Economia em baixa, franchising em alta


Enquanto praticamente todos os setores da economia - da indústria ao varejo - chegam ao fim de 2015 no vermelho, a expectativa é que as franquias cresçam 10%. Mas investir nelas exige muita atenção


  Por Karina Lignelli 29 de Dezembro de 2015 às 08:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


A atual recessão atingiu todos os setores da economia e, na melhor das hipóteses, uma recuperação só poderá ser observada em meados do próximo ano. Esse ambiente desafiador, no entanto, atrai os empreendedores com apetite para investir no franchising.

De um lado há a perspectiva de um Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país) negativo em 3,7% e de queda de 7% a 8% nas vendas do varejo em 2015. 

De outro, as franquias esperam terminar este ano com crescimento nominal de 10% no faturamento, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF). De janeiro a setembro, a receita do setor foi de R$ 99,3 bilhões. Em 2014, as franquias faturaram R$ 127,3 bilhões.

A receita do setor de 2015 deve, no mínimo, permanecer no mesmo patamar em 2016, segundo Cláudio Tieghi, diretor de inteligência, mercado, sustentabilidade e relacionamento da entidade.    

A explicação é simples. Por ser um negócio bem estruturado e bem localizado junto ao cliente-alvo, o franchising geralmente é o último a entrar na crise - mas também é o primeiro a sair dela, de acordo com Marcos Rizzo, sócio-fundador e consultor da Rizzo Franchise.

Segundo ele, essas características é que fazem com que as franquias não quebrem ou fechem durante esse período, como ocorre com a maioria dos negócios.

“É claro que todos sofrem com a queda na renda e na capacidade de compra do consumidor, mas as franquias possuem capacidade de sobrevida”, diz.

MANGO: MARCA NOVA, FORMATO MENOR/FOTO: DIVULGAÇÃO

Tieghi, da ABF, explica que o franchising cresce por meio da expansão e da abertura de lojas, mas também pelo ajustamento dos processos que já existem – principalmente em tempos de consumo conservador e estável.

“Os franqueadores têm realizado fortes ajustes operacionais, otimizando recursos, cortando custos e realinhando os preços. Há cautela até na expansão”, afirma.

Outro indicador confirma o movimento: mesmo com a queda nas vendas do varejo, que já começou a demitir, o franchising não havia sinalizado nada preocupante nesse quesito até setembro, segundo Tieghi.

“Até agora, estamos ilesos. A expectativa é encerrar o ano com o quadro de funcionários estável, mantendo ou só apresentando ligeira queda nos empregos”, completa.

De modo geral, o cenário complicado para boa parte das marcas em 2015 levou o setor a buscar mais produtividade. Além disso, os franqueadores estão mais próximos de seus franqueados para ninguém sair perdendo, de acordo com Marcelo Cherto, presidente do Grupo Cherto.

Ele alerta que 2016 deve continuar difícil: quem não revisou seus processos, ferramentas, equipe e estrutura vai quebrar ou sair do mercado. Nesse mercado não há espaço para amadores, na opinião de Cherto.

QUEM SE DESTACOU

A alta do franchising em um ano recessivo como 2015 é resultado de dois movimentos: de um lado, alguns segmentos de negócios se destacaram. De outro, algumas redes adaptaram seus negócios ao atual momento da economia.

Entre os segmentos, novamente o de alimentação foi um dos que mais cresceu, segundo Marcos Rizzo. Nesse sentido, o varejo merece destaque, com supermercados de vizinhança ou hard discount e lojas do tipo Express, da rede Carrefour, Extra Perto, do GPA, ou TodoDia, do Walmart.

“Setores ligados a negócios e prestação de serviços, como limpeza, conservação e turismo e viagem (em especial dentro do Brasil, por causa da alta do dólar), conseguiram obter uma expansão expressiva”, afirma.

A necessidade de melhorar a qualificação em um cenário de ameaça de desemprego favoreceu franquias de educação, segundo Tieghi. Exemplos são a Concretta, de cursos voltados à construção civil, e as redes de ensino de idiomas.

A freada no consumo também favoreceu redes de reparos e manutenção, em especial de serviços automotivos. Segundo o diretor da ABF, a alta do dólar também influenciou a expansão de redes de distribuição de insumos agrícolas, como a Dow Agrosciences.  

