São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Inovação

Sem medo de fracassar, empreendedores dão a volta por cima
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No Vale do Silício americano, ao contrário do que ocorre no Brasil, fechar as portas de uma startup não significa vexame, nem é motivo de condenação

Há cinco anos Cassandra Phillipps (a moça da foto acima) fundou a FailCon, um encontro de um dia em San Francisco, costa oeste dos EUA, celebrando o fracasso. Desanimada com o crescente coro de fundadores de startups promovendo seus triunfos no Vale do Silício, ela ansiava por histórias de quem não deu certo.

O evento foi um sucesso. E em cada outubro dos quatro anos seguintes, até 500 novatos em startups de tecnologia se juntaram a veteranos da indústria que contam seus "maiores fracassos" e comandam debates abertos com títulos como "Como se comportar quando tudo sai dos trilhos".

Neste ano, porém, a FailCon foi cancelada. Segundo Phillipps, parte do motivo é que a discussão sobre fracasso está tão presente no Vale do Silício que um encontro com esse tema quase parece supérfluo.

"A apostila já diz que você vai fracassar", disse ela.

De acordo com uma pesquisa de Shikhar Ghosh, professor da unidade de gestão empreendedora da Harvard Business School, de 30% a 40% das startups financiadas por capital de risco queimam a maior parte (ou a totalidade) do dinheiro dos investidores, e de 70% a 80% não entregam o retorno projetado.

Agora o fracasso está emergindo como uma medalha de honra entre startups do Vale do Silício, com empreendedores alardeando publicamente como enfrentaram as adversidades.

Numa publicação de blog intitulada "Hoje Minha Startup Fracassou", o empreendedor do Vale do Silício Chris Poole não mediu palavras ao descrever a morte de sua empresa DrawQuest, desenvolvedora de um aplicativo.

"Sem pouso suave, sem final feliz – nós simplesmente fracassamos", escreveu Poole em fevereiro. Nas 720 palavras que se seguiram, o tom foi confessional.

"Poucos no mercado conhecerão a dor de fracassar como um CEO financiado por capital de risco", escreveu. Isso veio na esteira do fracasso de sua startup anterior, a Canvas (e também da fundação do enorme sucesso 4chan, um fórum online de mensagens anônimas).

Poole explicou aos leitores que, mesmo o aplicativo DrawQuest tendo sido baixado 1,4 milhão de vezes, o negócio não sobreviveu.

"Pode parecer surpreendente que um produto de aparente sucesso pudesse fracassar. Mas isso acontece o tempo todo", escreveu ele.

Ele não é o primeiro a dissecar publicamente seu próprio fracasso empresarial. Posts do mesmo estilo se tornaram tão comuns no Vale do Silício que o blog da empresa de serviços de informação CB Insights fez uma antologia de dezenas de textos similares num artigo em janeiro, intitulado "51 Startup Failure Post Mortems" (em tradução livre, 51 necropsias de fracasso de startups). Desde junho, o site atualizou o artigo com outros 50 casos.

Uma publicação na primeira onda de fracassados veio de Jordan Nemrow, cujo aplicativo Zillionears.com permitia que músicos vendessem suas canções diretamente aos consumidores através de uma venda de curto prazo conhecida como "flash sale". Segundo Nemrow, o Zillionears.com implodiu porque "as pessoas na verdade não gostaram de nada em nosso produto. Ninguém que usou o serviço achou que ele fosse descolado".

Depois que o post tornou-se viral, algo estranho aconteceu.

"Recebemos 100 mil hits num fim de semana naquele blog, o que resultou em cerca de 10 mil visualizações para nosso aplicativo. Antes disso, tínhamos um total de 100 visualizações", afirmou Nemrow.

Porém, infelizmente para ele, no momento em que esses números apareceram, já era tarde demais para traduzir o interesse em vendas. A empresa já estava condenada.

Nemrow também descreveu os erros da empresa numa entrevista para o site Startup Sessions. E ao lado de seu cofundador, Dan Polaske, continuou discutindo suas falhas num vídeo no YouTube.


