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Shoppings estudam ganhar sobre vendas do varejo online


Grupo de executivos analisa a possibilidade de criar uma taxa de cobrança para lojas que entregam no espaço físico itens vendidos pela internet


  Por Redação DC 14 de Junho de 2017 às 16:00

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


O e-commerce entrou na mira dos shopping centers

A possibilidade de se cobrar um percentual sobre as vendas feitas pela modalidade “Compre online e retire na loja” vem sendo discutida por um grupo de executivos da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce).

A informação foi divulgada nesta quarta-feira (14/06) pelo jornal Valor Econômico. De acordo com a publicação, a entidade estuda uma maneira de repartir os ganhos que o varejo tem registrado com o comércio eletrônico.

A retirada em lojas físicas, de produtos comprados online, tem crescido no mercado brasileiro. De acordo com o relatório Webshoppers, a prática – conhecida como pick-up store – está adquirindo cada vez mais relevância e aproximadamente 30% dos consumidores do e-commerce já optam por buscar a mercadoria pessoalmente. 

Com a opção do "retire em loja", o cliente compra algo pela internet e faz a retirada com data marcada, numa das lojas físicas, sendo que muitas delas estão localizadas em shopping centers.

Essa possibilidade reduz custos de logística e ainda atrai mais clientes para o espaço físico, na visão dos varejistas. 

A proposta de cobrança adicional está sendo estudada e deve entrar na pauta de um comitê interno de inovações da Abrasce, que realiza ações para trazer maior equilíbrio entre loja física e online.

Ainda de acordo com a informação veiculada, algumas sugestões devem ser apresentadas ao conselho administrativo da entidade até outubro. 

Fazem parte desse grupo de trabalho representantes de Iguatemi, BR-Malls, Mutiplan e Sonae Sierra Brasil.

“A ideia é abrir o diálogo e não queremos guerra de números. Queremos que todos ganhem juntos”, diz Glauco Humai, presidente da Abrasce, em entrevista ao Valor Econômico.    

De acordo com Humai, alguns grupos já realizam algumas práticas nesse sentido cobrando de 2% a 3% do valor da nota da venda feita pela web e retirada na loja.

Livraria Cultura, C&A, Leroy Merlin e Extra são alguns dos 1,5 mil nomes que trabalham com essa modalidade.  

Há três semanas, a Riachuelo, que tem 291 lojas no país, também integrou o e-commerce com a loja física.

Para Flávio Rocha, presidente da Riachuelo, a hipótese de os shoppings cobrarem uma taxa sobre a venda online, com retirada do produto na loja, é um assunto novo que precisa ser discutido entre os empreendimentos e os varejistas.

Ele argumenta que a integração dos canais pode ser boa para o shopping e para o lojista. De acordo com o executivo, isso pode aumentar o fluxo de pessoas no shopping e na loja. Pois, se o cliente vai buscar uma peça, pode acabar comprando outra na loja. 

“Mas é preciso estabelecer um critério para isso. Se a mercadoria transitou na loja, ela compõe o faturamento da loja”, diz Flávio. 

“Pelo que entendi, o que os empreendedores de shoppings querem é que as peças sejam tratadas como vendas da loja. A discussão será em cima disso”. 

O debate ganha peso num momento em que o varejo acumula perdas e começa a sinalizar uma leve retomada. 

Para André Ricardo Dias, diretor executivo da Ebit, o ideal seria que cada loja virtual disponibilizasse a quantidade exata de produtos disponíveis em cada loja física para o consumidor que opta pelo "compre e retire".

No entanto, na maioria dos casos, o produto é vendido pelo e-commerce, que direciona o item para a loja física escolhida. "Mas, os shoppings não entendem assim." 

Dias afirma que, na verdade, o ápice da discussão se centraliza em um fator: o estoque.

Para os varejistas que trabalham com estoque integrado, como, por exemplo, Magazine Luiza e Livraria Cultura, não há o que ser questionado. Pois, nesse modelo, os lojistas utilizam o mesmo espaço e os mesmos produtos para suprir tanto a operação online quanto a offline.

O maior problema está no estoque descentralizado, ou seja, quando as redes possuem CNPJs diferentes para cada tipo de operação.

"Aí, o empreendimento entende que está tendo seu espaço sublocado sem nenhum retorno."

Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que a discussão tem uma certa lógica, uma vez que a estrutura do shopping está sendo utilizada em benefício de um outro canal de compra.

"É uma discussão polêmica, que levará tempo e, se aprovada, certamente será transferida para o bolso do consumidor", diz.

A principal questão levantada pelas administradoras dos shoppings é que o produto vendido pelo site entregue na loja cria um estoque adicional às unidades que estão dentro dos empreendimentos, sem que o shopping seja remunerado por isso.

Ou seja, a venda não entra no valor do aluguel percentual ou no aluguel mínimo pago pelas redes. 

Apesar da polêmica em torno do tema, Humai defende uma espécie de parceria entre as partes. 

"Na nossa visão, o varejo eletrônico veio para ajudar, não para competir".

*FOTO: Thinkstock