Negócios

Recessão derruba preços de serviços em São Paulo


Em maio, o IPCA registrou alta de apenas 0,05% nos serviços, com reflexos diretos sobre negócios do setor


  Por Estadão Conteúdo 25 de Junho de 2017 às 12:56

  | Agência de notícias do Grupo Estado


Rossano Iaconelli nem consegue se lembrar da última vez em que usou a placa de "Não há vagas" no estacionamento que administra desde 1996 na Avenida Paulista, região nobre e cercada por escritórios em São Paulo.

"Muitas empresas fecharam, quem tinha trocado a sala comercial por um endereço compartilhado, para cortar custos, também não aguentou. Dois concorrentes fecharam recentemente e nem assim meu movimento cresceu. Está bem difícil, não é hora de mexer no preço."

Na mesma avenida, o estacionamento de Danilo Scatolini teve de transformar o preço da primeira hora no total cobrado pelo dia inteiro.

"Mesmo com todo o esforço, a frequência caiu 50%, no mínimo. A gente nem consegue ganhar o suficiente para pagar o aluguel e os custos trabalhistas, estamos no vermelho. Este estacionamento existe há mais de 40 anos, mas, se continuar assim, não vamos durar muito mais tempo."

Nos últimos meses, os preços dos serviços deram, enfim, sinais de que também sucumbiram à recessão.

Em maio, o IPCA registrou alta de apenas 0,05% nos serviços e, em 12 meses, essa inflação foi recuando de 6,05% em março para 5,96% em abril e 5,62% em maio.

Para o IBGE, esse índice é mais resistente porque parte dele vem da indexação de contratos, que tende a perder força de alta à medida que a inflação arrefece.

"Os preços continuaram subindo, não dá para esperar uma deflação nessa categoria, mas o ritmo de alta dos serviços perdeu mesmo fôlego", diz o economista Fabio Romão, da LCA Consultores. "No ano passado, o IPCA para os serviços subiu 6,5% e já comemoramos. Agora, nossa previsão é de alta de 4,9%, a menor desde o ano 2000."

O representante de vendas Osmar Lallo Júnior, de 54 anos, concorda com as estatísticas do IBGE.

Para ele, os preços que tem pago por serviços, como estacionamento, barbearia e lavanderia pararam mesmo de aumentar este ano em relação ao ano passado e os cerca de R$ 700 que gasta na compra do mês no supermercado para a sua casa e a dos pais têm rendido tanto quanto antes.

"A gente percebe alguns aumentos pontuais. A carne, por exemplo, subiu muito de uns tempos para cá, mas com toda essa crise, desemprego e incerteza, pelo menos os preços pararam de dar susto. É raro pensar em uma coisa positiva nestes últimos anos."

MARGEM

Para compensar a baixa demanda do consumidor, reflexo da crise, o comerciante muitas vezes prefere ver sua margem de lucro reduzida a cobrar mais dos clientes, e a falta de reajuste nos preços já pode ser sentida pelo brasileiro.

Quando a cabeleireira Maria Gorete de Oliveira abriu seu salão de beleza na zona sul de São Paulo, em julho de 1993, um exemplar do Estado custava Cr$ 30 mil (cruzeiros) em uma banca de São Paulo - o dobro do que era cobrado três meses antes.

"Eu tinha de mexer nos preços o tempo todo. Qualquer descuido, acabaria no prejuízo. Olhando para trás, parece até outro mundo."

Da época em que a alta da inflação era uma conversa recorrente entre as clientes do salão, só ficou a memória.

"Não consigo aumentar os valores desde o começo do ano, não quero correr o risco de perder movimento. Fiz pacotes promocionais, dei desconto no corte, no alisamento, mas nem assim deixei de perder clientes", diz Maria.

Para o professor da PUC-Rio José Marcio Camargo, a inflação de serviços é resistente porque as empresas só conseguem reduzir o salário nominal dos funcionários em uma negociação coletiva.

"O custo é reduzido quando o funcionário é demitido e outro é colocado no lugar por um salário menor, mas esse impacto demora para chegar até o consumidor."

FOTO: Charles Sholl/FuturaPress/Estadão Conteúdo