São Paulo, 25 de Setembro de 2016

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O refinamento visual dos centenários ladrilhos hidráulicos
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Sucessão de três gerações garante tradição familiar e sucesso na produção de azulejos artesanais, no centro de SãoPaulo

Em meio a tanta modernidade no mundo dos revestimentos, ainda há quem prefira produtos artesanais. E não é pouca gente. Quem afirma é Hamilton Cristofalo Júnior, 39 anos, proprietário da L.H.A. (Ladrilhos Hidráulicos Artesanais), uma fábrica de ladrilhos hidráulicos fundada há quase 100 anos. 

Ao lado de um primo, Júnior representa a quarta geração da família em um comércio que parece mágico. As tintas são preparadas, o cimento é moldado, as cavidades são preenchidas, o secante é espalhado, e o ladrilho é prensado. Desse processo, já surge um quadrado colorido quase pronto para ser assentado.

Faltam ainda 30 horas de repouso, mais um banho de imersão na água por quatro horas e outros 35 dias de "cura" (secagem). A mesma receita se repete diariamente, há mais de 90 anos, no número 69, da Rua Porto Calvo, na região central de São Paulo.

São milhares de ladrilhos hidráulicos produzidos pelas mãos de 16 funcionários que realizam um trabalho minucioso e artesanal, dentro dos 750 metros quadrados da antiga fábrica, que nunca mudou de endereço.

A técnica é italiana e chegou a São Paulo pelas mãos de Federico Dalle Piagge, bisavô de Júnior, que se mudou de Lucca, na Itália, para São Paulo. Piagge fundou a L.H.A. em 1922. Mas, a história começou um pouco antes, em 1914, quando o italiano começou a testar a técnica.

PROCESSO DE COMPOSIÇÃO DE CORES/FOTO: DC

"Era uma porção de italianos tentando fazer aquilo dar certo. E deu. Depois com meu avô, meu pai e agora comigo e meu primo. Por isso, não falo que sou o dono dessa fábrica. Digo que estou dono", diz.

Hoje, o bisneto de Piagge é um dos poucos fabricantes do revestimento em São Paulo que ainda mantêm moldes trazidos da Europa. São mais de 1.300 desenhos. Quase todos originais da Itália, Inglaterra, França e Espanha. Acervo que ele conhece com propriedade, resultado de uma entrega profissional imensurável. 

Antes das 7 horas da manhã, Júnior já está na fabrica, sem hora para sair. “Alguns dias fico até as 23 horas. Depois do expediente calculo plantas, faço orçamentos e simulações e respondo aos e-mails.”

Além de atender a todos os clientes que passam pela loja, ele também responde pessoalmente a todas as solicitações que chegam pelo correio eletrônico.. “Se não, parece descaso”, diz. Nem mesmo aos domingos Júnior se desliga dessa rotina. Na companhia da esposa, ele aproveita a ausência dos clientes para acompanhar detalhes da produção.

JÚNIOR: PAIXÃO POR LADRILHOS/FOTO: DC

Desde que está a frente da L.H.A, Júnior conta nos dedos as poucas vezes que se ausentou. “Ano passado tive um problema na coluna e fiquei dez dias afastado. Quase morri, sentia falta do cheiro do cimento”, diz.  “Os livros que leio são sobre ladrilhos, e pesquiso e converso muito sobre isso. Tudo na minha vida envolve ladrilhos.”

O espaço que hoje é o seu local de trabalho já foi o seu parque de diversões quando criança. Ao chegar do colégio, Júnior se juntava à companhia do avô para fazer a tarefa escolar, emendando a atividade ao cargo de ajudante mirim do patriarca da família.

"Com sete anos, eu buscava peças para clientes, ajudava no carregamento dos caminhões, apenas uma peça por vez para não quebrar." No fim do dia, como era justo, Júnior recebia seu salário. "Dava pra comprar um refrigerante."

Como ajudante do avô, uma de suas missões era ajudá-lo com os registros do livro-caixa, que estão na loja até hoje, intocados. São eles que revelam a clientela que já passou pela fábrica.

Integrantes da família Matarazzo e o Edifício Martinelli são alguns dos nomes que surgem ao folhear as páginas. Restaurado em 2010, o piso do terraço do Martinelli, no Centro, voltou a circular pelas prensas do comércio quase centenário. A instalação original também é deles e foi feita pelo bisavô de Júnior.

LADRILHO ENCOMENDADO POR NIEMEYER/FOTO: DC

Atualmente, nomes como o escritor Walcyr Carrasco e o empresário Nico Gonçalves engrossam essa lista de clientes famosos. A empresa também acumula pedidos pra lá de especiais, como os dos arquitetos Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha.

"Produzimos peças de até 20 cm x 20 cm. Imagine a minha surpresa quando me ligaram perguntando se eu produziria um ladrilho de 30 cm x 30 cm para o Niemeyer. Aceitei na hora. Deu trabalho até acertarmos a receita, mas entregamos as peças do jeito que ele queria" – o desenho feito pelo arquiteto retratava uma mão segurando uma flor.

Hoje, os ladrilhos recebem os pés de quem visita a capela da Fazenda Rainha, em Poços de Caldas (MG), um dos últimos trabalhos de Niemeyer, morto em 2012.

Quatro gerações já ficaram à frente dos negócios da L.H.A. e, possivelmente, a quinta está a caminho. Filipe, o sobrinho de Júnior, de apenas 11 anos, é fascinado pela fábrica. "Ele curte a parte artística, e simula alguns azulejos. Gosta de brincar com as cores e desenhos e passa horas lá na produção. É um forte candidato a dar continuidade ao negócio," diz.

"Brinco que, quando eu morrer, quero ser cremado e que minhas cinzas virem ladrilho hidráulico. É a minha grande paixão."

 



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