Opinião

A aversão conservadora ao dinheiro fácil


Ben Bernanke, presidente do Fed, o banco central americano, ainda tem de se defender de críticas que não fazem o menor sentido


  Por Paul Krugman 06 de Novembro de 2015 às 17:15

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Em recente entrevista a Martin Wolf no Financial Times, Ben Bernanke se disse irritado com as declarações de que a flexibilização quantitativa [em inglês, quantitative easing, compra de títulos no mercado pelo governo para aumentar a liquidez econômica] é um prêmio para os ricos (ao mesmo tempo que prejudica a quem poupa ? vá entender).

"Este já é o quarto ou quinto argumento contrário à facilitação quantitativa depois de constatados os equívocos dos anteriores", disse a Wolf o ex-presidente do Federal Reserve.

É realmente impressionante. Aos olhos dos críticos, a flexibilização quantitativa (FQ) é o processador de alimentos que não deu certo: tudo o que ela faz é ruim ?fatia mal, não corta direito em cubos e transforma em purê tudo o que é bom.

A flexibilização quantitativa é inflacionária; bem, talvez não, mas corrói a credibilidade; bem, talvez não, mas há uma exposição exagerada a riscos; bem, talvez não, mas desencoraja o investimento das empresas (acho que este último argumento é novo).

O economista Brad DeLong passou um tempo talvez longo demais analisando esse último ponto em seu blog . Ele tomou como referência um editorial do Wall Street Journal escrito pelos economistas Kevin Warsh e Mike Spence.

O argumento da dupla não faz sentido algum, e foi usado para explicar uma coisa que não está acontecendo ? o investimento das empresas não está menor do que esperávamos por causa da lenta recuperação da economia.

Não me surpreende que Warsh tenha seguido por esse caminho: ele é um falcão sempre de plantão que costumava advertir do perigo da inflação, mas mudou do nada de opinião porque a inflação esperada não veio.

Quando DeLong se queixa de que não há um argumento coerente no artigo ? não que o argumento seja ruim, ele simplesmente inexiste ?, que outra coisa se poderia esperar de Warsh?

Em 2010, reagi da seguinte forma a um de seus pronunciamentos:

"Portanto, o que temos aqui é a afirmação de que coisas ruins acontecerão se fizermos certas coisas, mesmo sem evidência alguma disso ou qualquer explicação da razão pela qual essas coisas devem acontecer. Sim, talvez o mercado de títulos nos castigue se não cortarmos os gastos agora; além disso, dá azar pisar em despacho e é bom passar longe de gato preto. Como é que um negócio desses consegue passar uma imagem de discussão política sensata? (Leia aqui o post que escrevi em meu blog)".

Não dá para entender como que Spence foi se associar a uma coisa dessas.

Já disse antes e volto a repetir: essa aversão ao dinheiro fácil, cuja motivação muda o tempo todo e não parece ter muito a ver com nenhum argumento econômico inteligível, tem raízes profundas na psique conservadora ? é coisa lá do id, e não da mente racional.

Um momento que não dá para ser ensinado
Já faz quase sete anos que o Fed zerou as taxas de juros. A era da inflação baixa e da armadilha de liquidez agora compete em duração com a era da estagflação dos anos 70 e tem sido associada a um desempenho econômico real muito pior.

Portanto, onde está, indaga Antonio Fatas, a grandiosa reavaliação da teoria e da política econômicas? Fiz a mesma pergunta já faz alguns anos. Eu acrescentaria, conforme fiz naquela ocasião (aqui), que alguns de nós antecipamos boa parte, não tudo, do que deu errado.

Fatas, economista da Insead, disse em uma postagem: "Acho que mesmo aqueles que concordaram com essa interpretação da economia japonesa jamais teriam pensado que veríamos a mesma coisa acontecer em outras economias avançadas. A maioria achava que esse era um exemplo singular de incompetência dos gestores de políticas do Japão."

Escrevi efetivamente, em 1999, um livro intitulado "O retorno da economia da depressão" [The return of depression economics] em que advertia, basicamente, de que o Japão talvez fosse o precursor de todos nós.

Confesso que não esperava políticas de gestão tão ruins a ponto de fazer do Japão um exemplo para os demais.

A questão é que, a esta altura, era de se esperar que houvesse uma reavaliação da política econômica pelo menos tão drástica quanto a que houve nos anos 70.

Na verdade, porém, não vimos praticamente reavaliação alguma. Os economistas que, em 2009, disseram que "a inflação era iminente", estavam repetindo a mesma coisa cinco anos depois.

Até aqui falei apenas de economistas profissionais. Conforme disse Josh Barros na Bloomberg, em 2012, os conservadores que se julgam intelectuais têm se voltado cada vez mais para a economia austríaca, que nega explicitamente a necessidade de se levar em conta os dados empíricos.

Esses mesmos conservadores, porém, teriam cantado vitória se a inflação que previam tivesse realmente se concretizado.

Voltando a Fatas: quanto tempo ainda vai demorar para que a longa estagnação dos últimos anos tenha o tipo de impacto intelectual que teve a estagflação?

Quanto tempo ainda será preciso esperar para que as pessoas parem de se apegar aos anos 70 como se fossem o exemplo máximo a não ser seguido, embora estejamos em meio a um desastre econômico persistente que faz os anos 70 parecerem róseos?

Eu não sei a resposta, mas é claro que esse é um fenômeno que deve ser entendido sob a perspectiva da política e da sociologia, e não da lógica.

Tradução: A.G.Mendes/ Foto: Doug Mills/The New York Times

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Paul Krugman - 06/11