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Atacadistas de moda de Rio Preto disputam clientes com São Paulo


Nos últimos dois anos, São José do Rio Preto expandiu seu polo de confecções, e começou a atrair lojistas e sacoleiras do Brasil inteiro


  Por Mariana Missiaggia 09 de Setembro de 2016 às 12:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Bairros comerciais de São Paulo, como Brás e Bom Retiro, atraem diariamente 500 mil pessoas de todas as partes do Brasil.

São mais de 20 mil estabelecimentos espalhados em 59 ruas de comércio especializado, que movimentam cerca de R$ 35 bilhões por ano na capital paulista, de acordo com os dados da Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo da cidade.

No entanto, aproveitar tamanha variedade esbarra em uma série de problemas de uma metrópole insegura, com transporte insuficiente e sem nenhuma comodidade para quem vem de longe.

A goiana Jamile Conceição, 32 anos, faz parte do grupo que viaja uma noite inteira para amanhecer no maior centro de compras do país, onde costuma gastar R$ 5 mil.

Habituada a fazer esse roteiro a cada três meses durante quatro anos, ela reduziu o número de visitas à capital no último ano. Agora, Jamile se limita a duas viagens por ano, somente para os lançamentos de verão e inverno.

MEGA POLO, UM DOS COMPLEXOS DE COMPRA DE SÃO PAULO

As razões disso são variadas: distância, trânsito, violência, alimentação cara, condições de pagamento, falta de comodidade, dificuldade para se deslocar entre os polos comerciais, e preços altos.

"No Mega Polo (complexo atacadista), os preços são bem mais altos", diz. "Nas  lojas de rua, a variedade é menor, algumas (lojas) não aceitam cartão, e tenho que andar com os valores em notas correndo o risco de ser assaltada".

Reclamações como a de Jamile motivaram centros atacadistas de cidades do interior como São José do Rio Preto, a 451 quilômetros da capital, e Cianorte, no Paraná, a investir em qualidade e infraestrutura para conquistar esse público com alto potencial de consumo.

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Com três shoppings especializados em atacado, São José do Rio Preto reúne cerca de 1,2 mil confecções, que colocaram a cidade na rota da moda, atraindo consumidores de outros estados, como Brasília, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, e Acre.

SHOPPING LITORAL, EM SÃO JOSÉ DO RIO PRETO

 

Júlio Cesar Boschetti, gestor administrativo do shopping atacadista Litoral, diz que quem visita o centro comercial é recebido com um café da manhã.

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Além de investir em infraestrutura, Boschetti e os administradores de outros atacadistas da cidade, se aproximaram das agências que promovem caravanas de compras, e fecharam parcerias, que envolvem desde descontos até hospedagem, translado e refeições subsidiadas pelo shopping.

BOSCHETTI, DO SHOPPING LITORAL - CRESCIMENTO DE 20%, NOS ÚLTIMOS DOIS ANOS

A estratégia rendeu um crescimento de 20%, no movimento do shopping, nos últimos dois anos.

Inaugurado em 2012, o centro comercial recebe 10 mil clientes por mês, que ali desembolsam entre R$ 3 mil e R$ 15 mil, em visitas quinzenais ou mensais.

Para receber esse público, o Litoral, e os outros dois complexos, Clube da Moda e Fashion Center, possuem estacionamento, restaurantes, banheiros com chuveiros, e até uma área para descanso.

As confecções de Rio Preto seguem o mesmo caminho dos empreendimentos, tentando se diferenciar ao máximo de tudo o que é produzido em São Paulo.

De olho nesse mercado, a jornalista Ana Paula Hova, 35 anos, decidiu montar uma pequena confecção há quatro anos, para vender peças femininas para butiques.

ANA HOVA TROCOU PROFISSÃO DE JORNALISTA PARA EMPREENDER COM UMA CONFECÇÃO 

Sem revelar números, Ana Paula afirma que a aposta saiu melhor que o esperado. Com uma loja no shopping Litoral, a empresária diz que Rio Preto se tornou um dos polos preferidos dos lojistas.

Ela destaca a qualidade dos tecidos utilizados, a modelagem, e a variedade das peças produzidas na cidade. "Tudo muito diferente do que se vê na capital. Temos um estilo diferenciado, muito procurado por um público mais exigente."

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Carro-chefe de sua marca, os vestidos da Ana Hova Store são vendidos a um valor médio de R$ 130, no atacado.

Com um crescimento de 20% no volume de vendas, em 2015, a empresária também admite que a divulgação em redes sociais é responsável por, pelo menos, metade desse resultado.  

Em Rio Preto, comércio e serviços correspondem a 76% do PIB, e de acordo com Jorge Luís de Souza, vice presidente da Acirp (Associação Comercial e Industrial de São José do Rio Preto), a indústria da moda é responsável por cerca de 60% desse resultado.

JORGE SOUZA, DA ACIRP

Em momento de crise, Souza aponta que os shoppings atacadistas funcionam como o estoque das lojas de cidades da região. Além disso, esse mercado estimula a economia local por estar diretamente ligado a outros ramos, como o de embalagens, por exemplo.

"A expansão de alguns atacadistas, no últimos dois anos, fortaleceu Rio Preto, e favoreceu pequenas confecções, que se tornaram grandes marcas".

*FOTO: Cleber Davidson