São Paulo, 28 de Setembro de 2016

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Por que o mercado brasileiro está no radar da Ikea
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A empresa sueca –líder na produção de móveis domésticos de baixo custo– estuda se instalar no país. Há fatores favoráveis de peso, mas não faltam obstáculos

Depois de diversos rumores, a Ikea está dando seus primeiros passos no Brasil. A maior empresa do mundo no setor de móveis e decoração instalou seu primeiro escritório em Curitiba para realizar pesquisas sobre o mercado brasileiro – que domina 63% do setor na América do Sul. 

Apesar dessa primazia regional, a indústria moveleira nacional é considerada bastante precária: grande parte da mão de obra é mal qualificada e há baixos investimentos em tecnologia. Há muitas oportunidades, mas também não faltam riscos, para a entrada da companhia sueca no Brasil. É o que revela a análise de Hiroshi Ito e Rebecca Harrison, pesquisadores do centro internacional da Universidade de Nagoya, no Japão.

CRESCIMENTO DA CLASSE MÉDIA E CONSUMO

Apesar dos recentes problemas econômicos, a classe média brasileira cresceu significativamente nos últimos dez anos.  Em 2005, 51% da população era considerada parte das classes B, C e D. Seis anos depois, o número subiu para 54%.  De acordo com os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 37 milhões de brasileiros entraram na chamada nova classe média.  

A Ikea pode se beneficiar com esse crescente número, já que os produtos da marca são destinados exatamente à classe média. A empresa mantém preços acessíveis e design prático e diferenciado, em grau superior ao encontrado no varejo brasileiro.

Por outro lado, a atual crise e o endividamento das famílias podem ser fatores negativos. O consumo indiscriminado de todas as classes sociais. No primeiro trimestre desse ano, caiu 0,9% em relação ao mesmo período de 2014. Foi a primeira retração desde o terceiro trimestre de 2003.  

Se a Ikea entrar no mercado brasileiro nos próximos meses, terá que lidar com um cenário complicado, mas com o potencial de recuperação nos próximos anos.  

CLIENTES ONLINE

A internet tem sido uma porta de entrada para novas empresas no Brasil. De acordo com o relatório da Internet World Stats, há no país  88 milhões de internautas –o que mostra um vasto potencial para o comércio eletrônico. A Ikea –em todos os países em que está presente – estimula que os consumidores realizem suas compras online, o que ajuda a manter os preços baixos (há uma significante diminuição dos custos para a empresa). 
    
Outro fator que encoraja as vendas pelo comércio eletrônico é a intensidade com que se navega no mundo online. São 35 horas a cada mês --tempo semelhante às 37 horas dos americanos. Com esse consumo de tempo online, a Ikea terá que investir pesado na venda e no marketing na rede.  

Uma fonte importante para a divulgação da marca serão as mídias sociais e os brasileiros compõem a nacionalidade que passa mais tempo nessas redes.

A média é de 13,8 horas por mês –europeus e americanos passam entre seis e sete horas respectivamente, e os demais latino-americanos cerca de 10 horas mensais. A internet, especialmente as redes sociais, é um local aonde os consumidores do Brasil vão para descobrir novos produtos e marcas. 

Apesar dessa hiperconectividade dos brasileiros, apenas 42,6% dos latino-americanos usam frequentemente a rede, o que pode dificultar o crescimento da marca nos países vizinhos. Isso mostra que a Ikea não pode depender apenas do comércio online como seu principal ponto para a expansão pela região –já que a metade de seu novo público não tem acesso ao mundo online. 

 

INTERIOR DA LOJA DA IKEA EM BERLIM. Foto: ThinkStock

PRODUTOS ECOLOGICAMENTE CORRETOS 

Os itens anteriores apontam que apesar de alguns contratempos existem boas oportunidades para empresas estrangeiras que querem entrar no mercado brasileiro. Mas qual seria a vantagem competitiva ou o diferencial da IKEA? Uma das respostas é a preocupação que a empresa tem com a sustentabilidade. 

Uma pesquisa realizada em 2011 pela Global Inteligence Alliance, mostrou que os brasileiros estão se tornando cada vez mais seletivos com móveis que consomem, principalmente em relação à procedência. No levantamento, 64% dos brasileiros disseram que a responsabilidade ambiental é uma das principais obrigações de uma empresa. 

Ser ecologicamente correto está se tornando parte do dia a dia dos brasileiros, tanto que muitas empresas nacionais estão desenvolvendo produtos menos agressivos ao meio ambiente – por exemplo, a fabricante de calçados Amazonas, que criou um chinelo biodegradável que, após o uso, leva apenas cinco anos para se decompor completamente.  

Nesse quesito a Ikea realmente se destaca. A empresa sueca é uma das pioneiras na preocupação com os produtos sustentáveis: desde 1990 a companhia desenvolveu uma política para diminuir os impactos ambientais de seus produtos. 

MODELO DE NEGÓCIO 

O principal desafio da Ikea no Brasil será manter o mesmo padrão das lojas estrangeiras. Encontrar um terreno que seja perto das grandes capitais e que acomode o porte de uma das gigantes lojas da marca pode ser uma tarefa bastante complicada – uma das recentes lojas abertas em Miami ocupa 37 mil metros quadrados. A empresa geralmente escolhe locais próximos a grandes centros urbanos e com fácil acesso por meio de rodovias. 

Além disso, no modelo de negócio da empresa os móveis devem ser montados, em casa, pelos próprios clientes, o que pode não ser bem aceito no país. Os consumidores brasileiros estão acostumados com o serviço de montagem.

Outro empecilho será a confusa lei tributária brasileira. Dificilmente, a Ikea conseguirá manter os preços baixos, praticados nas lojas estrangeiras, um dos grandes diferenciais da marca, por causa da alta carga tributária nacional – objetos como almofadas e luminárias são taxados em 33,84% e 38, 35%, respectivamente. 

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*Foto: ThinkStock