São Paulo, 28 de Setembro de 2016

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Onde o fracasso não tem vez: a história de André Kina
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A trajetória de um economista que não teve sucesso com o seu primeiro negócio, mas não desistiu de empreender. Hoje, ele é dono da 4BIO – varejista de medicamentos que faturou R$ 124 milhões.

Aos 18 anos, o americano Tommy Hilfiger já comprava, customizava e revendia calças jeans. Ainda jovem abriu sua primeira loja de roupas, a The Place People, em Nova York. A falta de experiência levou o empresário à falência, mas ele não desistiu. 

Recusou um convite para trabalhar na Calvin Klein, deu a volta por cima e fundou a Tommy Hilfiger Corporation. A pequena empresa cresceu e se tornou uma marca conhecida internacionalmente – faturando mais de um bilhão de dólares por ano. 

“No passado, eu não tinha uma visão geral da minha empresa. É por isso que fali com 25 anos. Foi terrível. Um amigo me disse para me concentrar sempre no negócio”, disse Hilfiger, num recente artigo. “Você pode ser criativo, mas deve sempre lembrar que as porcas e parafusos de uma empresa são parte da mecânica de qualquer sucesso. Eu percebi que precisava ter uma cabeça nos negócios e outra no design”. 

TOMMY HILFIGER: FALIU AO 25 ANOS E DEU A VOLTA POR CIMA

A jornada do estilista é muito comum no mundo dos negócios: empresários que fracassam em suas primeiras tentativas, mas que conseguem se reerguer e montar uma nova empresa de sucesso. Nos Estados Unidos, cada vez mais empreendedores acreditam que errar não é motivo de vergonha. Eles entendem que essa é uma oportunidade para aprender e que as falhas não devem ser encaradas como um pretexto para a desistência.

Alguns empresários no Brasil, como o Romero Rodrigues, fundador do Buscapé, também acreditam na “cultura do fracasso”. Esses empreendedores incentivam os funcionários a tentarem coisas novas, mesmo que cometam erros. Rodrigues acredita que as falhas fazem parte do processo de crescimento e que podem ajudar a desenvolver soluções inovadoras. Conheça a história de um empresário brasileiro que também não se rendeu na primeira tentativa:

UM COMEÇO DIFÍCIL 

O baiano André Kina, 42 anos, seguia uma trajetória comum aos executivos de grandes empresas. Formado em economia numa grande universidade, ele tinha uma carreira promissora na multinacional P&G. Mas algo não parecia certo. Desde a faculdade, Kina sentia vontade de montar seu próprio negócio. Na época, ele não estava preparado para enfrentar esse desafio optou, então, por trabalhar numa grande corporação. 

Depois de seis anos na empresa, já ocupava o cargo de gerente financeiro e descobriu que seria transferido para uma filial fora do Brasil. O que era uma conquista para muitos se tornou um dilema para o economista: se continuasse na P&G e saísse do país, seu desejo de ser empresário ficaria cada vez mais longe. “Prestes a ser expatriado e com a data do casamento marcada, eu pedi demissão”, diz Kina. 

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Ele sentiu que tinha aprendido o suficiente dentro da P&G e que era hora de caminhar com as próprias pernas. Passou seis meses, estudando temas relacionados ao empreendedorismo. Em 2001, junto com  seu primo, abriu a IPPON – empresa que prestava serviços para grandes montadoras de carros. “Nós fazíamos a montagem e o polimento de peças, por exemplo”, diz Kina. Apesar do tempo de preparação e da leituras que fez, o empresário cometeu dois erros fatais: não ter um plano de negócio e não estudar a concorrência. 

Nesse ramo de autopeças, a IPPON competia com muitas empresas informais que ofereciam os mesmos serviços a preços muito baixos. Sem poder competir, o negócio começou a ir mal e a dar prejuízo para os sócios. Era o fim. Sem emprego fixo, o economista questionou sua escolha de sair da P&G. “Era inevitável a comparação com os meus amigos que tinham ficado na carreira executiva, pensei em retornar ao mercado”, afirma Kina. “Tive sorte porque não fiquei com dívidas, mas precisava me sustentar”. 

A VOLTA POR CIMA

Ainda desanimado com a sua primeira experiência como empresário, ele aceitou um trabalho temporário como consultor na área da saúde. Após estudar esse mercado, ele percebeu que existia uma oportunidade para abrir uma empresa que vendesse medicamentos especiais – remédios de pouco uso e que não são vendidos em farmácias convencionais, por exemplo, produtos para tratamento da infertilidade e de alguns tipos câncer. 

Para conseguir essas substâncias, os pacientes tinham que importar; o que demandava muito tempo e dinheiro. Em 2005, ele fundou com capital próprio a 4BIO para atender esses consumidores. 

A principal dificuldade no começo foi montar uma equipe capacitada, pois era difícil atrair talentos para trabalhar numa empresa desconhecida. “Contratamos jovens com pouca experiência e, com o tempo, desenvolvemos a habilidade destas pessoas”, diz Kina. 

Com o conhecimento do mercado, Kina conseguiu em pouco tempo fazer com que seu negócio prosperasse. Desde a fundação, a empresa cresce  50 % ao ano em média e fechou o faturamento de 2014 em R$ 124 milhões. A 4BIO tem 103 funcionários e filiais em Campinas e Palmas, no Tocantins.

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O empresário acredita que o sucesso de sua segunda empresa está relacionado com a experiência que teve com a IPPON. “È fundamental ter paixão pelo mercado em que você está atuando e estudá-lo, eu sempre gostei da área da saúde”, afirma Kina. “Um erro comum é montar uma empresa apenas pelo desejo de empreender; é preciso ter foco e ficar de olho nas oportunidades”.

ANDRÉ KINA DESISTIU DE UMA CARREIRA COMO EXECUTIVO PARA MONTAR A PRÓPRIA EMPRESA

Nesses 10 anos à frente da 4BIO, André Kina também aprendeu outras lições valiosas. Para manter o crescimento da empresa, ele se espelhou em empresas estrangeiras que atuam no mesmo setor para criar um sistema de serviços a domicilio. Como alguns medicamentos comercializados têm uma aplicação difícil, a empresa oferece a ajuda de enfermeiros especializados.

A 4BIO também está atenta às novas tecnologias e foi uma das primeiras empresas do setor a vender medicamentos por meio de smartphones. Outro fator que contribui para a expansão constante da empresa foi a preocupação de André Kina com a formação de uma boa equipe. “Buscamos pessoas comprometidas e recompensamos o bom trabalho”, diz Kina. Os funcionários que se destacam podem ganhar bônus de até seis salários por ano e se tornar sócios da empresa.  

Mesmo com a trajetória bem sucedida da 4BIO e com planos de expandir o negócio nos próximos anos, o empresário não esquece a lição que aprendeu com a sua primeira empresa: “O fracasso nem sempre é ruim”, diz Kina. 



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