semana anterior às passeatas comemorando que, segundo algum levantamento da “Folha 247 de S. Paulo”, o número de pessoas nas ruas seria menor do que nas outras manifestações. Isso, na cabeça dos “especialistas” de sempre, indicaria que a rejeição à presidente-sapiens estaria em queda.

Para início de conversa, a rejeição à “imperatriz da verve confusa” só faz subir, como indicam todas as pesquisas sobre o tema. Além disso, as manifestações foram maiores das que ocorreram em abril, desmoralizando ainda mais aquela análise carnavalesca.

E como nossos mandatários reagiram às mais de 900 mil pessoas nas ruas (talvez muito mais de um milhão de pessoas)? Comemoraram! Por que motivo? Resumidamente, porque poderiam ser maiores! Entenderam a astúcia? Se as manifestações são menores, comemora-se porque diminuíram. Se são maiores, comemora-se porque poderiam ser ainda maiores.

No limite, se toda a população brasileira fosse para a rua, a análise do governo veiculada na grande imprensa seria assim: governo acredita que manifestações atingiram o seu limite e não crescerão mais.

É um fenômeno espantoso: descendo o outeiro à cambalhota, o governo coleciona vitórias! É como se um indivíduo que, ao cair de um prédio de 20 andares, passasse pelo 4º pavimento dizendo: “até agora, tudo bem”. Manchete do momento: “fulano comemora não estar no 2º andar”. Seriam 20 vitórias até se espatifar no chão!

Como pode uma estratégia tão apartada da realidade e flagrantemente ridícula prosperar sem maiores inconvenientes? O único objetivo dessas notícias é o governo, já à beira do precipício, posar de aliviado frente à avalanche cada vez maior de fracassos. Blefa contra a população para tentar desanimá-la. Como eles conseguem emplacar tamanha maluquice no debate político?

A verdade é que essa pantomima não seria possível sem o auxílio luxuoso da grande imprensa nacional no que chamei de “fenômeno da doisquatrosetização” na semana passada. Funciona assim: o governo inventa uma narrativa que lhe é favorável e elabora um release, que é reproduzido, ipsis litteris, pelo “partido da mídia golpista”, como se notícia fosse.

É dessa maneira que a segunda maior manifestação popular da história brasileira ganha destaque em jornais como um alívio para o governo. Este, inclusive, é pintado vibrando com a vitória em mais uma batalha. Note-se ainda: as três maiores manifestações populares que este país já viu foram contra o mesmo governo, contra o mesmo grupo político, contra a mesma presidente-sapiens.


A “Folha 247 de S. Paulo” publicou que, segundo o Datafolha, os manifestantes desaprovavam Michel Temer (68%) e Renan Calheiros (79%). O leitor mais atento procura o percentual dos manifestantes favoráveis ao impeachment, mas isso não aguçou a curiosidade do instituto. Manchete principal: “Maioria na Paulista rejeita a atuação de Renan e Temer, diz Datafolha”.

Não é “dilmais” que o maior jornal do país se esmere em saber as rejeições do vice-presidente e do presidente do Senado, mas não dê bola para a rejeição do principal alvo dos protestos, Dilma Rousseff? Lula, seu padrinho político, ganhou bonecos em trajes penitenciários pelo Brasil. A “Folha 247”, no entanto, quer saber o que pensam os manifestantes a respeito dos líderes do PMDB.

Se o Datafolha fizesse a pesquisa, descobriria que 100% dos manifestantes sonham em testemunhar a dupla de presidentes petistas vendo o sol nascer quadrado. Qual seria a manchete desse resultado?

Já “O Globo 247”, que culpa o PSDB e Eduardo Cunha pela crise brasileira e já teve um editorial desmascarado (leia aqui), publica: “PT condena ataques a Dilma e Lula: ´Não escondem propósitos antidemocráticos´”.

Abaixo desse primor, que é a matéria principal sobre os protestos em seu site, o jornal complementa: “Mesmo com atos, Dilma ganha fôlego, dizem analistas”.

Outro exemplo do panfleto governista carioca: “Análise: Protestos passaram a ter mais claro o combate à corrupção”. Entenderam? O protesto foi contra uma corrupção abstrata e não contra o governo constituído e agente primaz da bandalheira.

O tapa na cara final: “Quase um domingo de sol pacato em Copacabana. Manifestantes clamavam por todo tipo de pauta”. Copacabana recebeu a maior manifestação das três que ocorreram no Rio de Janeiro. Quem foi à praia naquele domingo ensolarado viu uma orla tomada por pessoas gritando “Fora PT” e “Fora Dilma” o tempo todo. Há quem diga que isso “quase” compõe a paisagem cotidiana da Princesinha do Mar. Como o jornal pôde falar em “todo tipo de pauta”? Na grande imprensa, o tapa na cara combina-se à cara de pau.

Outros exemplos desta assessoria de imprensa mal disfarçada poderiam ser dados aos borbotões e não caberiam em uma biblioteca. O pior governo da nossa história, e o mais rejeitado, não ficaria de pé um minuto a mais não fosse a sua contemporaneidade com a pior imprensa que já existiu por estas plagas.

Por fim, duas coisas ainda nos deixam consternados. A primeira é a deficiência cognitiva (na hipótese benigna) das pessoas que ainda acreditam que a grande mídia brasileira faz oposição ao “governo popular”.

A outra coisa é que esses jornais promovem um imenso desperdício de papel sob a desculpa do jornalismo. Seriam mais úteis se enviassem todo esse material para a Venezuela, onde faltam itens básicos de higiene pessoal.

Com o economista Reinaldo Bedim



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