Opinião

A Grécia foi pega na armadilha do euro


É um equívoco grande demais apontar para fatores que restringem a produtividade da Grécia e depois dizer que são eles a "causa" da crise grega


  Por Paul Krugman 18 de Setembro de 2015 às 15:05

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Os economistas Yannis Ioannides e Christopher Pissarides, em um novo estudo do Brookings Institution, explicam de que modo a falta de uma reforma estrutural prejudicou a produtividade e a competitividade na Grécia (leia o artigo aqui).

Não tenho por que duvidar que há coisas muito importantes que precisam ser modificadas, e que a Grécia estaria em uma situação muito melhor se o país pudesse, de algum modo, vencer as barreiras políticas que o impedem de fazer essas mudanças.

Eu diria, porém, que é um equívoco grande demais apontar para fatores que restringem a produtividade da Grécia e depois dizer que são eles a "causa" da crise grega.

A baixa produtividade cobra um preço de qualquer economia. Normalmente, ela não cria, ou não precisa criar, uma crise financeira e uma colossal depressão deflacionária. Basta comparar, por exemplo, a Grécia e a Polônia.

Esta última, a exemplo da Grécia, está na periferia da Europa e, no entanto, está intimamente conectada à economia do continente. Além disso, a Polônia também é um país com produtividade relativamente baixa pelos padrões do noroeste europeu.

Contudo, não teve uma crise semelhante à da Grécia, ou, melhor dizendo, não teve crise nenhuma. Pelo contrário, a Polônia prosperou em meio às turbulências dos últimos anos.

Qual a diferença? Isto se deve, sem dúvida alguma, sobretudo ao euro. Ao adotar a moeda única, a Grécia atraiu primeiramente influxos maciços de capital, mas depois se viu pega em uma armadilha, incapaz, de fato, de fazer a desvalorização realmente necessária sem com isso incorrer em uma deflação incrivelmente cara.

Toda vez que alguém diz que os problemas da Grécia estão efetivamente no lado da oferta, não se deve indagar se o país tem, ou não, esse tipo de dificuldade — ele tem. O que se deve perguntar é por que tais problemas levariam o país ao colapso.

A Grécia, ao que parece, tem cerca de 60% da produtividade da Alemanha. Isto significa que os salários reais gregos deveriam ser em torno de 60% tão elevados quanto os da Alemanha. O desemprego não deveria ser de 25%.

Indicadores: o que deveríamos saber antes

O Fundo Monetário Internacional publicou recentemente uma entrevista muito interessante com Olivier Blanchard, economista-chefe que está deixando a instituição.

Blanchard diz a coisa certa sobre mudar de opinião: "O que me deixa atônito é como indicar uma mudança de ponto de vista sem com isso deflagrar manchetes do tipo 'erros', 'fundo incompetente' etc. Refiro-me aqui aos indicadores fiscais. Subestimar a resistência sobre o resultado da consolidação fiscal não foi um "erro" no sentido como as pessoas entendem o erro, isto é, a mistura de duas células em uma planilha de Excel. Havia um volume significativo de evidências anteriores, mas que se revelaram ilusórias em um ambiente em que as taxas de juros estão próximas de zero e a política monetária não pode compensar os efeitos negativos dos cortes do orçamento. Fomos muito criticados quando admitimos que havíamos subestimado tal contexto, e suspeito que seremos ainda mais criticados no futuro. Ao mesmo tempo, porém, creio que nós, do Fundo, elevamos substancialmente nossa credibilidade e soubemos usar melhor os pressupostos posteriormente. Foi doloroso, mas foi útil." (Leia aqui a entrevista).

 De fato, há muita gente por aí cujas ideias de um argumento sólido consiste em algo do tipo "antes você dizia que tal coisa era X, e agora diz que é Y" — pouco importam as razões pelas quais você mudou de ideia, ou se você tinha razões para fazê-lo. É importante não cair na armadilha de ter medo de deixar que novas evidências ou análises falem por si mesmas.

Contudo, nesse caso específico, o FMI deveria ter sido mais precavido. Blanchard diz que as evidências "se revelaram ilusórias em um ambiente em que as taxas de juros eram próximas de zero e a política monetária fiscal não pode compensar os efeitos negativos dos cortes do orçamento".

Mas, nós já sabíamos disso, não é verdade? Claro que sim.

Permitam-me bater de novo aqui em uma de minhas teclas favoritas: a experiência já confirmou indiscutivelmente a predição segundo a qual os indicadores serão muito maiores em uma armadilha de liquidez. Portanto, esta foi mais uma vitória da análise keynesiana — a história de sucesso na qual ninguém vai acreditar. 

*TRADUÇÃO: A.G.MENDES

Leia abaixo a página de Paul Krugman no The New York Times [Em inglês]