Opinião

A crise não é igual para todos


Por isso, é possível descobrir novos nichos ou desenvolver novos produtos ou serviços mais adequados às necessidades de uma população que enfrenta queda na renda, menor disponibilidade de crédito e desemprego


  Por Ulisses Ruiz de Gamboa 30 de Novembro de 2016 às 09:34

  | Economista da ACSP e professor da FIA/USP e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorando pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial


“O que nos causa problemas não é o que não sabemos. É o que temos certeza que sabemos e que, no final, não é verdade”.
(Mark Twain)

Não há dúvida que o Brasil enfrenta a pior crise econômica de sua história, ao acumular, de acordo ao que indicam os dados, dois anos de quedas consecutivas do Produto Interno Bruto (PIB).

Contudo, essa difícil realidade macroeconômica, faz com que muitas vezes esqueçamos que seu impacto, do ponto de vista microeconômico ou setorial pode ser, na verdade, bem heterogêneo, dependendo do segmento considerado.

De que depende o impacto relativo da recessão nas vendas dos diferentes setores produtivos?

Em primeiro lugar, do preço, principalmente em períodos como o atual, em que as famílias sofrem redução do seu poder aquisitivo, em decorrência da inflação e do enfraquecimento do mercado de trabalho.

Nesse sentido, estas costumam substituir artigos mais caros por outros mais baratos, mesmo sacrificando a qualidade.

Outro aspecto que pesa na decisão de compra é quanto esta é considerada necessária, havendo tendência a cortar em maior medida a compra de bens e serviços avaliados como supérfluos.

Além disso, a aquisição de itens de maior valor costuma ser mais dependente do financiamento, sendo, portanto, importante analisar as condições do crédito, como taxa de juros e prazo de financiamento, que determinam o que realmente importa para o brasileiro: se a prestação “cabe no bolso”.

Podemos indicar alguns exemplos, sem a pretensão de ser exaustivos, para mostrar casos de setores que estão sendo beneficiados com a crise.

Um segmento que se favoreceu com a queda da atividade econômica foi o de produtos de beleza, que apesar da situação econômica adversa, tem mostrado forte crescimento das vendas, explicado pelo fato de ser a alternativa a itens de maior valor, tais como roupas e sapatos.

Outro segmento afetado de forma positiva tem sido o setor de tecnologia da informação, cujos serviços estão sendo cada vez mais demandados, devido à necessidade de empresas de porte variado de reduzir seus custos e aumentar a produtividade, utilizando soluções tecnológicas.

Um caso particularmente interessante é o do setor de bares e restaurantes, que tem sentido forte diminuição no número de seus clientes e no valor médio de suas vendas.

Porém, dentro de um dos subsetores dessa atividade tem se destacado: as redes dedicadas ao delivery.

Como as famílias têm reduzido suas saídas para fazer refeições fora de casa, a saída foi apelar para os serviços de entrega em domicílio, uma opção mais barata.

Também vale mencionar o setor farmacêutico, que tem mostrado especial resiliência à queda da renda das famílias, pois, os medicamentos são produtos considerados essenciais.

Além disso, as grandes cadeias de drogarias, já há bastante tempo, passaram a incluir no conjunto de seus artigos comercializados itens de perfumaria e cosméticos, cujas compras costumam ser preservadas, frente à piora da situação financeira.

Outro caso de sucesso são os serviços de manutenção e reparação de veículos, eletroeletrônicos e vestuário, cuja demanda tem crescido constantemente, devido a que grande parte das famílias tem preferido consertar ou trocar peças de seus bens duráveis usados à compra de novos modelos, o que é sempre mais dispendioso.

Não se quer sugerir com todos esses exemplos que a aguda recessão, que assola o país desde o segundo trimestre de 2014, seja algo menor ou até desejável, face ao desempenho positivo dos setores mencionados.

Apenas o que se tenta mostrar é que a abordagem setorial dos efeitos de uma recessão também deve ser considerada.

Nesse sentido, alguns empresários poderão descobrir novos nichos ou desenvolver novos produtos ou serviços mais adequados às necessidades de uma população que enfrenta queda na renda, menor disponibilidade de crédito e maior desemprego. Afinal, quem já não ouviu falar daqueles que “enriqueceram na crise”.