Opinião

A emigração está piorando a situação de Portugal?


Com sua longa tradição de emigração, Portugal talvez se torne mais vulnerável do que a maioria dos países europeus


  Por Paul Krugman 21 de Dezembro de 2015 às 08:00

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Estive em Portugal na última semana participando de um congresso em memória do economista José da Silva Lopes e aproveitei para me inteirar dos tempos terríveis que o país atravessou recentemente. O que me chamou especialmente a atenção foi a mobilidade da mão de obra (veja o gráfico).

 

 

Achávamos que a alta mobilidade da mão de obra fosse uma coisa boa nas uniões monetárias, porque permitiria às economias dos países de moeda comum se ajustarem aos choques assimétricos ? crescimento em alguns lugares e crise em outros ? deslocando os trabalhadores de um local para outro sem ter de reduzir salários nas regiões em atraso. 

Mas, e a base de incidência tributária? Se os tempos ruins fazem com que os trabalhadores deixem um determinado país em grandes contingentes, quem se encarregará do serviço de sua dívida e cuidará dos seus aposentados?

É sem dúvida fácil de ver, conceitualmente, como um país poderia acabar entrando em uma espiral demográfica fatídica. Tome-se inicialmente um nível de endividamento elevado.

Se a força de trabalho encolhe por causa da emigração, o serviço daquela dívida exigirá que se aumentem os impostos dos que ficarem, o que poderia levar a um volume maior de emigração etc.

Qual a possibilidade real de que isso aconteça? Isso depende, obviamente, da existência de um endividamento em grau suficientemente elevado e de outras despesas compulsórias.

Mas depende também da elasticidade da população economicamente ativa em relação ao endividamento, o que, por sua vez, depende do contexto econômico ? existe uma forte tendência de queda na demanda de mão de obra ou ela é altamente elástica? ? e de fatores como a disposição do trabalhador de se mudar, algo que tem a ver com a cultura e com o idioma. 

Portugal, com sua longa tradição de emigração, talvez se torne mais vulnerável do que a maioria dos países europeus, mas não sei se a coisa realmente se dará nesse segmento.

É de se perguntar se a união monetária faz alguma diferença aqui. Choques adversos não podem levar à emigração e a uma espiral de morte, não importa qual seja o regime cambial? Sim, mas com uma taxa de câmbio flexível, os choques adversos levarão à depreciação da moeda e à queda nos salários reais.

Num regime de união monetária, eles produzirão desemprego durante um bom tempo, ou até que o processo de trituração da desvalorização interna restaure a competitividade. Tudo o que eu disse indica que a migração é muito mais sensível ao desemprego do que aos diferenciais de salários.

Agora, é verdade que a emigração em uma economia com desemprego em massa não reduz imediatamente a base de incidência tributária, uma vez que o trabalhador marginal não teria sido empregado de qualquer modo. No entanto, ela prepara o cenário para a deterioração a longo prazo.

Apesar disso, Lisboa continua encantadora ? e parece estar, merecidamente, atraindo muitos turistas, o que certamente deve ajudar a economia.  
   

Paul Krugman - 18/12/2015