Só para elas: empresas criam serviços exclusivos para mulheres - Negócios - Diário do Comércio
 
   

Só para elas: empresas criam serviços exclusivos para mulheres


Táxi, autoescola e até coworking. Espaços reservados para o sexo feminino ganham força, como a academia Contours (na foto)


  Por Thais Ferreira 03 de Agosto de 2017 às 08:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Para as mulheres, entrar em um táxi não é tarefa simples. Não é apenas acenar para o carro no meio da rua ou chamar um motorista pelo aplicativo. A preocupação com o taxista é constante.

Casos de mulheres assediadas dentro dos veículos se espalham pela internet. Às vezes são conversas inapropriadas, mas há depoimentos sobre motoristas que tocam o corpo das passageiras sem consentimento.  

Na via oposta, há reclamações semelhantes.  Motoristas mulheres que sofrem com investidas inconvenientes dos passageiros.

De acordo com uma pesquisa conduzida pela empresa britânica YouGov, 86% das brasileiras já sofreram assédio em espaços urbanos.

O estudo, encomendado pela Action Aid, foi realizado em quatro países: Índia, Reino Unido, Brasil e Tailândia. Os dois últimos ficaram empatados em primeiro lugar.

As estatísticas revelam o que diversas mulheres passam diariamente nas ruas, nos transporte público ou em espaços públicos.

Os dados são preocupantes: metade das brasileiras entrevistadas afirma que foram seguidas nas ruas; 44% tiveram seus corpos tocados e 37% disseram que homens já se “exibiram para elas”.

CHALES HENRY CALFAT, FUNDADOR DO FEMITAXI

FEMITAXI

Preocupado com os relatos que ouvia de suas amigas, Charles-Henry Calfat, francês radicado no Brasil, criou o aplicativo FemiTaxi. A plataforma conecta passageiras às motoristas mulheres.

“Eu não posso acabar com o assédio”, afirma Calfat. “Mas posso criar uma forma de evitar que ele aconteça.”

O FemiTaxi começou a funcionar em dezembro do ano passado e opera de forma similar a apps como 99 Táxi e EasyTáxi.

A diferença está no cadastro: apenas passageiras e taxistas mulheres são aceitas.  O aplicativo também aceita corridas para transportar crianças desacompanhadas.

Recentemente, a empresa também abriu espaço para as motoristas particulares, a exemplo da Uber e do Cabify.

Em menos de um ano do lançamento, a empresa já possui mais de 20 mil usuárias e 300 motoristas só em São Paulo.  

Os preços são competitivos. O aplicativo cobra 11,9% sobre o valor das corridas pagas no cartão e R$ 1,50 nas realizadas com dinheiro.

HELENA RODRIGUES, PRIMEIRA MOTORISTA CADASTRADA NO FEMITAXI

O FemiTaxi já começou um projeto de expansão para outras cidades. Por enquanto, os serviços estão disponíveis no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campinas e Santos. Mas Charles estuda ir para Goiânia, Brasília e para capitais da região norte.  

A ideia é trazer segurança tanto para a profissional quanto para a clientela.

De acordo com uma pesquisa realizada pela empresa, 75% das motoristas se sentem inseguras ao transportar um passageiro do sexo masculino no período da noite.

E 68,6% já recusaram corridas de homens por medo ou desconfiança.

Charles não é o único que está de olho nesse nicho.  O Lady Driver, aplicativo que pretende ser o Uber das mulheres, foi lançado em março deste ano.  

LEIA MAIS: Segregação evita assédio sexual?

CONTOURS: UNIDADADE DO MORUMBI

CONTOURS

A rede de academias Contours foi uma das pioneiras a oferecer um espaço exclusivo para mulheres.

A primeira unidade foi fundada em 1998 por Daren Carter, dono de uma academia, na cidade Nicholasville, Kentucky, nos Estados Unidos.

Na época, ele percebeu que sua mãe não gostava de frequentar a academia nos horários convencionais.

Ela praticava exercícios antes do estabelecimento abrir ou depois de fechar porque não se sentia confortável em se exercitar em um ambiente dominado por homens.

Carter decidiu criar uma academia exclusiva para elas.  A Contours se tornou uma rede de franquias. Hoje, há mais de 500 unidades espalhadas por mais de 18 países.

No Brasil, Cassiano Ximenes foi o responsável pela expansão da empresa. Ele abriu a primeira franquia em 2004.  Hoje, são 20 endereços em seis cidades.

Ximenes acredita que as mulheres buscam uma academia feminina porque não se sentem confortáveis com seus corpos e não encontram o acolhimento necessário dentro dos estabelecimentos tradicionais.

Outro motivo são os olhares indelicados que recebem: “Algumas mulheres deixam de realizar alguns exercícios nas academias convencionais devido à presença masculina”, afirma Ximenes.

Os exercícios da Contours são realizados em circuitos e as séries foram planejadas para anatomia feminina. A rede também oferece aulas, como aeróbica, zumba e pilates, e serviços de estética.

A empresa está cautelosa com o plano de expansão no Brasil e pretende priorizar a região sudeste. “Por causa da crise, muitas mulheres cortaram os supérfluos”, afirma Ximenes. “Algumas preferem cortar a academia, em vez da escola de inglês dos filhos.”

OUTROS SERVIÇOS

Nessa onda feminina, alguns serviços foram adaptados para atender apenas ao público feminino. Em Nova York, nos Estados Unidos, em outubro deste ano, foi inaugurado o The Wing, um coworking exclusivo para mulheres.  

Em entrevista a revista Inc, Audrey Gelman, cofundadora do espaço, afirmou que as mulheres se sentem menos pressionadas e se tornam mais produtivas em um ambiente sem homens.

Em Curitiba, Autoescola Ella atende exclusivamente as futuras motoristas.  Em São Paulo, o Centro de Treinamento Mulheres no Trânsito realiza um trabalho similar com quem tem medo de dirigir.

Infelizmente, muitos desses serviços só prosperam porque mulheres se sentem ameaçadas ou constrangidas em espaços públicos e privados. 

FOTOS: Divulgação/Empresas