Negócios

Socorro, os clientes (e as receitas) sumiram!


O drama do chefe Allan Espejo e Andrea Conte (foto), do Don Pepe Di Napoli, não é isolado: em pesquisa, 84% dos proprietários dizem que podem fechar as portas nos próximos 12 meses


  Por Fátima Fernandes 12 de Maio de 2016 às 20:51

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


A queda de cerca de 40% da clientela levou um dos maiores empresários da gastronomia paulista, Andrea Doria Conte, a fechar as portas, nos últimos meses, de cinco dos 25 restaurantes que opera há 33 anos com o sócio e chefe de cozinha Allan Vila Espejo, celebrizado em programa de culinária na TV.

Andrea e Allan são donos de dez marcas de restaurantes: Don Pepe Di Napoli, Vila Conte, Al Mare, Pepe Nero, La Pepa, Gajos, Jardino, Forneria Di Napoli, Empório do Francês e da padaria Padoca Di Napoli.

Sozinho, Andrea possui ainda duas hamburguerias com a bandeira Brother´s Burger, no Rio de Janeiro, e um restaurante em New Jersey, nos Estados Unidos, que montou para o filho e um sócio. “Estou há 42 anos neste negócio, nunca vi uma crise como esta”, desabafa.

No ano passado, a dupla fechou dois restaurantes da bandeira Don Pepe Di Napoli, que deu início à sociedade - um em Santos e outro no bairro da Bela Vista, em São Paulo.

O mais novo restaurante da dupla, o El Cordobés, especializado em comida espanhola, localizado em Moema, não chegou a durar um ano. Abriu e fechou em meados de 2015.

Os sócios também desativaram o restaurante Pepito, que funcionava havia 15 anos em Moema, e o Momotaro (comida japonesa), localizado na Vila Nova Conceição.

Andrea diz que a crise nos restaurantes deu sinais em 2014 e foi se intensificando lentamente após a Copa do Mundo.

CONTE: CRISE COMEÇOU A DAR SINAIS DEPOIS DA COPA DO MUNDO

“Eu, que gosto da noite e sou do ramo, costumava sair com minha esposa para comer fora duas a três vezes por semana, e até quatro vezes. Hoje, saio uma vez”, afirma ele.

Apaixonado por gastronomia e festeiro, Andrea diz que gosta de conversar com os clientes, especialmente os que frequentam os seus restaurantes em Moema, onde começou o seu negócio e onde mora há pelo menos três décadas.

“Pergunto para eles porque sumiram ou estão aparecendo menos nos restaurantes. A resposta é sempre a mesma: ‘os negócios estão difíceis’”, diz ele.

Em Moema, zona sul paulistana, em particular, de acordo com ele, os restaurantes estão sofrendo mais por conta da retração do setor automobilístico, um dos que mais se abateram com a crise.

“Há muitas concessionárias de veículos no bairro. Os gerentes, os vendedores vivem de comissões. Eles estão ganhando bem menos e ainda têm de pagar mais caro o condomínio, a mensalidade escolar e o plano de saúde”, afirma.

CHEF ALLAN ESPEJO, O SÓCIO: EM AÇÃO NO PROGRAMA DE TV/Divulgação

O primeiro restaurante montado por Andrea e Allan, o Don Pepe de Napoli, na Rua Arapanés, em Moema, em 1983, chegava a atender 14 mil pessoas por mês até 2012. Hoje, de acordo com Andrea, serve por volta de 7 mil clientes mensalmente.

O negócio da dupla sempre foi um sucesso. Entre 1983 e 1988, os sócios abriram quatro restaurantes em Moema, que tinham fila de segunda a segunda.

Saíram do bairro. Foram para os Jardins e, em três décadas, diversificaram na variedade de cozinha, abrindo casas também especializadas em peixes e carnes.

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Hoje, a situação é outra. “Faço parte de uma confraria que reúne 20 donos de restaurantes. Alguns deles, mentirosos, dizem que a queda de clientes é da ordem de 10% a 15%. Não é. A redução de frequência nas casas é de 40% ou mais.”

REESTRUTURAÇÃO

Com o sumiço da clientela e, como consequência, com a queda de receita, Andrea e Allan acabaram se enroscando em uma dívida de R$ 10 milhões.

