Opinião

A Dunquerque de cada um


Cada nação teve o seu Dunquerque, mas o que as diferencia é o que fizeram com ele. A Inglaterra o celebra, o Brasil nem sabe o que tem.


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 28 de Julho de 2017 às 09:40

  | Historiador


Os britânicos vêm, mais uma vez, mostrar como e porque a relevância de uma nação está longe de depender apenas do tamanho de sua economia e poder militar.

O Reino Unido possui o 9o maior PIB tomado por paridade de poder de compra e o seu poder de combate está na 6a posição mundial, portanto, atrás do Brasil (7o), na economia, e da Índia (4o), em poder militar.

Os ingleses são governados por um sistema tido por muitos como anacrônico, em algumas décadas perderam o maior império da História, recentemente optaram por sair da União Europeia e, não obstante isso, a primeira potência mundial não dá um passo importante sem consultá-los.

O que eles têm a ensinar?

Se assistirmos ao filme Dunkirk, como os mais velhos foram ver A Batalha da Inglaterra (1969), Waterloo (1970) e Uma Ponte Longe Demais (1977) podemos encontrar uma resposta.

E ela não é difícil: a relevância de uma nação começa pelo que ela tem a dizer ao mundo, algo que não se consegue fazer sem História.

É conhecida dos historiadores a frase com que Churchill fulminou o regozijo pós-Dunquerque no Parlamento:  “Sir, we must be very careful not assign to this deliverance the attributes of a victory. Wars are not won by evacuations.”, numa tradução livre: "Senhor, devemos ter muito cuidado para não atribuir a esse salvamento os atributos de uma vitória. Guerras não são vencidas por evacuações".

Depois de Dunquerque e às vésperas da Batalha da Inglaterra, Churchill tinha autoridade para falar e necessidade de fazê-lo. Antes de Dunquerque, ele teve que lutar e vencer a batalha política no Gabinete que iria salvar a Força Expedicionária Britânica, a Inglaterra e o mundo, exatamente nessa ordem.

E às vésperas da chuva de ferro e fogo que Hitler despejaria sobre a Ilha, Churchill só podia prometer sangue, suor e lágrimas, e que os ingleses jamais se renderiam.

A história daqueles dias contada no livro “Dunkirk: fight to the last man”, bem conhecido dos especialistas e interessados em História Militar, de autoria do jornalista Hugh Sebag-Montefiore, mostra uma realidade nos corredores da política talvez mais amarga do que o drama que os remanescentes da Força Expedicionária Britânica estavam prestes a viver nas areias de Dunquerque.

Os ingleses, varridos com os franceses pela Blitzkrieg, em pouco mais de duas semanas de guerra, descobriram que seus aliados não tinham reservas e nem vontade para contra-atacar e salvar a melhor parte de suas forças isoladas na Bélgica e norte da França pelo fulminante avanço dos blindados alemães que atingiu o Canal da Mancha, um fato também familiar aos que se interessam pela história da Segunda Guerra Mundial.

O que poucos sabem é o quão perto o desastre de maio de 1940 esteve de colocar a Inglaterra de joelhos perante Hitler e dar-lhe a vitória completa na guerra que iniciara meses antes.

Enquanto os soldados ingleses lutavam até a morte, recuando para o Canal, dentro do gabinete britânico, Churchill lutava contra a ideia majoritária, vinda dos franceses, de uma composição com Hitler por intermédio de Mussolini, mediante a entrega  de possessões no Mediterrâneo e África e o desarmamento inglês na Europa para, quem sabe, salvar o que sobrasse do Império.

Na reunião do dia 26 de maio, Churchill sustentou sozinho que nada poderia ser decidido antes que a Força Expedicionária Britânica fosse evacuada da França.

Era do que ele precisava: mais do que o copioso armamento e material deixado para trás nos campos de batalha da França, a sobrevivência da Inglaterra dependia dos homens que haviam lutado magnificamente e da sua vontade de continuar a lutar.

Churchill teve que vencer politicamente para que os ingleses não perdessem a guerra. No mesmo dia 26, foram expedidas as ordens para a evacuação, a Operação Dínamo, e o perímetro de defesa em torno de Dunquerque começou a ser organizado.

Surpresa maior teriam os brasileiros, se soubessem que tivemos nossas Dunquerques. E ficariam ainda mais surpresos de quão diferente seria hoje o Brasil se tivessem consciência disso.

Em julho de 1635, depois de cinco anos de luta contra os invasores holandeses, com a queda do Arraial do Bom Jesus, Matias de Albuquerque e seus soldados se retiraram de Pernambuco para as Alagoas, acompanhados de inúmeras famílias que deixaram muitas cruzes no caminho do “êxodo dos que não se desesperavam”, nas palavras de Capistrano de Abreu.

O Tenente Antônio João resiste até a morte em Dourados – 29 Dez 1864
(Antônio Parreiras)

E em 1867, a coluna de cariocas, paulistas e mineiros que percorreu quase quatro mil quilômetros a pé para libertar o Mato Grosso da invasão paraguaia empreendeu uma das mais heroicas retiradas da História Militar, perenizada em um livro que foi um best-seller mundial: "A Retirada de Laguna", de Alfredo de Escragnolle Taunay.

Dunkirk, o filme, está aí para lembrar que uma nação é relevante, acima de tudo, porque ela sabe o que é e não se esquece disso. Cada nação teve o seu Dunquerque, mas o que as diferencia é o que fizeram com ele.

A Inglaterra o celebra, o Brasil nem sabe o que tem.

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