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Conflito ainda marca a relação entre shopping centers e lojistas


Em evento, comerciantes que vendem bem e pedem desconto foram chamados de oportunistas por representante de shopping. Lojistas reagem e dizem que oportunista é quem aproveita a crise para trocar lojas


  Por Fátima Fernandes 06 de Setembro de 2017 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Um encontro entre lojistas e representantes de shoppings centers ocorrido na quinta-feira (31/08), último dia do Latam Retail Show, revelou que a relação entre as partes ainda está longe de ser cordial.

Desde que o consumo começou a despencar, comerciantes foram bater à porta das administradoras dos shoppings em busca de descontos no valor do aluguel.

Muitos contratos foram feitos na época em que a economia estava em plena expansão. Com a queda de receita, os lojistas não conseguiam pagar os valores acordados.

Alguns empreendimentos acabaram concedendo descontos temporários no valor da locação, seletivamente, apenas para as lojas que tinham interesse em manter.

O efeito da crise e dessa relação foi visível nos shoppings. A vacância aumentou consideravelmente, inclusive em shoppings tradicionais.

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Após dois anos e meio de crise, evento que reuniu lojistas e representantes de shoppings para debater “O atual cenário de locações comerciais - mercado imobiliário e varejistas” mostrou que as duas partes ainda vão ter de se esforçar para se entender.

O evento reuniu cerca de 200 empresários e executivos, metade de representantes do comércio e metade de empreendimentos.

Luis Felipe Salles, sócio do shopping Lages e da consultoria Mix Retail Malls, disse que os empreendedores se mostram mais flexíveis nas negociações de taxas e aluguéis com os varejistas.

“O objetivo é reter o lojista, mas deve haver uma contrapartida”, afirmou. “O que os comerciantes estão fazendo para reter o cliente? Há casos de lojistas oportunistas.”

Pompeu Belusci, diretor da Di Pollini, rede de calçados masculinos, e um dos criadores do movimento Acelera Varejo, reagiu.

“Não somos oportunistas", disse. "Quem está pedindo desconto de aluguel é porque precisa, porque a conta não fecha. Isso aconteceu comigo e com outras redes. Oportunistas são os shoppings, que estão querendo tirar lojistas para colocar outros no lugar.”

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Salles diz que alguns lojistas querem que a redução no valor do aluguel, que remunera o empreendimento, se prolongue indefinidamente, o que considera uma reivindicação abusiva.

"O desconto foi concedido como remédio para buscar acomodar a queda de vendas neste período de turbilhão", afirma. "Mas agora que o mercado voltou a ser positivo, as  condição do contrato serão adequadas conforme as vendas."

Para Evandro Ferrer, sócio-diretor da Ancar Ivanhoe Shopping Center, presente ao Latam Retail, mas que não participou do debate, diz que a prática da empresa é entender por que determinada loja não está vendendo bem.

“Se for o caso, diminuímos o custo para o lojista, mas com o compromisso de um esforço para aumentar as vendas”, disse.

A Ancar Ivanhoe, que possui 22 shoppings espalhados pelo país, registra vacância de 1%, no caso de empreendimentos consolidados, e de 8%, no caso dos mais novos.

“A crise fez a gente trabalhar melhor, olhar para dentro da companha, fazer ajustes. Há sinais de melhora na economia, as pessoas estão mais esperançosas. As vendas melhoraram - alta de 8% a 9% sobre 2016 -, mas a base de comparação é baixa. A crise não acabou.”

Os shoppings, de acordo com Ferrer, estão avaliando melhor as empresas para fazer concessões. “Pode ser que alguns empreendimentos pararam de fazer concessão, nos casos em que viram que não existe mais condição de recuperação. A orientação é essa.”

JOÃO CARLOS:"OLHAMOS CASO A CASO"

João Carlos Paes Mendonça Tavares de Melo, vice-presidente comercial do grupo JCPM, que opera principalmente no Nordeste, afirma que o momento é de readequação das contas.

“Alguns lojistas estão indo bem e, ainda assim, querem descontos. Estamos olhando caso a caso”, disse ele.

A vacância nos 22 shoppings do grupo JCPM , de acordo com ele, varia de 2% a 10%.

“Tivemos algumas oportunidades de espaços porque algumas lojas não saíam do shopping e tinham uma venda razoável. Com a crise, a situação delas ficou inviável e surgiram novas oportunidades.“

Em um ano normal, diz ele, a troca de lojas oscila de 6% a 10%. “Fazemos algumas concessões para os lojistas que realmente operam bem e que vão se reerguer. O que o comerciante tem feito para atrair o cliente? Essa é a questão.”

A franquia Rei do Mate, com 308 lojas no país, fechou entre dez e 12 lojas nos últimos dois anos.

“Foi uma limpeza importante, pois alguns dos empreendedores não estavam preparados para enfrentar uma situação como a que o país está vivendo”, afirma Adriana Lima, diretora do Rei do Mate.

Mas apenas isso. De acordo Adriana, alguns dos novos empreendimentos não foram bem como se previa. Houve também problema de concorrência acirrada.

“Às vezes, um empreendimento não está indo bem, não consegue posicionar um negócio, e,em seu lugar, instala mais um café, por exemplo, aumentando a concorrência em determinado segmento.”

Adriana diz que aproveitou o evento para conversar com os representantes dos shoppings.

“Eles já foram mais flexíveis nas negociações. Agora, estão avaliando caso a caso. Os franqueados só pedem desconto no aluguel quando é necessário.”

ADRIANA: ELES JÁ FORAM MAIS FLEXÍVEIS

Das 308 lojas da rede, cerca de 150 estão em shoppings. Durante a crise, de acordo com Adriana, os empreendimentos concederam descontos de 5% a 30%.

Para Liliana Martins, diretora de expansão da franquia Puket, com 148 lojas no pais e 13 no exterior, a crise serviu para que lojistas e shoppings "caíssem na real".

“Três anos antes da crise, o país vivia uma euforia irreal, com lançamento de shoppings e abertura de lojas. Hoje, o mercado caiu na real. Há boas oportunidades para abertura de lojas, mas menos em shoppings tops e pontos tops. Não tem milagre.”

Apesar das trocas de farpas entre lojistas e empresas shoppings, eles convergem em um ponto: um precisa do outro e um shopping só vai ser forte se as lojas forem fortes.

"Num país como o Brasil, onde em cinco anos muda muita coisa, com altos e baixos, um lado depende do outro. A relação entre shoppings e lojistas não pode mais ser conflituosa para o bem de ambos", afirma Marcos Hirai, sócio-diretor da GS&BGH, que coordenou o debate no evento da Latam.

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FOTO: Fátima Fernandes/Diário do Comércio