São Paulo, 27 de Abril de 2017

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Faixa bem-humorada em loja atrai currículos, em vez de clientes
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No calçadão da Rua Sete de Abril, no centro da capital paulista, a Outfashion ainda não sente o clima de Natal, mas recebe, todos os dias, visitas de desempregados

Num país com mais de 12 milhões de desempregados é de se esperar que qualquer indício de vaga aberta em uma empresa haja fila de gente para preenchê-la.

Há cerca de duas semanas, a Outfashion, uma loja de moda localizada no calçadão da Rua Sete Abril, bem no centro de São Paulo, está sentindo duplamente os efeitos da escassez de emprego.

De uma maneira bem humorada, a Outfashion estampou um apelo em uma faixa na fachada da loja: “Neste Natal, precisamos de clientes, com ou sem experiência”.

O que os proprietários não imaginavam é que, com a brincadeira, em vez de atrair consumidores, receberiam uma enxurrada de currículos.

Desde que a faixa foi exposta, após a Black Friday, ao menos quatro pessoas entram diariamente na loja em busca de emprego.

Ao ser informadas de que não leram com atenção a faixa, algumas entram, mas dão apenas uma espiada nas roupas.

Está certo que a parte da frase que mais chama a atenção -“com ou sem experiência”- ficou na parte inferior da faixa e ganhou mais evidência.

É simples entender a confusão. Nesta época do ano, era comum lojistas colocarem faixas na frente da loja à procura de trabalhadores temporários, para reforçar a equipe de vendas.

Quando a economia estava em forte ritmo de expansão, há cinco ou seis anos, havia estabelecimentos contratando funcionários nesta época do ano mesmo sem experiência. Valia tudo para não deixar de atender o consumidor.

Os tempos são outros. “As pessoas leem a faixa e entram achando que aqui tem emprego. A gente explica que é uma brincadeira com o consumidor”, afirma Pedro Santana, gerente da loja.

Outra unidade da Outfashion, localizada na Rua São Bento, também replicou a faixa. Um dos proprietários, que prefere não ser identificado, diz que a ideia foi inspirada em uma loja no Nordeste.

A Outfashion comercializa roupas femininas e masculinas na faixa de preço de R$ 19 a R$ 99 e pertence a uma família que há décadas opera no ramo de atacado e importação de confecção.

As duas lojas foram abertas por conta de "oportunidade" dos imóveis.

Na tarde da última segunda-feira (12/12), não havia nem sinal de clientes na loja da Rua Sete de Abril, mesmo a apenas duas semanas do Natal.

A Outfashion está aberta desde fevereiro, e ocupa o espaço de outra empresa, a Cotton R, que foi vendida.

O gerente Pedro Santana, que trabalhou na Cotton R, diz que, neste ano, as vendas estão entre 30% e 35% menores do que as do ano passado.

O tíquete médio de venda da loja é de R$ 79. No ano passado, na Cotton R, era de R$ 99.

O setor de confecção é um dos mais afetados pela recessão. De janeiro a setembro, registrou queda de vendas de 11,3%, ante 6,5% do varejo.

No Estado de São Paulo, o varejo de produtos têxteis e confeccionados registrou queda ainda maior, de 13,4%, ante 4,9% do varejo.

A queda de faturamento no comércio brasileiro provocou o fechamento de 100 mil lojas no ano passado, de acordo com a CNC (Confederação Nacional do Comércio).

A estimativa é que outros 100 mil estabelecimentos encerrarão as atividades neste ano, de acordo com Fábio Bentes, economista da confederação. 

As empresas que ainda resistem à crise não estão conseguindo pagar as contas. Levantamento do Sindivestuário, entidade que reúne as confecções paulistas mostra que, neste ano, 937 empresas deixaram de pagar a contribuição sindical patronal obrigatória.

Em dois anos, 2,1 mil empresas do setor não quitaram a taxa compulsória.

A contribuição sindical patronal, como determina a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) é devida por toda pessoa jurídica de uma determinada categoria econômica e recolhida pelo sindicato que a representa.

Em 2013, o Sindivestuário recebia a contribuição de 15,4 mil confecções. Em 2016, o  número caiu para 13,3 mil.

O número de funcionários no setor de confecção confecção despencou - de 181,1 mil empregados, em 2010, para 151,6 mil em dezembro de 2015.

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Enquanto as empresas não voltarem a empregar, de acordo com economistas, não há nada que faça lotar as lojas, nem mesmo apelos bem-humorados como da Outfashion.

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FOTOS: José Augusto Camargo e Fátima Fernandes/Diário do Comércio



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