Negócios

Os chineses estão chegando. Já chegaram


Após investir no Peixe Urbano, o Baidu, segundo maior buscador do mundo, está atrás de startups brasileiras


  Por Thais Ferreira 07 de Outubro de 2016 às 08:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Quando se fala em novas tecnologias, a maior parte das pessoas pensam imediatamente no Vale do Silício, na Califórnia, ou, no máximo, em Tel Aviv, em Israel. Mas outro país quer inserir seu nome entre os berços da inovação: a China.  

A ideia de que os produtos chineses seriam cópias mal feitas dos produtos americanos caiu por terra já há algum tempo. Basta ver o sucesso de alguns aparelhos de smartphone, como os da Xiaomi ou os da Asus. 

Mas os chineses estão mudando também a internet e desenvolvendo novas ferramentas online. 

Se por um lado as restrições impostas pelo governo chinês à internet – com filtros e bloqueios que impedem que a população acesse livremente todos os conteúdos – são uma grave afronta à liberdade, de outro esse controle estimulou o surgimento de empresas nacionais de tecnologia, que criaram ferramentas próprias.

Em vez da busca no Google, eles utilizam o Baidu. No lugar da Amazon, utilizam o Alibaba. Para postar vídeos se valem do Youku, em vez do Youtube. E assim segue por quase toda a trilha da internet. 
 
Durante um tempo, a inspiração para essas ferramentas vinha do ocidente. Hoje, o caminho é inverso. 

Um bom exemplo é o aplicativo WeChat. Desenvolvido pela empresa chinesa Tencent, ele é chamado de “Super App” porque reúne diversas funções numa única ferramenta.

Dentro desse aplicativo é possível comprar produtos e serviços, trocar mensagens, postar fotos, consultar mapas, entre outras funções. Ou seja, são todas as ferramentas de todos os aplicativos reunidos num só. 

Empresas americanas estão tentando replicar o modelo que faz um grande sucesso em seu país de origem. Estima-se que existam 700 milhões de usuários ativos por mês dentro da plataforma. 
   
CHINA NO BRASIL
 
Um exemplo dessa influência chinesa em terras brasileiras é o Peixe Urbano. Cofundada por Alex Tabor, a empresa foi uma das responsáveis pelo fenômeno das  compras coletivas que aconteceu no começou desta década. 

Em 2013, o modelo de negócio que se baseava em descontos agressivos, vouchers, ofertas de curto prazo e quantidade mínima de compradores teve que ser revisto. 

“Na época, a principal forma de divulgação era o e-mail marketing”, afirma Tabor. “A ideia era divulgar restaurantes novos que queriam atrair e fidelizar os clientes”. 

Mas os vouchers se tornavam virais e atraíam um grande contingente os consumidores que estavam à procura apenas de preços baixos. 

Além disso, muitos comerciantes acabavam espremendo as margens de lucro, o que era insustentável em longo prazo. E para fechar a equação, surgiram diversos pequenos concorrentes. 

A equipe do Peixe Urbano teve que reestruturar seu modelo de negócio e a inspiração veio da China. O mercado desse país tinha passado por ciclo parecido com o brasileiro. 

Tabor e seus sócios perceberam que na China a adoção do smartphone estava amplamente massificada e acreditavam que o mesmo fenômeno aconteceria no Brasil. 

Eles decidiram apostar no consumo por celular. O principal meio de comunicação deixou de ser no e-mail marketing e passou a ser as mensagens para os smartphones.

O foco, agora, era a experiência do consumidor. Em vez de site de compras coletivas, a empresa passou a ser e-commerce local. 

Na outra ponta dessa história estava a gigante chinesa Baidu que tinha grande interesse no mercado brasileiro e queria investir numa empresa com um grande potencial de crescimento do m-commerce (mobile commerce). 

Em setembro de 2014, o Baidu se tornou acionista majoritário do Peixe Urbano. 

Alex Tabor, cofundador do Peixe Urbano

ENSINAMENTOS DO SÓCIO CHINÊS

Durante dois anos, a empresa foi profundamente modificada pelo jeito chinês de fazer negócios. Tabor, que estudou na Universidade do Sul da Califórnia, acredita que os chineses estão alguns passos na frente quando o assunto é inovação.

“Eles estão criando negócios e tecnologias que estão mudando mercados”, afirma. “Além disso, eles são bastante ambiciosos.”

Uma das principais diferenças no quesito gestão está na forma de pensar o crescimento de empresa. Em vez de se preocupar com aumentar a rentabilidade, como ocorre no Brasil, os chineses almejam crescer em escala.

 “Eles são mais pacientes porque estão preocupados com o tamanho do mercado”, diz Tabor. “Mesmo que as margens não sejam grandes, eles conseguem crescer graças ao grande volume.”

Os resultados já apareceram. Em 2015, o faturamento do Peixe Urbano dobrou em relação ao ano anterior. No primeiro semestre deste ano, a empresa cresceu 50%.

O Peixe Urbano não será a única empresa a aprender e ter o aporte financeiro dos chineses. O Baidu anunciou recentemente a criação do Easterly Ventures, um fundo de investimento no valor de US$ 60 milhões. Eles irão investir em startups brasileiras que desenvolvam serviços e conteúdo locais. 

Além do dinheiro, o Baidu irá oferecer para essas startups: tecnologia, tráfego mobile e expertise internacional. Esse deve ser o começo da invasão chinesa nos negócios brasileiros. 

FOTO: Thinkstock