Opinião

A falácia da defesa dos mais pobres


A “rede de proteção social” mais efetiva é uma política econômica “ajuizada” e consistente, que mantenha a estabilidade do poder de compra da população, e crie as condições para o crescimento sustentável da economia


  Por Ulisses Ruiz de Gamboa 13 de Maio de 2016 às 16:44

  | Economista da ACSP e professor da FIA/USP e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorando pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial


"A linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade, e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez"
(George Orwell)

Dias antes de ser afastada do cargo de presidente da República, Dilma Rousseff proferiu um discurso afirmando que o pedido de afastamento foi motivado pelo fato de seu governo ter escolhido gastar recursos públicos com os mais pobres.

Trata-se de uma afirmação totalmente falsa, pois, de fato, a política fiscal, e, em geral, a política econômica implementada em seu quase “mandato e meio” não significou a melhora das condições de vida das famílias de renda mais baixa. Muito pelo contrário.

Em primeiro lugar, a política econômica implementada desde 2011, fracassou ao acreditar que os estímulos dados ao consumo bastariam para aumentar a atividade econômica, sem que as empresas contassem com infraestrutura e mão de obra qualificada suficientes, num contexto de carga tributária, burocracia e custos trabalhistas cada vez mais elevados. 

Como resultado, havendo maior crescimento da despesa (pública e privada) do que da produção, o resultado lógico não foi outro que o aumento da inflação e um grande “rombo externo”, devido ao excesso de importações.  

Esses resultados, somados a intervenções voluntariosas e desastradas em diversos setores, como o elétrico, como caso mais notório, e à fantasia do discurso eleitoral, que prometia para a economia um “salto para adiante” (para o abismo?), minaram a confiança tanto dos empresários como das famílias, mergulhando o país na pior crise econômica de sua história. 

A severa recessão pela qual atravessa o país elevou a taxa de desocupação a mais de 10% da força de trabalho, “atirando” quase 10 milhões de brasileiros no desemprego, onde os mais prejudicados são aqueles trabalhadores menos qualificados, que justamente são aqueles que ganham menores remunerações.
 
A maior inflação provocada, medida pelo índice oficial, que é o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que quase dobrou durante a gestão Dilma, passando de 5,9% em 2010 para 10,7% em 2015, também fustiga relativamente mais a população carente. 

Como se sabe, a inflação é o “imposto do pobre”, pois a perda do poder aquisitivo é relativamente maior para quem ganha menos, e gasta a parte mais importante de seu orçamento em produtos básicos, tais como alimentação. 

Ou seja, o aumento dos preços além de ser o que realmente “tira a comida da mesa dos pobres”, contribui para aumentar a nossa já incrivelmente desigual distribuição de renda.

Além disso, a maior parte do gasto público realizado não esteve focada nos mais carentes, uma vez que as despesas e redução de encargos e tributos concedidos ao setor produtivo, a chamado “bolsa empresário”, alcançou nos últimos anos ao equivalente a 10 vezes o orçamento do Bolsa-Família!

Se esses incentivos tivessem sido direcionados a setores com capacidade de alavancar o investimento produtivo e em infraestrutura, permitindo aumentar a capacidade de produção da economia, a renda e o emprego teriam aumentado, o que certamente redundaria em benefício dos mais carentes.

 O que se viu, porém, foi a insistência em privilegiar setores previamente “ungidos” pelo governo como os “campeões nacionais”, sem que existissem critérios de escolha racionais, do ponto de vista econômico, e transparentes.

Não admira, portanto, que esse exercício de onisciência por parte da autoridade tenha sido infrutífero, significando muitas vezes desperdício de vultosas somas de dinheiro público.

Por tudo isso, constata-se que, na verdade, em todos os quesitos, a qualidade de vida dos mais pobres piorou durante a gestão da presidente Dilma Rousseff, pois a “rede de proteção social” mais efetiva é uma política econômica “ajuizada” e consistente, que mantenha a estabilidade do poder de compra da população, e crie as condições para o crescimento sustentável da economia, via mais efetiva para a redução das desigualdades.