São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

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Comércio paulista tem queda de 4,5% nos primeiros 75 dias do ano
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Levantamento da ACSP revela que a inadimplência está estabilizada em 4,6%, o que evidencia a cautela dos consumidores e das instituições financeiras no uso do crédito

O aumento da inflação e das taxas de juros e o receio de consumir resultaram em queda de 4,5% nas vendas do comércio na capital paulista, de janeiro até a primeira quinzena deste mês, na comparação com igual período do ano passado. O levantamento é da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

As vendas à vista caíram 5,1% e, a prazo, 4%, no período. Esses dados não surpreendem. "Essa queda nas vendas à vista se deu porque o orçamento do consumidor está comprometido. Está sendo drenado pelo tarifaço -aumentos de energia, combustível, ônibus, entre outros – e pela alta de preços dos alimentos”, afirma Rogério Amato, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp). Com esse aperto no orçamento dos consumidores não sobram recursos, diz ele, para compras de produtos como roupas, calçados e artigos para a residência.

Considerando só a primeira quinzena do mês, as vendas a prazo subiram 4,1% e, à vista, 1,3%. Esse resultado positivo se deve ao chamado efeito-calendário. O Carnaval de 2014 foi em março, comprometendo, portanto, a base de comparação.

Mas há uma boa notícia nos dados da ACSP. Diferentemente do que ocorreu em outros períodos de forte retração de consumo, a inadimplência continua sob controle.

O Indicador de Registro de Inadimplência (IRI) caiu 8,5% de janeiro até a primeira quinzena deste mês em relação ao mesmo período do ano passado. Em fevereiro, a inadimplência na cidade de São Paulo era de 4,6%. Isto é, de cada R$ 100 vendidos a prazo, R$ 4,60 não voltavam para o caixa. Esse índice já foi muito maior no passado, chegando a 18% na crise de 1998 e 1999.

O percentual de inadimplência está praticamente estabilizado desde janeiro do ano passado e, segundo Emílio Alfieri, economista da ACSP, deve se repetir neste mês. Isso porque tanto o consumidor como as instituições financeiras estão bem mais cautelosos na hora de conceder o financiamento.

Só no mês de janeiro, a demanda por crédito caiu 1,6% na comparação com dezembro de 2014, descontados os efeitos sazonais, de acordo com os dados nacionais da Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito). Na comparação entre janeiro deste ano com igual mês de 2014, a queda foi maior, de 14,6%. E, no acumulado de 12 meses terminados em janeiro deste ano, a retração na procura por crédito foi de 8,4%.

“As famílias estão com medo de se endividar, não querem mais passar por aquilo que passaram em outros períodos de crise. Neste ano, o consumidor também está menos confiante na economia, já que o dinheiro não sobra mesmo. Até lojas que vendem produtos baratos estão sentindo queda nas vendas”, diz Emílio Alfieri, economista da ACSP.

Com faturamento anual de quase R$ 400 milhões e 189 lojas no país, a Multicoisas, rede de utilidades para casa, sentiu os efeitos do comportamento cauteloso dos consumidores. Seu diretor de expansão, Nelson Oshiro Hokama, informou que, em janeiro passado a rede vendeu volume equivalente ao de igual período do ano passado. Mas, em fevereiro, houve queda. “Em março, melhorou um pouco, mas não está nenhuma maravilha”, disse Hokama.

O tíquete médio de consumo da Multicoisas é da ordem de R$ 48,00. Por enquanto, se mantém estável. “Estamos fazendo um grande esforço com equipe de vendas para que o faturamento não caia. Estamos tentando ser mais proativos”, diz.

Para este ano, a rede decidiu reduzir as projeções de expansão de novas lojas. A meta é abrir 18 em 2015. No ano passado, a previsão era inaugurar 25, mas abriu 18.

NO INTERIOR

A retração de vendas é também sentida em lojas do interior paulista. O Sindicato do Comércio Varejista de Campinas e Região, que reúne cerca de 40 mil lojistas, do quais 90% possuem cerca de três a quatro empregados, registram queda de 25%, em média, nas vendas neste início de ano.

“O consumidor está focado em pagar impostos, comprar material escolar. Está todo mundo em compasso de espera. O dinheiro ficou mais curto e o consumidor está cortando tudo o que pode”, afirma Sanae Murayama Saito, presidente do sindicato.

