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Refugiado sírio conquista as feiras paulistanas com iguarias árabes


O chef Mahmoud Ghalou pensava apenas em sustentar a família quando investiu nas tradições culinárias do seu povo. Da iniciativa informal, nasceu a marca Sonho Árabe, sucesso em feiras e eventos


  Por Wladimir Miranda 12 de Janeiro de 2017 às 13:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


O Brasil surgiu na vida do refugiadosírio Mahmoud Ghaloul, 41 anos, quando conheceu a potiguar Gabriela. Eles se encontraram em Dubai, nos Emirados Árabes.

Funcionária de uma empresa de tecnologia de Natal/ RN, ela estava a trabalho na cidade, onde Mahmoud era chefe de cozinha de um dos mais tradicionais restaurantes. Juntos desde então, ele mudou a rota de vida por ela. 

Foi um longo caminho desde o exílio da terra natal até a criação de um pequeno negócio na Zona Sul de São Paulo e o sucesso com a marca Sonho Árabe, de iguarias típicas em conserva. 

Quando perguntado o que acha do povo brasileiro, ele diz em árabe: “basit e nawe”. Traduzindo: simples e amável. É o reconhecimento de quem teve a vida transformada desde que chegou ao país em novembro de 2013, casado com Gabriela.

De Dubai, eles foram juntos foram para a Jordânia, onde se casaram no ritual muçulmano. Cinco meses depois, estavam na Turquia, onde ficaram três meses, antes de tomar o caminho do Brasil.
 
Vieram para o Rio de Janeiro e de lá para um breve período em Natal, para se casar segundo as leis do país. O destino final do casal foi São Paulo.

“Vim para cá sem conhecer ninguém”, conta Ghaloul. “Viemos com o carro da minha sogra, trazendo um ventilador, dois pratos e duas colheres.”

Na cidade, o casal morou num pequeno hotel no centro, antes conseguir alugar um apartamento minúsculo em Moema. O sírio conseguiu emprego como gerente de um restaurante em Guarulhos, nas proximidades do aeroporto.

Trabalhava muito, mas o que ganhava não era suficiente para pagar as despesas; decidiu arriscar. Cozinhar nunca foi problema para ele. Seguiu a tradição da família em que ele e os 11 irmãos aprenderam a ir para o fogão desde crianças.

SONHO ÁRABE NA FEIRA DE MOEMA. FOTO: DIVULGAÇÃO

Escolheu a feira de sábado na Vila Nova Conceição para vender as iguarias árabes que passou a fazer em casa. Começou com doce de abóbora, coalhada, berinjela recheada e pasta de pimentão, preparadas em conserva. 

Os produtos eram acomodados sobre uma mesa, protegida por um guarda-sol, de forma improvisada. No final da feira, tinha arrecadado R$ 300,00. Gostou do resultado e resolveu investir no negócio.

No dia seguinte, escolheu uma feira em Moema, onde residia, para vender seus produtos. O saldo das vendas foi ainda mais positivo. Arrecadou R$ 550.

“O bom resultado me deu coragem para continuar”, disse Mahmoud, com seu sotaque carregado. 

EM PLENA EXPANSÃO

As vendas se expandiram para cinco feiras, em bairros nobres de São Paulo. Os potes de conserva já não ficam mais sobre uma mesa. O faturamento cresceu e permitiu que o sírio comprasse uma barraca com teto de alumínio. E uma van. 

O pequeno negócio virou uma empresa formal, com a marca Sonho Árabe, e funcionando com licença da prefeitura. 

CONSERVAS SÃO OS FAVORITOS DA CLIENTELA. FOTO: DIVULGAÇÃO

A Sonho Árabe agora não se restringe aos produtos vendidos nas feiras da Zona Sul de São Paulo. Como chef, Ghaloul faz eventos. “Monto bufê com comidas árabes para festas de batizado, casamento, aniversário”, ele conta.

Ele não informa o faturamento da empresa, apenas que seus ganhos ultrapassam em 30% o salário que recebia como chef de cozinha num dos mais badalados restaurantes de Dubai.

O sucesso das iguarias, segundo Ghaloul, está em manter intactos o jeito de fazer e o gosto milenares da comida árabe. “Não faço comida árabe com jeito brasileiro. Cozinho como se estivesse entre os árabes, do jeito árabe.” 

Ele considera um erro dos restaurantes típicos no Brasil contratarem cozinheiros brasileiros. “O resultado é que a comida árabe perde suas características e acaba ganhando o jeitinho brasileiro.”

COMIDA COM JEITINHO ÁRABE. FOTO: DIVULGAÇÃO

NA ESCOLA DA FEIRA

O sírio escorrega no português. Está há menos de três anos no Brasil e não estudou o idioma. Nem em casa ele fala a língua. As conversas com a mulher são em inglês. 

A escola de Ghaloul é a feira. “Estou aprendendo a falar português na feira”, diz ele, ressaltando outro aspecto positivo que enxerga no povo brasileiro.

“Brasileiro adora ajudar. Muitas pessoas chegam à minha barraca e começam a gritar ‘Pessoal, compre aqui. Este cara só vende coisa boa’. É a coisa maravilhosa dos brasileiros”, afirma.

Vivendo no país na condição de refugiado, em breve, vai poder reivindicar a condição de cidadão brasileiro. Além de ter se casado com Gabriela, há um ano é pai de Maria, ou Mariam, em árabe. “Minha filha é brasileira. Quero ficar neste país a vida toda.”

Nascido em Homs, na Síria, onde viveu até os 19 anos, é o caçula de 12 filhos. Chegou a fazer o curso técnico no país. Mas decidiu não prestar o serviço militar obrigatório.
 
Juntou tudo que tinha e foi embora para Dubai. Ficou um problema - só poderia ver a família se pagasse U$ 5 mil ao governo sírio. Esta é a condição para quem deixou o país e quiser voltar para visitar a família. 

Em Dubai, começou como ajudante de cozinha até chegar a chef. O tempo corria sem novidades quando Gabriela surgiu na sua vida. 

Atualmente, o casal mora numa casa com quintal, na região de Santo Amaro. Há espaço suficiente para o chef caprichar na produção das iguarias. 

Em uma história com final feliz, o ponto de tristeza fica com a situação política da Síria. Os conflitos, iniciados em 2011, fizeram com que 7 milhões de compatriotas deixassem o país, sendo que 4 mil deles vieram para o Brasil.

FOTOS: Divulgação