São Paulo, 24 de Maio de 2017

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"O país terá mais uma década perdida"
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É o que afirma o economista Nelson Barrizzelli, consultor de varejo. Para ele, mesmo com a retomada da economia, empresas enfraquecidas terão dificuldade para sobreviver porque exauriram seus recursos

As empresas que sobreviveram até agora ao furacão da crise devem encontrar alívio na inversão de expectativas de indicadores, a começar pela divulgação de recentes índices de confiança, agora um pouco menos pessimistas.

Não deve ser descartada. porém, uma tese formulada pelo professor, palestrante e consultor Stephen  Kanitz, segundo a qual é justamente no momento de retomada da economia que empresas menos resilientes fecham as portas.

Ao longo da crise econômica foram castigadas por sucessivas quedas de vendas e de lucros. Na tentativa de aproveitar o impulso da retomada, queimam os últimos recursos disponíveis ou buscam crédito nas instituições financeiras, atualmente mais escasso e caro.

“Sucede que a fase da retomada costuma se mostrar desproporcional à necessidade que as companhias, ‘com a corda no pescoço’, precisam para sobreviver", afirma o economista Nelson Barrizzelli, um especialista em varejo. "Resultado disso é que acabam ficando no meio do caminho”.

Vencer a crise será o tema central da primeira edição do FE4 - Fórum Empreendedor, promovido pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) em outubro próximo. As inscrições já foram abertas.

Em sua palestra, no dia 5/10, Barrizzelli vai dar dicas sobre gestão eficiente, discorrerá sobre criatividade como fator de inovação e o uso de recursos tecnológicos para interagir com os clientes. “Para quem tem uma boa gestão, não há crise”, afirma ele.

A nova equipe econômica, a seu ver, sabe exatamente o que precisa ser feito para que o país volte a crescer, mas precisa que as medidas necessárias sejam aprovadas pelo Congresso.

“Entenda que essa desejável maioria [para aprovação das medidas] tem a consistência de ‘geléia desandada’. Para sair da crise, portanto, é preciso ter paciência, até que as forças contrárias se ajustem e resolvam ajudar o Brasil a voltar a crescer.”

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Barrizzelli.

O QUE MAIS ATORMENTA O PAÍS

É o desemprego. O setor automobilístico cortou 200 mil empregos nos últimos dois anos e continuará desempregando neste ano. O mesmo ocorre com outros setores.

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O desemprego deve bater em 13 milhões de pessoas e começar a se estabilizar no primeiro trimestre de 2017. O fim da crise, portanto, só poderá ser anunciado quando esse enorme contingente começar a voltar ao mercado de trabalho.

O desemprego começa algum tempo depois do início da crise e só começa a cair depois que os agentes econômicos se convencem de que a retomada veio para ficar.

Infelizmente, a normalidade econômica e o crescimento terão de esperar para algum momento entre 2019 e 2020. Teremos mais uma década perdida, a exemplo dos anos de 1980.

SEQUELAS DA CRISE

Esta não é a primeira crise pela qual o varejo passa ao longo dos últimos 50 anos. Na verdade, com maior ou menor intensidade, desde 1980, esta é a oitava crise com queda de PIB que o Brasil sofre.

A diferença é que se trata de uma crise mais intensa e duradoura. É uma somatória de duas crises: econômica e política. Uma crise que deu os primeiros sinais em 2012 e só vai acabar definitivamente por volta de 2020.

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O país terá mais uma década perdida, como a dos anos 80. Quando a crise acabar, um grupo importante de varejistas terá desaparecido, enquanto outro terá encolhido.

FECHAMENTO DE LOJAS

Não creio que o fechamento de lojas vá diminuir ou acabar. As empresas que estão ficando no caminho eram aquelas endividadas por má gestão. As empresas não quebram porque o dono é azarado ou porque nasceu na confluência negativa dos astros.

Os empresários são os que quebram suas empresas por exclusiva má gestão. Jamais vi uma empresa bem gerida ir à falência.

A empresa que sobreviver à crise é porque sempre foi bem gerida e poderá sair mais forte da crise. Não importa se é grande ou pequena, se é nacional ou de vizinhança.

As empresas que se enfraqueceram durante a crise terão maior dificuldade para voltar a crescer, após o seu término, uma vez que exauriram seus recursos para continuar sobrevivendo.

As empresas que tinham boa gestão, controlavam bem o fluxo de caixa, tinham reservas financeiras, sairão da crise mais fortes.

O professor  Stephen Charles Kanitz expôs em um de seus livros a tese segundo a qual as empresas quebram quando a crise termina. E ao longo do tempo, essa tese se mostrou verdadeira.

Empresas que sobreviveram à crise, mas exauriram seus recursos, tentam recuperar os lucros perdidos no início do novo ciclo de crescimento.

