São Paulo, 26 de Julho de 2017

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Redes regionais de supermercados avançam sobre as top 5
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Em um ano, empresas como a Delta, de Piracicaba (SP), elevaram sua participação no faturamento do setor, que movimentou R$ 338,7 bilhões em 2016, de acordo com a Abras

No ano passado, quando as vendas nos supermercados registraram queda de 3,1% nas vendas, o pior resultado desde 2003, de acordo com a PMC (Pesquisa Mensal do Comércio), do IBGE, a rede de supermercados Delta, com sede em Piracicaba (SP), inaugurou, em dezembro, sua quarta loja na cidade e a sétima filial.

Com 3,1 mil metros quadrados de área de vendas, 14 mil itens, 23 checkouts, 4 self checkouts e 250 vagas no estacionamento, a loja demandou investimentos de cerca de R$ 30 milhões, dos quais R$ 5 milhões foram destinados somente para uma central de panificação, que abastece as lojas da cidade e da região.

Localizada em uma das principais avenidas de Piracicaba, a nova loja, que possui adega, espaço gourmet, entreposto frigorífico, seção de produtos naturais e fitness, a nova loja da Delta contribuiu para elevar, no primeiro semestre deste ano, em 25% o faturamento da empresa, estimado em R$ 300 milhões neste ano.

“A disputa entre as redes na região está acirrada e precisávamos marcar posição. Com a nova loja, conseguimos dar um atendimento muito mais caloroso para os clientes”, diz Alexandre Ferrato dos Santos, sócio-proprietário da Delta, fundada há 33 anos.

NOVA LOJA DA DELTA EM PIRACICABA: INVESTIMENTO DE R$ 30 MILHÕES

Diferentemente de outras crises econômicas, quando os gigantes do setor engoliam os pequenos supermercados, elevando a concentração, desta vez as redes regionais estão mostrando fôlego, em meio à mais grave e prolongada recessão.

Geridas em geral por famílias, as redes médias ou regionais, que reúnem pouco mais de 500 bandeiras no país, elevaram em 11,1%, em média, o faturamento nominal nos últimos 12 meses terminados em março deste ano, ante 5,8% das globais, de acordo com recente levantamento da Kantar Worldpanel.

Também chamadas de top 5, são elas: Carrefour (francesa), Walmart (americana), grupo Pão de Açúcar (do grupo francês Casino), Cencosud (chilena, dona da rede GBarbosa e outras) e Dia (espanhola).

Com base em informações de pesquisa realizada com 11,3 mil domicílios, que representam 52 milhões de famílias brasileiras, a Kantar  constatou que as redes regionais avançaram em participação de mercado na crise.

AVANÇO DAS REGIONAIS

Nos últimos 12 meses concluídos em março passado, as redes médias passaram a deter 88% do faturamento total dos supermercados ante 12% das top 5. Em 2015, a proporção era de 85% e 15%, respectivamente.

De acordo om a Abras, associação que reúne supermercados, hipermercados e atacarejos, o faturamento do setor atingiu R$ 338,7 bilhões em 2016.

Muffato e Condor, do Paraná, e Záffari, do Rio Grande do Sul foram as bandeiras regionais no segmentor de hipermercados que mais cresceram em faturamento no período analisado pela Kantar.

Entre os supermercados, as cadeias que mais aumentaram a receita foram as redes Mundial, do Rio de Janeiro, e SuperBom e Nagumo, de São Paulo.

No modelo de atacado, destacam-se Mart Minas, de Minas Gerais, e Roldão e Tenda, de São Paulo.

“As redes médias ou regionais estão à frente na evolução do modelo de negócio, pois conseguiram enxergar mais rapidamente que não adianta somente ter preço baixo", afirma Tiago Oliveira, gerente de Shopper e Retail da Kantar. "O consumidor quer mais do que isso: quer variedade, produtos com qualidade, bom atendimento, experiência de compra”,

Para a equipe de especialistas em consumo da Kantar, quatro fatores explicam por que as redes regionais vêm alcançando desempenho superior à das globais:

►Lojas próximas de residências e escritórios - As lojas de redes regionais, em geral são procuradas pelos clientes para reposição de produtos.

A compra de reposição representa 45% do faturamento do varejo de supermercados. “Essa compra menor, portanto, é muito importante para as redes médias, pois faz com que o cliente vá quase todos os dias na loja”, diz Oliveira.

A rede de supermercados Yamauchi, com seis lojas no bairro da Mooca e região, em São Paulo, está rodeada de residências e escritórios, o que faz a loja, especialmente da unidade da rua Conde Prates, trabalhar quase com a venda garantida.

