Opinião

2016: desafios e esperanças


Quanto mais se prolongar a disputa política, mais se agravará a situação da economia e mais se retardará a esperada estabilização, como começo de um período de recuperação


  Por Marcel Solimeo 29 de Dezembro de 2015 às 16:57

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


Diz o Eclesiastes que “tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”. No Brasil, o tempo deveria ser de definições e decisões.
 
Manifesto das Associações Comerciais da Frente Sudeste de 11 de dezembro alertava que “o Brasil tem pressa” e que “é preciso urgência para fazer o país caminhar na busca da solução dos seus problemas políticos, econômicos, éticos e, principalmente, sociais”.
  
Ressaltava que “se o tempo para os políticos e governantes não é importante", podendo ajustar-se “às conveniências de interesses pessoais ou de grupos, o mesmo não acontece com o restante do país”.  

Acentuava que o tempo é muito importante para a economia, para os empresários, para os desempregados e para os trabalhadores que temem perder seus empregos, para as famílias que enfrentam uma inflação crescente que dilui seu poder de compra e para a sociedade em geral, que espera angustiada uma saída para a crise política que recoloque o país na trilha do desenvolvimento. 

O que se observa, contudo, é um Executivo paralisado, preocupado apenas com sua sobrevivência e transmitindo sinais contraditórios após a troca do Ministro da Fazenda. 

O Congresso em recesso após a derrota no Supremo Tribunal Federal (STF) procura apenas defender os interesses de seus integrantes. 

Os juízes do STF, após as decisões no mínimo controversas sobre o rito do impeachment, gozam merecidas férias. Tudo se passa como se o tempo fosse irrelevante.

As definições e decisões ficam paralisadas e, o que parece ser mais grave, é que a volta do recesso do Congresso e do Judiciário, ao invés de significar a imediata decisão da crise política, poderá ser marcada por estratégias do governo e de grupos políticos de prolongarem qualquer decisão, em um jogo de disputa do poder, sem qualquer preocupação com a deterioração das condições econômicas e sociais.

Quanto mais se prolongar a disputa política, mais se agravará a situação da economia e mais se retardará a esperada estabilização, como começo de um período de recuperação.

Assim, o maior desafio para 2016 é o de alguma solução da crise política e o da construção de um consenso mínimo que permita a adoção das medidas emergenciais e estruturais para o ajuste gradativo das finanças públicas e a retomada da confiança dos empresários, trabalhadores e consumidores, capaz de alavancar os investimentos, a produção e o consumo.  

Nesse contexto, traçar o cenário para a economia no próximo ano não é apenas um difícil exercício de futurologia, mas uma tentativa de transformar a esperança em possibilidade, se não quisermos projetar um 2016 mais negativo do que 2015.

Assim, imaginando que a questão política se resolva durante o primeiro semestre, e que seja possível aprovar um plano coerente e consistente de correção das contas públicas que, mesmo gradativo, sinalize para o equilíbrio fiscal no médio prazo, e que seja lançado um amplo programa de obras de infraestrutura, baseado em Parcerias Público Privadas, com condições capazes de atrair o interesse dos investidores, pode-se traçar um cenário de estabilização para o segundo semestre. A produção e o consumo parariam de cair, o que permitiria esperar para 2017 a retomada da economia.

Esse é o cenário otimista, ainda de dificuldades para as indústrias e para o varejo, mas com a perspectiva de alguma estabilização em um patamar baixo de atividade, na segunda metade do ano.

Se deixarmos a esperança de lado e projetarmos o cenário mais provável, que é de continuidade do que se tem visto até o momento da conduta de governantes e políticos, assistiremos ao agravamento da crise econômica e social, com a produção industrial e as vendas desacelerando, o desemprego aumentando, os investimentos paralisados pela incerteza e maior risco das decisões empresariais.

Talvez esse agravamento gere as condições para a busca de soluções, mas é um preço muito alto que a sociedade irá pagar pela omissão da classe política.