Negócios

Franquias de alimentação sofrem maior pressão de aluguéis em shoppings


Proliferação de redes aumenta disputa por espaço e dificulta barganha com os shopping centers


  Por Redação DC 07 de Novembro de 2014 às 00:00

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


A pressão por aumento de custos é mais intensa no setor de alimentação do que nos de calçados e roupas. Isso porque aproximadamente 150 redes do país disputam espaços em shoppings capazes de abrigar entre 20 e 30 lojas, no máximo, o que acaba dando bem mais poder de barganha para os shoppings na hora de negociar um ponto comercial.

“Os shoppings se aproveitam disso e as novas bandeiras, principalmente, acabam aceitando pagar valores altíssimos para entrar. Ocorre que dois ou três anos depois, essas franquias acabam entregando os pontos”, diz Rodrigo Perri, sócio-diretor da Vivenda do Camarão, rede de restaurantes.

Perri conhece bem esta situação porque todas as 185 lojas da Vivenda do Camarão (130 próprias e 50 franqueadas) estão instaladas em shopping centers. Para não correr o risco de enfrentar o que já viu acontecer com muitos concorrentes, decidiu dizer “não” para os shoppings que cobram preços exagerados, mesmo que isso signifique um impacto negativo na programação de expansão. Por conta disso, a Vivenda do Camarão está fora do Iguatemi de Ribeirão Preto (SP), de um shopping da BR Malls em Vila Velha (ES) e de outro empreendimento inaugurado recentemente em Betim (MG).


Rodrigo Perri, sócio diretor da Vivenda do Camarão, rede de restaurantes. Foto: Divulgação

ESPECULAÇÃO DE PREÇOS

O que explica o fato de os custos de ocupação dos shoppings estarem subindo ao mesmo tempo em que há muito espaço vago nos próprios shoppings e até mesmo nas célebres Oscar Freire e a Haddock Lobo, na região dos Jardins, em São Paulo?

“O que há é especulação de mercado. As pessoas perderam a referência de preços”, afirma Marcelo Cherto, consultor especializado em expansão de franquias. “É reflexo do que aconteceu na construção civil, nos restaurantes, em vários outros setores. Para ter uma ideia de como há algo errado por aqui, o preço do aluguel de um imóvel em bom local em Nova York estava, há pouco tempo, mais barato do que de um similar em Perdizes.”

O fato é que a expansão do consumo nos últimos anos contribuiu para o encarecimento dos espaços nos shoppings. Mas não foi só isso. Novos grupos de grandes investidores entraram no mercado de shopping centers guiados por metas rígidas de rentabilidade. Um consultor entrevistado pela Diário do Comércio relata que há menos de um mês, uma franquia chegou a desembolsar luva de R$ 3,5 milhões por um ponto de 100 metros quadrados no shopping Iguatemi, 2,5 vezes acima da média identificada na pesquisa da BG&H.

No shopping Cidade São Paulo, localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Pamplona, com inauguração prevista para o primeiro semestre de 2015, já tem franquia pagando quase R$ 2 milhões de luva para disputar clientes com outras 16 redes de alimentação.

O Iguatemi está classificado como um shopping de primeira linha, aquele no qual sempre haverá uma empresa disposta a pagar um valor acima da realidade do mercado para operar um ponto de venda. É provável que em relação a este perfil de prestígio nada se altere.

Mas estes pontos cobiçados pelas franquias são considerados exceção. “Nos shoppings mais convencionais, de segunda linha, deve haver uma adequação de preços. Não dá para manter os altos custos com lojas vazias e até fechadas”, diz o consultor Marcelo Cherto.

Levantamento recente realizado pelo Ibope Inteligência identificou que a taxa de ocupação dos novos shoppings inaugurados em 2013 era de 57% em junho deste ano, um pouco superior ao índice de dezembro de 2013, de 50%. Pouco mais de um terço dos shoppings inaugurados no ano passado (39%) apresentavam taxa de ocupação inferior a 50%, isto é, metade da área bruta locável ainda estava desocupada, especialmente os espaços destinados às lojas satélites e cinemas.

“Não dá para dizer que o mercado de shoppings está esgotado, mas deverão surgir modelos diferentes, com áreas menores de locação”, afirma Fábio Caldas, coordenador de pesquisas na área de shopping center do Ibope Inteligência.

Os modelos mais enxutos de lojas, como afirma, representam uma tendência, assim como shoppings de menor porte, com área bruta locável não superior a 30 mil metros quadrados. “Os shoppings vão ter que se adequar”, diz Caldas. “Nas grandes cidades os terrenos são raros e, em municípios menores, não há demanda para grandes shoppings”, diz Caldas.

Até que o movimento de construção de shoppings menores e de expansão de novos formatos de vendas volte a se intensificar, a expectativa é que este conflito entre franquias e shoppings se estenda até meados de 2015. É que os lojistas não conseguem vislumbrar qualquer reação mais forte no mercado de consumo. O fato é que se o shopping vai mal e a loja vai ainda pior, não há como evitar um cenário conflituoso.