Opinião

A ascensão (simbólica) da moeda chinesa


A China é grande, mas ainda tem controle de capitais, o que significa que sua moeda não é negociada livremente como as demais moedas importantes da cesta do Fundo


  Por Paul Krugman 04 de Dezembro de 2015 às 12:00

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


O Fundo Monetário Internacional incluiu o renminbi em sua cesta de direitos especiais de saque e acrescentou com isso um mundo de dificuldades aos repórteres por toda parte ? agora eles terão de lidar com a nomenclatura terrível da moeda chinesa.

Pelo que eu entendo, deve-se usar "renminbi" e "yuan" mais ou menos como dizemos "libra esterlina" ou "libra" apenas; renminbi é o termo mais genérico para o dinheiro chinês, enquanto o yuan é a denominação da unidade monetária.  

Trata-se de um evento simbólico ? a China é o primeiro país em desenvolvimento a atingir esse status. Se você me perguntar o que eu acho, eu diria que foi um pouco apressado: a China é grande, mas ainda tem controle de capitais, o que significa que sua moeda não é negociada livremente como as demais moedas importantes da cesta do Fundo.

Que diferença isso faz para a economia real? Praticamente nenhuma, embora não seja isso o que costumamos ouvir.

Um artigo recente de Neil Irwin, correspondente de economia do New York Times e, de modo geral, excelente comentarista, comparou a ascensão do renminbi à substituição gradual da libra britânica pelo dólar americano "como moeda predominante do comércio e das finanças globais".

Ele acrescenta que "esse desdobramento foi um componente fundamental para a elevação do país à condição de superpotência". (Leia o artigo aqui).

Na verdade, não foi. Os Estados Unidos se tornaram uma superpotência porque sua economia era enorme ? por volta de 1913, a economia americana já era do tamanho das economias da Europa Ocidental somadas, e se tornou ainda mais dominante depois da Segunda Guerra Mundial. O papel internacional do dólar foi, na melhor das hipóteses, uma nota de rodapé menor nessa história. 

Pergunto: que privilégios especiais acompanham uma moeda de reserva?

Quem não trabalha com economia monetária internacional costuma dizer que os EUA dispõem de um recurso especial para gerir seus déficits comerciais, ou que o país pode tomar emprestado em sua própria moeda, ou que pode extrair montantes vultosos de recursos de outros países devido a um "imenso privilégio", mas nada disso é verdade.

No máximo, o papel especial do dólar significa que os EUA têm custos de empréstimo pouco menores ? embora não sejam muitas as evidências disso ?, bem como taxa zero de juros sobre os empréstimos de quem tem moeda americana fora do país. 

Não está nem um pouco claro se a China receberá efetivamente esses retornos mínimos: colocar a moeda nos direitos especiais de saque (DES) deverá ter pouca influência sobre a disposição das pessoas de guardar a moeda em espécie, ou mesmo de comprar títulos denominados em renminbi.

O economista Maury Obstfeld fez uma boa análise sobre os DES há alguns anos (aqui: bit.ly/1PsozBt) colocando as coisas na devida perspectiva. Basicamente, os DES atualmente proporcionam uma linha de crédito limitada aos países que queiram tomar emprestadas reservas de moedas de fato de outros países.

"A valorização da cesta de DES é motivada por conveniência de denominação", disse Obstfeld, "e pode-se dizer que se trata de algo muito acidental (e não essencial) aos seus propósitos principais". 

Em outras palavras, temos aí pouco mais do que uma mudança secundária de contabilidade com implicações econômicas triviais. 

*TRADUÇÃO: A.G.MENDES

FOTO: Gilles Sabrie para o NYTimes

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Krugman 04/12