Para ajudar na renegociação do passivo e na gestão das casas, a dupla contratou a Corporate Consulting, uma consultoria especializada em reestruturação de empresas.

“Às vezes, a gente trabalha num círculo vicioso, sem ver os detalhes do negócio. A Corporate está nos ajudando a enxergar com lupa os números de cada uma das casas.”

VILA CONTE: FUNCIONAMENTO 24 HORAS

Com o fechamento dos cinco restaurantes e ações para redução de custos, o número de funcionários do grupo caiu de 650 para 470.

Andrea também conseguiu renegociar uma redução entre 15% e 20% no valor dos alugueis de boa parte dos estabelecimentos.

“Se compro para pagar em 30 dias e não consigo cumprir o prazo, peço mais cinco ou oito dias para fazer o pagamento”, diz ele.

Com o apoio da Corporate, o grupo também conseguiu mais prazo e redução de taxa de juros em um empréstimo de R$ 3 milhões com bancos.

“Como demos garantias de imóveis, o prazo de pagamento passou para 48 meses, com juros de 1,6% ao mês”, diz Andrea. O grupo também decidiu vender ativos pessoais dos sócios para quitar débitos.

“Entramos com novas linhas de crédito, mudamos o perfil de compra, com pagamento à vista e redução de preços de fornecedores, passamos a controlar melhor os estoques e as perdas dos restaurantes”, afirma Luís Alberto de Paiva, sócio-diretor da Corporate Consulting.

De acordo com Paiva, houve também falhas de gestão. “Não é só o caso deles. O que acontece é que as empresas, geralmente, começam a perder o controle da gestão quando decidem abrir mais filiais, e saem investindo sem fazer conta”, diz Paiva.

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RETRATO DO SETOR

A situação vivida pelos sócios Andrea e Allan espelha o que ocorre com os restaurantes brasileiros, um setor que movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano.

Recente levantamento da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), feito com estabelecimentos de todo o país, revela 84% dos empresários acreditam que serão obrigados a fechar o negócio ou a desfazer dele nos próximos 12 meses.

Quando a associação pergunta qual o motivo, 84% deles afirmam que a empresa já está operando com prejuízo.

E isso acontece, principalmente, devido à dificuldade dos restaurantes em repassar os aumentos de custos para os preços dos cardápios e à queda de receita.

“Não dá para falar em rentabilidade no setor, hoje, por conta da queda tão acentuada do movimento. O que está segurando o meu negócio é o patrimônio que conquistei nos últimos anos”, afirma Andrea.

Ele diz que não mexe há cerca de um ano e meio nos preços dos cardápios. “Prefiro me sacrificar, cortar despesas, desligar o ar condicionado”, diz.

De acordo com a Abrasel, o faturamento real do setor caiu 4,3% em 2015 na comparação com 2014. Os restaurantes que mais sofreram foram aqueles com tíquete médio entre R$ 25 e R$ 70, que registram queda de até 30% nas vendas.

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Os estabelecimentos com tíquete médio abaixo de R$ 15 já registram aumento de 15% na receita.

Os restaurantes das regiões Nordeste e Sudeste apresentaram a maior queda média de faturamento, de 7,39% e 6,72%, respectivamente, no período.

As quedas de receita nos estabelecimentos das regiões Centro-Oeste e Sul foram de 2,46% e 3,67%, respectivamente. Na região Norte houve um pequeno aumento de receita do setor, de 0,31%, de acordo com a Abrasel.

O pessimismo para os negócios se mantém para este ano. 71% dos restaurantes consultados informaram que a receita deve cair ou se manter na comparação com 2015.

Para a dupla que estava acostumada a expandir os negócios desde que foi formada este será um ano diferente. “Por enquanto, os planos são manter o que temos, pois tudo indica que a economia vai piorar”, diz Andrea.

Ele gosta tanto do negócio que guardou todos os equipamentos dos restaurantes que fechou. “Tenho cadeiras, mesas, geladeiras, fogões. Os equipamentos estão todos guardados”.

Um forte sinal de que a dupla ainda tem esperança de voltar a operar pelo menos os 25 restaurantes que chegou a ter até o ano passado.

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FOTOS: Fátima Fernandes