Trey Griffith (à esq.) e Jordan Nemrow, que trocaram experiências sobre fracasso na FailCon
Fotos: The New York Times Service

Além do Vale do Silício, círculos de startup patinam em seu gosto pelo fracasso – e isso trouxe a Phillipps mais uma oportunidade de negócio. Há quatro anos, ela começou a licenciar o evento FailCon (por uma taxa de US$1.500) a produtores em outros países, incluindo Brasil, Japão, Irã, Arábia Saudita e Israel. E em Toronto, uma empresa chamada Fail Forward faz consultoria em startups buscando examinar e aprender com seu fracasso. Em julho passado, eles realizaram uma conferência similar à FailCon.

"Ninguém quer fracassar. É terrível. Você nunca me ouvirá dizendo para comemorar o fracasso", disse Ashley Good, presidente e fundadora da Fail Forward, e acrescentou, "fracassar com inteligência é uma habilidade cada vez mais importante".

Com isso, Good quer dizer procurar por maneiras de mudar a conversa sobre o fracasso usando uma linguagem diferente, mais positiva, e sendo capaz de separar o ego das atividades.

"Você pode dizer a si mesmo: 'Só porque fracassei, isso não significa que sou um fracasso'", afirmou Good.

Em seus cinco anos conduzindo a FailCon como um projeto paralelo enquanto mantinha outros empregos em tempo integral, Phillipps reuniu uma boa quantidade de sabedoria empresarial. Em seu atual emprego como designer de games para a empresa Pocket Gems, ela diz sempre inferir que os novos produtos fracassarão de alguma forma. Eles descobrirão um funcionário problemático, por exemplo, ou os produtos acumularão críticas negativas de usuários.

"Nunca houve nenhum produto lançado que não tivesse esses problemas", garantiu ela.

Phillipps e sua equipe esboçam planos preventivos para lidar com diversas possibilidades. Eles criam soluções específicas e definem sistemas de alerta que indicam a possibilidade de algum tipo de fiasco.

Para Trey Griffith, comandar uma startup de tecnologia fracassada foi como "bater sua cabeça contra a parede e tentar várias coisas, mas nada funciona", comparou ele.

Griffith presidiu uma startup chamada Endorse.me, que buscava ajudar empresas a recrutar estudantes universitários usando recomendações dos professores. Ele enviou o que chama de SOS enquanto lutava para manter seu negócio funcionando. Era um post de blog detalhando sua situação e pedindo conselhos aos leitores.

Ele ficou contente por ter expressado sua desgraça tão publicamente, pois acabou conhecendo seu atual chefe como resultado.

Hoje Griffith é vice-presidente de tecnologia da Teleborder, empresa de San Francisco que produz software para que os departamentos de recursos humanos administrem vistos de funcionários no exterior. Ele diz que, quando entrevista candidatos para cargos na Teleborder, não evita profissionais com fracassos no currículo.

Parte disso é uma questão de praticidade. Griffith tem interesse em candidatos que experimentaram as dificuldades de uma startup, e em empreendedores cujas empresas estejam indo bem e, portanto, não estão procurando emprego.

Ele escreveu sobre seus fracassos na mesma época em que Nemrow, do Zillionears.com, escreveu sobre os seus. Nemrow ofereceu apoio. Os dois choraram as mágoas em um bar na cidade, e mantiveram contato depois que Nemrow conseguiu um emprego no site Shop It to Me e Griffith começou a trabalhar na Teleborder.

Logo eles teriam algo em comum: o sucesso.

"Achava que seria muito importante ver startups que dão certo. Eu queria ver o funcionamento interno delas", afirmou Nemrow sobre sua decisão de trabalhar no Shop It to Me.

E Griffith já não se sente mais tão preocupado.

"É bastante diferente quando sua empresa está indo bem e crescendo. Hoje ela está em um estágio onde as coisas estão funcionando. Não é tudo perfeito, e nós definitivamente precisamos ajustar alguns detalhes, mas estamos indo na direção certa. Essa é uma sensação realmente animadora".

Há alguns meses, Griffith recrutou Nemrow para trabalhar com ele na Teleborder como engenheiro de software.

"Este é o negócio menos sexy de todos. É mais ou menos assim: 'Ah, sim, nós fazemos vistos'. Mas hoje existe tanta coisa sexy que está fracassando. Agora vai ser diferente. E será uma mudança interessante", afirmou Nemrow sobre sua nova empresa.

Do The New York Times News Service



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