Mas quando isso ocorre essas empresas estão sem capital financeiro e sem capital humano. É nesse período que os pedidos de falência e recuperação judicial se aceleram.

GELÉIA DESANDADA

O enorme ‘imbróglio’, formado por uma série de erros da antiga equipe econômica, levou a uma entropia econômica cujo rosto somente apareceu no início de 2015.

Entre 2012 e 2015, uma série de ilusionismos e pajelanças, como o beneplácito e o conluio de líderes empresariais beneficiados por esses artifícios, não poderia durar para sempre, e a 'conta’ acabou chegando.

Agora, o ‘imbróglio’ precisa ser desmontado pedaço a pedaço. Essa equipe econômica que está no governo sabe exatamente o que deve fazer para que o país volte a crescer, mas precisa de aprovação do Congresso.

Ocorre que a desejável maioria no Congresso tem a consistência de ‘geléia desandada’. Portanto, para sair da crise, será necessário paciência. 

AÇÕES DAS EMPRESAS

Em primeiro lugar, as empresas devem continuar ajustando sua gestão. Na verdade, deveriam ter feito isso desde 2012, e as empresas que estão se saindo bem nestes últimos três ou quatro anos sempre tiveram gestões invejáveis.

A Lojas Renner e a Lojas Cem são bons exemplos. Essas duas redes têm conseguido operar com lucro em um ambiente extremamente negativo para os produtos que elas vendem. Certamente, ajustar a gestão agora tem efeito duvidoso, mas deve ser tentada.

REFORMA TRABALHISTA

O empresário empregador no Brasil é um herói. No campo trabalhista, tudo está contra ele. Usamos leis dos anos 1930. O Estado se arvorou em grande protetor dos oprimidos, mas isso não passa de política rasteira para angariar votos.

O estamento que se implantou no Brasil com sindicatos e Justiça do Trabalho joga contra o trabalhador.

Há dois anos tentei explicar a um empresário nos Estados Unidos como funcionavam as leis trabalhistas no Brasil. Ele fez dois comentários: ‘Como esse país pode se desenvolver com essas amarras? Eu jamais colocaria uma empresa no Brasil e, se colocasse, minha família me interditaria por achar que eu fiquei louco.’

Os desempregados atuais não pressentem e a imprensa não amplifica, mas as leis trabalhistas são as únicas responsáveis pelo altíssimo desemprego durante as repetidas crises no país.

Como é ‘politicamente incorreto’ tirar os direitos trabalhistas, quem defende esses ‘direitos’ prefere tirar a possibilidade do indivíduo de trabalhar e ganhar honestamente o seu sustento.

É por isso que estamos voltando a ter 50% da força de trabalho na informalidade, na qual os direitos serão livremente negociados entre empregados e empregadores.

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RETOMADA

Infelizmente, não vamos ver a retomada do varejo neste ano. Dentro de poucas semanas vamos entrar no período sazonal mais positivo para o setor, mas os consumidores continuarão arredios.

Muitos têm dívidas importantes, o nível de desemprego é crescente e as pessoas estão tratando de economizar porque ainda não temos uma perspectiva exata do que ocorrerá em 2017 e 2018.

O novo governo acabou de chegar, ninguém sabe com quem o presidente Temer poderá contar. Os amigos de hoje podem ser os inimigos de amanhã, de forma que precisamos aguardar os próximos meses para ver se as promessas de mudanças e reformas vão progredir, ou se vamos passar dois anos ainda discutindo no vazio.

OTIMISMO EXAGERADO

Tenho achado as previsões de economistas de crescimento do PIB, de até 2%, para 2017, muito otimistas. De um lado, temos a melhor equipe econômica das últimas três décadas, competente e capaz de por em andamento medidas que podem recusar o país com uma certa brevidade.

De outro, temos o pior Congresso dos últimos tempos. Deputados e senadores despreparados, alguns semianalfabetos, que não têm qualquer compromisso com seus eleitores e com o país.

Só teremos uma visão mais clara sobre o desempenho do varejo a partir do final do 1º trimestre de 2017.

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Quando a situação econômica do país se normalizar, teremos mais lojas e mais emprego no varejo. Os empresários sabem que o Brasil é um país com 200 milhões de habitantes, tem um grande potencial de consumo, riquezas naturais e uma agricultura que está se modernizando a cada dia.

Ainda temos um parque industrial invejável quando comparado com qualquer país da América Latina.

Com os nossos “voos de galinha”, crescemos, mas voltamos para o mesmo lugar de onde saímos.

Talvez, algum dia, mentes privilegiadas se farão ouvir, e teremos um país mais leve, menos burocrático, menos centralizado e com governantes mais preparados para nos levar ao nosso verdadeiro futuro. Talvez meus tataranetos vivam esses dias.

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FOTO: Arquivo pessoal



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