As administradoras de cartão também registram a retração no consumo.  O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) caiu 2,4% em fevereiro na comparação com igual mês do ano passado e recuou 2,1% sobre janeiro, na série com ajuste da inflação, segundo a Cielo.

Foi a primeira retração do indicador desde o início da série histórica, em janeiro de 2013. A maioria dos setores cresceu abaixo do ritmo registrado em janeiro, sendo que parte deles apresentou retração na receita de vendas. A região Norte foi a única que registrou crescimento.

Segundo a Cielo, a retração na variação anual foi influenciada, principalmente, pelo feriado do Carnaval. Sem o efeito do feriado, o índice teria registrado alta de 0,2%.

"Muitas lojas fecham no Carnaval e, com isso, as vendas acabam indo para baixo. Mas, em março, certamente teremos efeito inverso por causa dessa troca de calendário", diz Gabriel Mariotto, gerente de Inteligência da Cielo.

VESTUÁRIO, ELETROELETRÔNICOS

Entre os setores, a Cielo destaca que os de consumo com "giro rápido", como varejo alimentício em geral, padarias, lojas de cosméticos, veterinárias e drogarias e farmácia, registraram crescimento acima de zero, na média, mesmo com o efeito do Carnaval.

Ainda assim, o ritmo de alta foi mais fraco do que o dos meses anteriores. Entre esses setores, o de postos de gasolina foi o que mais desacelerou a receita em vendas em fevereiro na comparação com janeiro.

Já os setores que comercializam itens duráveis e semiduráveis, que já vinham puxando o ritmo de crescimento do indicador para baixo, também desaceleraram de modo geral. De acordo com a Cielo, vestuário e eletroeletrônicos voltaram a ter forte desaceleração, após mostrarem recuperação em janeiro. Ao contrário dos setores de consumo com giro rápido, a Cielo destaca que o feriado de Carnaval teve impacto negativo relevante nos segmentos de duráveis e semiduráveis.

Em relação à cesta de serviços, recreação e lazer foi um dos poucos setores que aceleraram. Houve desaceleração nos segmentos de transportes, incluindo táxis, ônibus intermunicipais e, principalmente, nos resultados das companhias aéreas.

De acordo com a Cielo, desconsiderando o setor de companhias aéreas, o ICVA deflacionado de fevereiro teria registrado queda de 1,7%, em vez de 2,4%, em relação a igual período do ano passado.

REGIÕES

A região Norte foi a única que registrou crescimento na receita de vendas em fevereiro na comparação anual, com "ligeira alta" de 0,8%, já descontada a inflação.

A Cielo ressalta, contudo, que, ainda assim, o resultado foi 3,2 pontos porcentuais menor em relação a janeiro. Todas as outras regiões do país apresentaram queda no desempenho do varejo em fevereiro na variação anual. O pior desempenho foi do Sudeste (-2,8%), seguido por Nordeste (1,4%), Centro-Oeste (-1,3%) e Sul (-0,2%).

O economista Rodrigo Baggi, da Tendências Consultoria Integrada, avalia que, apesar das diferenças regionais, a queda generalizada do varejo deixa claro que a piora na confiança de consumidores e empresários afeta o país de maneira horizontal.

Segundo ele, 2015 será um ano "extremamente desafiador" para o segmento varejista, pois não há perspectivas que mostrem recuperação do otimismo. A Tendências prevê para 2015 queda de 0,7% no varejo restrito e de 1,5% no ampliado, medido pela Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE.

Além da baixa confiança, o diretor do Núcleo de Estudos e Projeções Econômicas da consultoria Gouveia de Souza (GS&MD ), Eduardo Yamashita, avalia que a queda do varejo se deu pela a redução da renda real dos consumidores, pelo crédito restrito e caro e pela alta inflação, que "resiste e deve ficar acima do teto da meta em 2015". "O crédito continua caro e com maior rigor de concessão por parte dos bancos, principal fator por não haver uma disparada do índice de inadimplência", diz.

* Com Estadão Conteúdo

 



É a primeira vez desde fevereiro de 2014 que o volume produzido em um mês supera o resultado alcançado em igual mês do ano anterior, de acordo com a Anfavea.

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