Leis e Tributos

Prisão de Wesley Batista é a primeira por 'insider' no Brasil


A prisão preventiva de Wesley Batista, presidente da JBS, é a primeira realizada no Brasil pelo crime de insider trading - o uso de informação privilegiada para obter lucros no mercado financeiro.


  Por Estadão Conteúdo 14 de Setembro de 2017 às 07:22

  | Agência de notícias do Grupo Estado


Segundo a Polícia Federal, a venda de ações da JBS antes do vazamento da delação dos controladores evitou um prejuízo potencial de R$ 138 milhões aos irmãos Batista.

Wesley foi preso, ontem, em sua casa, na capital paulista, após decisão do juiz João Batista Gonçalves, da 6.ª Vara Criminal Federal de São Paulo, no âmbito da Operação Acerto de Contas, nova fase da Tendão de Aquiles, que investiga uso indevido de informações privilegiadas em transações ocorridas entre abril e 17 maio de 2017, data de divulgação de informações relacionadas a acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República.

A ordem de prisão preventiva, que não tem prazo determinado, foi estendida a Joesley Batista, que já está preso temporariamente por ordem do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeita de violação de sua delação.

Ao decretar a prisão preventiva dos irmãos Batista, o juiz alertou para o "risco concreto de fuga". O fundamento central do decreto é a "garantia da ordem econômica e da ordem pública".

No pedido de prisão dos acionistas da JBS, a Polícia Federal ressalta que eles, mesmo após a negociação e assinatura do acordo de delação, continuaram a "praticar delitos" no mercado financeiro.

Em nota, o advogado Pierpaolo Cruz Bottini, que faz a defesa de Wesley, disse que "não há um elemento que sustente essa prisão, que além de ilegal e arbitrária, coloca em descrédito o instituto da colaboração".

A investigação da PF identificou dois crimes distintos, mas interligados: a compra e venda de ações e a compra e venda de contratos futuros de dólar. Ambos ocorreram antes dos áudios da conversa de Joesley Batista com o presidente Michel Temer se tornarem públicos.

Segundo o delegado da PF Victor Hugo Rodrigues, os crimes foram comprovados por mensagens eletrônicas, depoimentos, relatórios da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e laudo pericial.

Os irmãos Batista detêm 100% da empresa FB Participações, que por sua vez tem 42,5% da JBS. Às vésperas do vazamento da delação, Joesley determinou a venda pela FB de 42 milhões de ações da JBS a R$ 372 milhões.

Ao mesmo tempo, a própria JBS, presidida por Wesley, passou a recomprar esses papéis, diluindo as perdas com a desvalorização das ações no momento em que a delação fosse divulgada.

"A maior parte do prejuízo com a queda das ações não ficou com os Batistas, mas com os outros acionistas."

Além disso, um dia antes da delação da JBS vazar, a empresa foi a segunda maior compradora de dólar no Brasil, segundo o delegado da Polícia Federal, Rodrigo Costa, que explicou como a empresa manipulou o mercado de câmbio. "Foi uma movimentação absolutamente atípica", disse.

Um dia antes da delação vir a público, em 17 de maio, a JBS negociou US$ 474 milhões com a moeda a R$ 3,11. Segundo nota do Ministério Público Federal, somente as operações em dólar somaram R$ 3 bilhões, rendendo lucro de US$ 100 milhões aos empresários.

Essa é a mesma quantia da multa prevista na delação no processo criminal, de US$ 110 milhões.

"Tudo indica, e o inquérito confirmou, que estamos diante de pessoas que têm a personalidade voltada para a prática reiterada de crimes. Pessoas que já foram objeto de seis operações da PF simultâneas, não pararam de delinquir e certamente não vão parar de delinquir com a sétima operação", disse o delegado Victor Hugo Rodrigues. 

PERFIL

Tido como o mais introspectivo dos três irmãos Batista, Wesley, de 47 anos, foi o responsável pelo processo de internacionalização do grupo JBS, que começou em 2005 com a aquisição do frigorífico Swift Armour na Argentina e se estendeu por outros 21 países.
 
Mais novo que José Batista Júnior - o irmão que se desligou da empresa para tentar uma carreira política que não decolou - e mais velho que Joesley, Wesley é descrito como um empresário obstinado pelo corte de custos e que conhece profundamente a operação de seus negócios.
 
Assim como Joesley, Wesley não terminou o segundo grau e aprendeu na prática a administrar as empresas. Após a JBS comprar (com financiamento do BNDES) a Swift nos Estados Unidos e na Austrália em 2007, ele se mudou para a cidade americana de Greeley, no Colorado, para comandar a operação internacional da companhia. Chegou sem falar inglês e - novamente - aprendeu na prática, com a ajuda do diretor da JBS Marcos Sampaio.
 
Dessa época nos EUA, tornou-se famosa a história de que, ao chegar lá, Wesley viu como os funcionários cortavam a carne e, inconformado com o desperdício, mostrou ele mesmo como deveriam fazer - seu conhecimento do setor vai desde a compra do gado até a distribuição, passando pelo processo de desossa, contam pessoas próximas a ele. Ainda nos EUA, demitiu centenas de funcionários, grande parte formada por executivos de alto escalão, que, segundo afirmou à época, não tinham conhecimento sobre o negócio da carne.
 
Sob seu comando e o constante corte de gastos - além do apoio do BNDES -, o grupo JBS foi avançando internacionalmente: comprou a americana Pilgrim?s, a australiana Primo Smallgoods e a irlandesa Moy Park, entre outras.
 
Depois de quatro anos morando fora, voltou ao Brasil em 2011 para assumir a presidência executiva do grupo JBS (que reúne principalmente os frigoríficos da holding J&F) e para comandar a integração das unidades internacionais. Seu irmão Joesley, que até então presidia a companhia, passou, a ocupar apenas o cargo de presidente do conselho administrativo da JBS.