Negócios

Eles quase faliram um negócio depois de um aporte milionário


Felipe e Thadeu Diz fundaram a Zee.dog, mas perderam as rédeas da empresa quando receberam um aporte de R$ 2 milhões. Veja como a empresa deu a volta por cima


  Por Mariana Missiaggia 25 de Maio de 2017 às 13:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Os riscos de ter, repentinamente, de contar com dinheiro abundante em caixa são muitos. Os irmãos gêmeos Thadeu e Felipe Diz, 32 anos, fundadores da Zee.Dog - marca de acessórios para animais de estimação - sentiram isso na pele.

Após receber um aporte milionário, a empresa beirou a falência porque os sócios achavam que estavam ricos.

Mas perceberam a tempo que o faturamento da empresa não crescia no mesmo ritmo dos custos fixos, e conseguiram dar a volta por cima.

Depois de uma série de medidas para melhorar a gestão do negócio conseguiram atingir um crescimento de 300% no faturamento.

Embora não revelem o valor atual, conseguiram faturar em um mês R$ 3,5 milhões, considerado o pico, no período que sucedeu às dificuldades iniciais, em 2013.  

Mas eles não tinham ideia de que chegariam a esse ponto quando tiveram a ideia de montar o negócio.

Constataram que estavam diante de um nicho de mercado mal explorado, em 2009, quando se viram insatisfeitos com o que encontravam nas prateleiras de um pet shop na Califórnia, nos Estados Unidos.

Na época, eram estudantes de hotelaria e Thadeu queria comprar uma guia para o vira-lata que ele e o irmão tinham acabado de adotar.

"Percebemos que a experiência de compra de produtos pet era péssima. E se era assim nos Estados Unidos, no Brasil deveria ser pior", diz Thadeu.

Terminaram os estudos, e paralelamente cursaram aulas de marketing e empreendedorismo. De volta ao Brasil, em 2011, procuraram dois amigos de infância especializados em finanças.

Montaram um plano de negócios e levantaram US$ 10 mil por meio de um site de crowdfunding – financiamento coletivo – entre amigos e desconhecidos que apoiaram a ideia da Zee.Dog, uma loja de acessórios pet de luxo, como guias, coleiras, brinquedos, comedouros e outras coisas.

Juntos, estudaram um mercado que começava a despontar - mas que além de pequeno, era muito pulverizado.

O apelo do negócio era oferecer peças com design que conectassem os acessórios dos donos a tudo que seria utilizado pelos cachorros.

Ou seja, a bandana do cachorro combinando com o skate do dono. A coleira do animal com a mesma estampa da mochila da dona e por aí vai.

E-COMMERCE DA MARCA ENTROU NO AR NO FIM DE 2011

No final daquele ano, o quarteto passou a se dedicar exclusivamente à Zee.Dog, que já estava com seu e-commerce no ar.

Sobrevivendo com as economias que restavam e com as contas praticamente no vermelho, eles já consideravam a possibilidade de desistir quando conseguiram, em 2012, um aporte de R$ 2 milhões do fundo carioca DXA Investments.

Thadeu conta que a sensação era a de que tinham acabado de ganhar na loteria. Nos meses seguintes, os jovens empresários não economizaram.

Construíram um escritório próprio e deixaram o espaço onde trabalhavam dentro do fundo de investimentos, que lhes subsidiava, contrataram um número de funcionários muito além do que precisavam e abriram quiosques da marca em shoppings do Rio de Janeiro.

Em pouco tempo, o faturamento já não crescia como antes e eles começaram a usar o cartão de crédito pessoal para pagar alguns custos.

Naquele momento, entenderam que além de terem passado dos limites, não estavam preparados para assumir o comando da empresa sozinhos.

"O que sabíamos fazer bem era criar produtos. Por isso, contratamos uma ex-executiva da Nestlé, que ganha um salário maior que o meu para alavancar nossas vendas e enxugamos a equipe", diz.

Nessa reformulação também sentiram que necessitariam de novos fornecedores e os melhores estavam na China. Mesmo sem saber nada de mandarim, Felipe viajou para o país com a missão de fechar negócios.

MARCA RECEBEU APORTE DE FUNDO AMERICANO

"Uma das poucas pessoas que Felipe encontrou falando inglês se tornou nossa diretora de operações de exportações".

Com uma das colaboradoras fora do país, eles tiveram a ideia de ter um diretor de inovação na Espanha para estar mais próximo das tendências europeias e do mercado digital internacional.

No Brasil, a equipe do escritório foi reduzida a 12 funcionários.  

De 2013 a 2014, a marca cresceu 300% e começou a exportar para 19 países da Ásia e Europa, e os itens passaram a ser vendidos também em outros pet shops, além de lojas próprias.

Em 2013, o mercado de pet decolou, demonstrando, de certa maneira, que a relação entre cachorro e dono se mostra mais forte do que a própria crise econômica.

Com 17 lojas físicas no país e duas nos Estados Unidos, eles já não revelam quanto faturam. "Mas, em 2013, por exemplo, chegamos a faturar R$ 3,5 milhões por mês".

Casos como o de Thadeu e Felipe, que de consumidores se tornaram empresários do setor pet explicam por que, apesar da recessão econômica , trata-se de um mercado que movimentou R$ 19,2 bilhões em 2016, de acordo com a Abinpet.

A entidade estima que existam mais de 25 mil pet shops no país. Líder em São Paulo, a Cobasi detém 5% do mercado com uma receita anual estimada em R$ 800 milhões.

Atrás dela, está a Petz, controlada por um fundo americano, que fatura R$ 500 milhões com 49 lojas.

MOCHILA PARA CÃES DA ZEE.DOG

Hoje, o Brasil é o segundo maior mercado em faturamento e em população de cães e gatos. Cerca de 44% dos lares brasileiros possuem animais de estimação. No entanto, segundo Thadeu, ainda são poucas as empresas com diferenciais estratégicos no setor.

A Zee.Dog, por exemplo, além de focar em itens de moda para os bichinhos, pratica o que muitos chamam de engajamento no varejo. A marca apoia instituições acolhedoras de cães e gatos e promove a adoção de animais. 

"Ao tocar nessa questão, nos mostramos como uma marca engajada e fazemos de nossa marca um próposito. E isso fideliza clientes", afirma Thadeu. 

Outra percepção dos fundadores sobre a experiência de compra veio a partir do volume de carrinhos abandonados.

Uma simples pesquisa online feita com uma parcela dos visitantes da página mostrou que muita gente desistia da compra por não saber o tamanho exato de cada peça para o animal de estimação.

Logo em seguida, os sócios catalogaram todas as raças de gatos e cachorros e disponibilizaram os tamanhos indicados para cada faixa etária na página da marca. "Transformamos uma dificuldade em conveniência e reduzimos o abandono de carrinhos em 30%". 

Mesmo competindo com megalojas e estabelecimentos de bairro, Thadeu acredita estar mais próximo do consumidor no que diz respeito à qualidade e ao engajamento, mesmo oferecendo produtos com preços um pouco acima da média.

Nos próximos dois anos, ele e os sócios pretendem ganhar presença para disputar o feroz e competitivo mercado americano de produtos pet, que movimenta em torno de U$ 80 bilhões a cada ano.