São Paulo, 26 de Abril de 2017

/ Inovação

Quem é Evan Spiegel, que reinventou a fotografia com o Snapchat
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Seu aplicativo, que virou uma febre entre os jovens, é acessado a cada dia por cerca de 150 milhões de internautas – quase 15 milhões mais do que o Twitter.

Quando a fotografia começou a ganhar notoriedade, no final do século 19, as pessoas costumavam visitar estúdios em sessões formais para posar para um retrato.

Com a popularização das máquinas portáteis ao longo das décadas seguintes – a ascensão e o apogeu da Kodak – o hábito era “tirar uma foto”.

Nestes tempos, com a cultura de compartilhamento típica das redes sociais e disseminação dos smartphones, ingressamos na era de oferecer uma foto. 

Quem faz essa análise sobre a evolução da relação das pessoas com a fotografia é o americano Evan Spiegel, de 26 anos, fundador do Snapchat, um dos aplicativos de compartilhamento de fotos e vídeos mais populares do mundo. 

Fundado em 2011, quando Spiegel tinha apenas 21 anos, o Snapchat tem registrado um crescimento exponencial baseado em privacidade, conexão, criatividade e efemeridade.

Os vídeos e imagens gerados e veiculados pelo aplicativo são automaticamente eliminados em até 24 horas após a publicação. 

VÍDEOS E FOTOS SÃO AUTOMATICAMENTE APAGADOS EM ATÉ 24 HORAS

Hoje, mais de 150 milhões de internautas acessam o Snapchat diariamente – quase 15 milhões a mais que o Twitter.

Em março, a empresa foi avaliada em mais de 19,3 bilhões de dólares. Esse valor a posiciona na sétima posição no ranking das empresas unicórnios mais valiosas do mundo. 

E como o Snapchat galgou tamanha popularidade? Spiegel conseguiu usar seu talento em design de produto, curso que abandonou na Universidade Stanford, para criar um serviço com incrível atratividade para as demandas da faixa jovem, seu principal público-alvo. 

Nas palavras do Spiegel, o Snapchat não é uma rede social – mas uma reinvenção da câmera, agora conectada a internet.

O aplicativo permite que as pessoas compartilhem suas impressões e experiências em todos os lugares e a cada momento – ao mesmo tempo em que acessa as experiências de um enorme contingente de pessoas.

Numa tradução livre, Snapchat significa "conversas em um estalo", uma maneira ágil de comunicação, que têm sido usada como uma espécie Whatsapp de imagens.

Numa época em que fotos e vídeos embaraçosos disseminados indevidamente na internet são motivos de bullying, dissolvem a autoestima e chegam a causar tragédias entre adolescentes, o Snapchat soube aproveitar o diferencial de equilibrar conteúdo casual e fugaz. 

O aplicativo também lança novas funcionalidades com frequência – o que ajuda a manter a febre entre os usuários. As imagens podem ser personalizadas com diferentes filtros de cor, sobreposição de textos e animações (veja exemplos no vídeo ao final da matéria).

A última novidade é o World Lenses, que permite usar recursos de realidade aumentada para inserir objetos virtuais nas imagens. 

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DO DIGITAL PARA O FÍSICO 

No final de setembro, a empresa foi rebatizada para Snap Inc. Outra novidade foi o anúncio do Spectacles, um óculos de sol com câmera integrada que faz foto e vídeos para serem compartilhadas instantaneamente no Snapchat (o aplicativo permanece com o nome de batismo). 

De acordo com Spiegel, o Spectacles, que custará US$ 129,00 (R$ 437,30) nos Estados Unidos e que ainda não tem data para chegar ao mercado, será uma evolução do propósito do Snapchat.

As imagens geradas no dispositivo terão formato circular, semelhante à visão humana. Gravadas com mais naturalidade, serão uma representação mais fidedigna da realidade do que fotos de smartphones – quase que a captura de uma memória, que ficará acessível para a rede. 

A câmera do Spectacles poderá acompanhar tudo o que o usuário visualiza – pessoas, paisagens e produtos numa vitrine. 

