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Será que o bitcoin tem espaço no varejo real?


A moeda virtual está evoluindo, mas a penetração no varejo físico ainda é lenta. Problemas na velocidade das transações e a volatilidade da sua cotação preocupam o comerciante, mas podem ser resolvidos


  Por Renato Carbonari Ibelli 12 de Setembro de 2017 às 13:00

  | Editor rcarbonari@dcomercio.com.br


Aos poucos o bitcoin - as moedas virtuais -ganha espaço no varejo físico. Ainda é preciso garimpar comerciantes que as aceitem, é verdade, mas o crescente número de compradores dessas moedas e a recente criação do Bitcoin Cash tendem a acelerar sua aceitação como forma de pagamento no comércio.

Hoje, na cidade de São Paulo, ao menos 70 empresas recebem moedas virtuais em troca dos seus produtos ou serviços, segundo informações do Coin Map, site que faz o mapeamento global dos estabelecimentos que apostam nessa nova modalidade de transação comercial.

Operar com bitcoin parece algo tentador. Seu valor superou o do ouro no início do ano. A crescente demanda pela moeda virtual –e, certamente, o trabalho de especuladores -fez com que sua rentabilidade chegasse a incríveis 340% ao longo de 2017. Na quarta-feira (6/09), um bitcoin valia aproximadamente R$ 17 mil.

Além da sua valorização, as transações feitas com dinheiro virtual não dependem da autoridade monetária ou do governo. Em outras palavras, a moeda circula entre as pessoas sem que taxas bancárias ou tributos, como o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), sejam cobrados.

“Para o comércio o bitcoin é muito interessante porque elimina todo o custo da operação com dinheiro”, diz Eduardo Oliveira, diretor da loja de suplementos alimentares Ultrafitness, que aceita esse tipo de pagamento desde 2013.

Mas então, se há tantos pontos positivos, por que o bitcoin ainda não deslanchou como meio de pagamento. Há um outro lado da moeda.

É grande a desconfiança em relação à estabilidade do dinheiro virtual, cuja cotação pode variar drasticamente sem um motivo aparente.

Diferentemente do dólar, do real, ou de qualquer moeda física, não há um lastro para moeda virtual, ou seja, não existem garantias reais que influenciem seu valor. O bitcoin varia conforme a oferta e a demanda, e sob influência das movimentações de especuladores.

Quem aceita a moeda eletrônica como forma de pagamento sabe dos riscos e tenta se prevenir.

Na agência de turismo Hora da Viagem, por exemplo, apenas 20% do valor do pacote pode ser adquirido dessa forma. “Por causa da volatilidade da moeda, por enquanto só aceitamos quantias menores e buscamos fazer a conversão para real rapidamente”, diz Thales Augusto, diretor da agência.

Há um outro problema: a demora nas transações. Por vezes, a validação de uma transação feita com bitcoin demora horas, às vezes dias.

Por medida de segurança, várias verificações precisam feitas automaticamente quando as moedas saem de uma carteira virtual para outra. Por exemplo, todas as transações feitas anteriormente pelo cliente têm de ser verificadas.

Uma estratégia dos comerciantes para lidar com essa situação é entregar o produto apenas depois da validação. Na agência Hora da Viagem as compras com moeda virtual só são aceitas em pacotes comprados 45 dias antes da viagem.

Evidentemente essa estratégia não funciona para bares, restaurantes, mercados e outros estabelecimentos que precisam entregar o produto ou serviço no ato da compra.

A boa notícia é que o problema da lentidão nas validações tende a diminuir com a recente criação do Bitcoin Cash, uma espécie de moeda virtual paralela.

BITCOIN CASH

Há uma série de moedas virtuais no mercado, o Bitcoin Cash, lançado agora em agosto, é mais uma delas, mas que se diferencia pela velocidade de processamento das transações feitas com ela.

Lá em 2008, quando foi criado o bitcoin, foi estabelecido um limite de transações por segundo que pode ser processados na rede. Foi uma forma de evitar sobrecarregar o chamado blockchain, sistema que registra todas as transações feitas eletronicamente em um banco de dados criptografado.

Os desenvolvedores do Bitcoin Cash argumentam que hoje o blockchain está muito mais robusto, permitindo aumentar o limite de transações processadas por segundo, dando assim maior velocidade às validações dos pagamentos. Se essa sistemática afetará a segurança das transações só o tempo dirá, o fato é que a compra dessa nova moeda tem crescido exponencialmente.   

“Sem dúvida, o processamento mais rápido dos pagamentos é um estímulo a mais para o varejo físico adotar o bitcoin”, diz Guilherme Murtinho, chefe de marketing da Bit One, empresa que está desenvolvendo tecnologia para adaptar as maquininhas de cartão à moeda virtual.

Para Murtinho, as moedas virtuais são um caminho sem volta. “Mas esse é um mercado que ainda precisa de uma regulação inteligente, que controle os abusos, mas ao mesmo tempo mantenha públicas e livres as transações”, diz o representante da Bit One.

Assim como o aumento dos dados processados no blockchain, a regulação desse mercado divide opiniões.

De acordo com Eduardo Oliveira, da Ultrafitness, regular o mercado seria fundamental para dar mais segurança às negociações com moeda virtual, evitando as oscilações bruscas da cotação.

Já para Thales Augusto, da Hora da Viagem, com os regras, viriam na esteira as taxas e impostos.

Os governos mundiais estão atentos ao bitcoin. Na China, onde a moeda parece estar mais difundida, há propostas concretas que pretendem estabelecer regras para as transações. Por aqui, foi criada uma comissão na Câmara dos Deputados para estudar o assunto. resta a dúvida: é possível como controlar o bitcoin?

IMAGEM: Thinkstock