Um movimento adotado por algumas redes, que ganhou força neste ano, e que será tendência em 2016 é o de abertura de lojas menores, segundo Cláudia Bittencourt, diretora geral do Grupo Bittencourt. 

Mais compactos, com investimentos menores e, em alguns casos, até móveis, para evitar os altos custos de aluguel, esses novos formatos de lojas foram desenvolvidos para permitir a entrada em mercados inexplorados e em cidades menores. 

Exemplo disso vem da rede de alimentação saudável Seletti, que lançou a Mango este ano tanto para ganhar capilaridade quanto para estar ao lado do consumidor a qualquer hora do dia.

“É um jeito de explorar novos mercados, momentos ou até eventos específicos. Tudo para que a loja fique mais próxima do cliente”, diz Cláudia.

Vale até incorporar marcas diferentes em um mesmo espaço, desde que não concorram, mas se integrem e se complementem, afirma a diretora, lembrando do clássico exemplo da Love Brands (junção das marcas Imaginarium, Puket e Baloné).

Marcelo Cherto cita como destaque em ano de crise a mudança de formato não só para reduzir os custos de operação, mas também para oferecer uma experiência diferenciada para o cliente – caso do Bob's, que reformulou seu conceito de loja ao estilo “casual food”.

Com a personalização, veio a melhora na integração do cliente com a loja, os produtos e o atendimento. Desta forma, o aumento de preços em torno de 3% não fez diferença: pelo contrário, o desempenho das lojas ficou melhor do que antes, na avaliação de Cherto.

“É papo furado dizer que na crise não se inova, nem se investe. Quem acredita e faz, já comprovou a diferença”, destaca.

SEM RISCO DE QUEBRA

E quais as tendências do franchising em 2016, ano em que a crise deve se aprofundar? Segundo Cláudio Tieghi, da ABF, quem pensa no setor como um plano B para empreender e fugir do desemprego ou, ainda, como uma forma segura de investir aquele dinheiro guardado precisa ficar atento tanto ao processo de seleção e escolha quanto no investimento em si.

“Nesse ano, os aportes irão para franquias que, entre investimento total e instalação, custem no máximo R$ 300 mil. Com o mercado retraído, um investimento superior a esse leva a pensar se não é melhor aplicar no mercado financeiro”, diz.

Ele também cita a conversão de negócios individuais, como farmácias, para redes de franquias, como uma grande tendência. O diretor da ABF avalia que a crise pressiona o pequeno negócio porque ele está 100% sozinho. Nesse sentido, fazer parte de uma rede pode ser uma solução interessante para ambos os lados - pequeno empresário e franqueador.

A busca de aumento da produtividade, a adoção de uma estratégia multicanal – como entrar nas vendas diretas - ou a adesão ao “phigital” (a criação de experiências digitais dentro da loja física e vice-versa) são as tendências apontadas por Marcelo Cherto para melhorar os resultados e se manter no páreo nesse momento de retração que se estenderá para o ano que vem.

BOB'S: MESMO NA CRISE, REDE APOSTOU NO FORMATO CASUAL FOOD/FOTO: DIVULGAÇÃO

“É criar uma forma de chegar mais perto do consumidor, de um jeito que custe o mínimo possível, para dar a ele mais chance de escolher a minha loja, e não a do meu concorrente”, completa.

Marcus Rizzo vai mais além. Segundo o especialista, em um cenário difícil como o atual, mais importante do que saber o que é tendência, é saber o que não fazer.

Como exemplo, ele cita apostar em negócios baseados em modismos – como casas de bolo, de cupcakes, paleterias ou de frozen yogurt. Esses negócios são caracterizados pelo alto nível de investimento e pela geração de um tíquete médio baixo.

Também é preciso se aproximar de negócios que dependem de muita ação do franqueado na área de influência. A premissa é que esse tipo de negócio manterá o nível de faturamento sem risco de quebra.

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“Exemplos são os franqueadores que cuidam do valor de aquisição de seus franqueados para melhorar suas margens, mas sem afetar o valor final de seus produtos e serviços”, destaca Rizzo.

Também é preciso prestar atenção aos negócios nos quais os franqueadores vendem os produtos aos franqueados. Esses, segundo Rizzo, terão suas redes em processo de convulsão. “Entre viabilizar a fábrica dele e o seu negócio, o franqueador dará preferência à fábrica”, conclui.  

Foto de abertura: Thinkstock / Arte: Will Chaussê