LOJA DA REDE YAMAUCHI, NA MOOCA, ABASTECE RESIDÊNCIAS E ESCRITÓRIOS DA REGIÃO

“A tendência são as lojas de vizinhança, como as nossas. As vendas caíram uns 10% com a crise, mas voltaram a reagir”, afirma Alberto Yamauchi, sócio-proprietário da rede, que tem 50 anos no bairro.  

►Lealdade - O cliente da loja regional é mais leal do que o de uma rede global. A lealdade dos compradores de redes médias é de 51% ante 7% das top 5. “A fidelidade nas redes menores é maior porque o atendimento é melhor, há mais atendentes, experiência de compra, contato dos clientes com os donos”, diz Oliveira.

Nas pesquisas conduzidas junto às famílias, a Kantar identificou que, por vezes, um supermercado de menor porte, que oferece caixas para os clientes ou serviço de empacotamento, é preferido, mesmo que os preços dos produtos sejam mais elevados.

Mais de 70% dos cerca de 100 mil clientes que frequentam mensalmente as lojas do Yamauchi são fiéis, de acordo com Yamauchi.

Para manter a fidelidade, diz ele, membros da família estão sempre presentes nas lojas, ouvindo os gerentes de áreas sobre as reclamações e as demandas dos clientes.

A rede tem 900 funcionários, com apenas seis lojas. “Não dá para diminuir o pessoal e aumentar as filas dos clientes nos caixas. Prezamos muito o bom atendimento”, diz Yamauchi.   

►Sortimento com marcas regionais - As redes menores, principalmente do interior, costumam trabalhar com marcas de produtos locais, capazes de atrair os consumidores para as lojas.

A marca de café Itu, da cidade de Itu, é um bom exemplo. “80% da venda de café em Itu e região é da marca Itu”, não comercializada, segundo ele, em supermercado de bandeira global.

“A marca de iogurte que mais vende no Nordeste é Betânia, feita por um fabricante da região, e encontrada somente nas redes regionais”, afirma Oliveira.

►Reforço da área de perecíveis - As redes globais, de forma geral, reduziram as áreas de perecíveis, que demandam mais cuidados e funcionários, como uma forma de cortar custos. E são justamente essas seções que levam clientes diariamente para as lojas.

“As seções de hortifrútis, carnes, peixaria e padaria atraem os clientes para as lojas a cada três dias, pelo menos. Quando um hipermercado ou supermercado reduz essas áreas, desinveste em seções que mais levam clientes até ele”, diz Oliveira.

As redes Walmart, Carrefour e Extra, do grupo Pão de Açúcar, de acordo com a Kantar, reduziram equipes nessas áreas.

“Na rede Walmart, por exemplo, não se faz mais pão nas lojas. Eles chegam prontos para serem assados. Em algumas das lojas das redes globais também não há mais a seção de peixaria. O Carrefour começou a repensar isso e a melhorar a área de perecíveis, mas não em todas as lojas”, diz Oliveira.

O consumidor está com o orçamento mais apertado, mas, de acordo com a Kantar, continua gastando com marcas e em locais que tragam algum benefício.

LEIA MAIS: Volume de compras das famílias recua ao patamar de 2010

Michel Cutait, consultor de varejo, lista algumas das principais falhas das top 5 nos últimos anos: desconhecimento do cliente nas regiões onde atuam, falta de relacionamento com os consumidores e investimento somente em campanhas institucionais, não direcionadas para os mercados onde estão as lojas. Afirma Cutait:

"As lojas regionais sabem exatamente quais são as necessidades dos clientes, pois estão perto deles. O consumidor não quer ser apenas mais um e não admite não receber o atendimento e o benefício que ele mercede. As lojas regionais têm capacidade de mudar velozmente a comunicação com os consumidores. Tudo isso joga a favor delas."

Não é à toa que as redes globais estão expandindo o formato de lojas menores. A rede Extra já possui 197 lojas no formato de minimercado em São Paulo e Recife. A rede Pão de Açúcar possui 78 lojas no formato Pão de Açúcar Minuto. 

É bem provável que boa parte do dinheiro arrecadado com a oferta de ações (IPO) do Carrefour no Brasil irá justamente para a expansão da rede Carrefour Express, com 30 lojas em São Paulo, de acordo com consultores de varejo.

É nessa direção que a rede vai se expandir no país, como já afirmou Charles Demartis, presidente da filial brasileira.

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FOTOS: Fátima Fernandes/Diário do Comércio e Divulgação 



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