Opinião

A estrela sobe


Cauby Peixoto foi um cantor único, a maior voz que já surgiu no país, perfeito do ponto de vista técnico, e de elegância ímpar na escolha do repertório


  Por Ulisses Ruiz de Gamboa 17 de Maio de 2016 às 09:00

  | Economista da ACSP e professor da FIA/USP e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorando pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial


"Há homens que já nascem póstumos"

(Friedrich Nietzsche)

 

 A notícia da morte de Cauby Peixoto, ocorrida na noite de domingo em São Paulo, aos 85 anos de idade, pareceu irreal, pois há incríveis sete décadas a voz do grande cantor parecia resistir a tudo: aos modismos, às mudanças de gênero musical, aos problemas de saúde, sem perder seu brilho e sua afinação precisa.

 Nascido em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, numa família de músicos, sendo sobrinho do grande sambista Cyro Monteiro, Cauby começou sua carreira cantando em programas de calouros no rádio e atuando como crooner aos 16 anos em boates do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Influenciado pelos grandes cantores americanos, principalmente Nat King Cole, gravou seu primeiro disco em 1951. Porém, o sucesso só chegou alguns anos depois, quando passou a ter como agente o empresário Di Veras, que, em pouco tempo, com uma estratégia de marketing que implicou em mudanças de guarda-roupa, de repertório e de atitudes no palco, o transformou em ídolo nacional. Conta-se que a estratégia incluía contratar fãs para desmaiar à chegada do cantor e ternos mal costurados, que seriam “rasgados” por elas.

Seu primeiro grande sucesso ocorreu em 1955, com “Blue Gardenia”, do repertório de Nat King Cole, cantada em português com letra original do próprio Di Veras. Porém, foi em 1956 que gravou o samba-canção que virou sua marca registrada: “Conceição”, de Jair Amorim e Dunga.

Foi também durante a década de cinquenta que, assessorado por Di Veras, tentou, sem sucesso, alavancar uma carreira nos Estados Unidos, chegando a participar de um filme em Hollywood e gravar com um ícone da época, o maestro Percy Faith. No mesmo período, foi o primeiro cantor brasileiro a gravar rock and roll, interpretando “Rock and Roll em Copacabana” no filme “Minha Sogra é da Polícia”.

Na década de sessenta continuou evoluindo na carreira, abrindo, junto a seus irmãos, a mítica boate Drink em Copacabana, onde, a partir da meia noite era sempre a atração principal, interpretando as canções brasileiras e internacionais de sucesso naquele momento. Participou dos primórdios da bossa nova, sendo o primeiro a gravar “Samba de Verão” de Paulo Sérgio e Marcos Valle, sendo também um dos primeiros intérpretes de outras canções que passariam a ser clássicos do gênero, como, por exemplo, “Garota de Ipanema” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Depois de certo ostracismo nos anos setenta, retornou em grande estilo nos anos oitenta, interpretando músicas feitas por compositores modernos, e que se tornaram grandes sucessos em sua voz, como “Bastidores” de Chico Buarque e “Luiza” de Tom Jobim.

A partir de então, até quase seu último dia de vida, nunca mais deixou de se apresentar nos palcos de todo o país, sempre lotando as casas em que atuava, adicionando ao seu repertório, além dos clássicos que cantava em vários idiomas, as músicas que faziam sucesso no momento.

Essas atualizações do repertório, a exemplo dos maiores cantores populares de todos os tempos, o mantinham sempre vigente, para o público que frequentava seus shows, cuja idade variava de 18 a 80 anos.

Além das apresentações, outra atividade que praticou com inacreditável frequência era a gravação de discos, registrando, a exemplo de virtuoses como Ella Fitzgerald, em um só take as faixas de cada álbum.

Nos últimos anos, presenteou o mundo com verdadeiras pérolas em forma de CD, como “Cauby Sings Nat King Cole”, com as grandes músicas do cantor americano, “Cauby Interpreta Roberto”, com uma seleção de canções de Roberto Carlos, e seu mais recente “A Bossa de Cauby Peixoto”, onde retornou ao gênero que ajudou a popularizar.

Ao que parece deixou pronto um último álbum, onde homenageia o cantor e pianista Dick Farney, interpretando seus temas mais conhecidos. Por coincidência, em fevereiro último, tive a incrível sorte de assistir a um show no Sesc Pompéia, onde o grande artista cantou justamente o que, presumo, será o conteúdo obra póstuma. Foi de uma beleza indescritível, e um momento muito especial, pois naquele mesmo dia completou seu último aniversário, ovacionado pelo público que o aplaudia de pé. 

Cauby Peixoto foi um cantor único, a maior voz que já surgiu no país, perfeito do ponto de vista técnico, e de elegância ímpar na escolha do repertório. Ele foi nosso Frank Sinatra, nosso verdadeiro e único popstar, não devidamente reconhecido nesses Tristes Trópicos, mas, uma estrela de primeira grandeza que, agora, empresta seu brilho ao céu.

OUÇA: O CLÁSSICO "CONCEIÇÃO" NA VOZ DE CAUBY PEIXOTO