SPECTACLES, ÓCULOS QUE GRAVA E COMPARTILHA VÍDEOS NA INTERNET/Divulgação

Saber tudo o que o usuário enxerga e entregar o que ele gostaria antes mesmo dele se manifestar pode ser uma incrível oportunidade de negócio.

Porém, há riscos. Em 2014, o Google suspendeu o projeto Glass, óculos inteligentes da marca. Entre diversos imbróglios estava o debate sobre invasão de privacidade. Nos Estados Unidos, o uso do aparelho foi proibido em alguns locais públicos, como cinemas e restaurantes. 

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Antigos desafios também rondam o aplicativo Snapchat. Recentemente, uma pesquisa da organização não-governamental Anistia Internacional afirmou que o Snapchat não dispõe de proteções mínimas para assegurar a privacidade de seus usuários.

A falha na segurança pode permitir que cybercriminosos acessem os dados trocados pelo aplicativo. 

VAI FATURAR?

Outra batata quente que Spiegel tem em mãos é a incerteza em torno de como o aplicativo poderá gerar receitas relevantes.  

Possuir uma grande base de usuários não é sinônimo de lucro. Um exemplo é o Vine, aplicativo para gravação e compartilhamento de vídeos lançado em 2013 que possuía mais de 40 milhões de usuários, mas não gerava receita relevante.

Há uma semana, o Twitter, dono do Vine anunciou que irá descontinuar o aplicativo devido corte de custos. 

Embora o apreço dos usuários do Snapchat lembrem o dos fãs da MTV na década de 1990 – o que desperta o interesse do mercado publicitário – o aplicativo não possui ferramentas capazes de segmentar o público-alvo, como faz o Facebook. 

Uma das chances de alavancar as receitas é encontrar maneiras criativas de criar anúncios na plataforma.

O aplicativo já exibe algumas peças, com estilo de conteúdo nativo, entre sequências de vídeos feitos por usuários anônimos e celebridades e nos canais de veículos de informação, como BuzzFeed, CNN e ESPN. Marcas como BMW e Sony Pictures estão entre as anunciantes. 

Outra maneira de gerar faturamento consiste em patrocínios de funcionalidades por marcas. Recentemente, a Gatorade criou uma lente animada que despejava um balde de gelo sobre as cabeças das pessoas. 

A oportunidade – e também desafio – do Snapchat é fazer com marcas atinjam o usuário com sutileza e uma boa dose de diversão. Antes de enviar uma imagem com uma lente criativa, os usuários brincam com as animações durante 20 segundos, em média.  

De acordo com o site TechCrunch, o Snapchat deve faturar cerca de US$ 300 milhões neste ano. Em 2017, a empresa estima receitas entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão. 

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DISCRETO NA ERA DA SUPEREXPOSIÇÃO 

Spiegel é conhecido por não revelar detalhes de sua vida pessoal. Ele cresceu numa região residencial de Los Angeles, sendo o primogênito de uma rica família com pais advogados.

A MODELO MIRANDA KERR: NOIVA DE SPIEGEL/Foto: Eva Rinaldi/CreativeCommons

Noivo da supermodelo Miranda Kerr, ex-estrela da Victoria's Secrets, ela anunciou o pedido de casamento com emojis engraçadinhos via Snapchat em julho. 

A fortuna pessoal de Spiegel também é vultosa – estimada em US$ 2,1 bilhões de dólares. 

Talvez o americano tenha se retraído publicamente devido os maus bocados que já se envolveu.

Em 2014, uma série de emails pessoais dos tempos de universidade vazou indevidamente. Nas mensagens, Spiegel tratava colegas de classe de maneira pejorativa e se gabava de suas relações sexuais. 

O empresário também possui outras animosidades criadas em Stanford. Frank Reginald Brown, que participou da fundação do Snapchat na universidade, entrou na justiça contra Spiegel requerendo 20% da companhia. Em 2014, um acordo sigiloso foi firmado entre as partes. 

O caso de Spiegel lembra o vivido por Mark Zuckerberg, seu rival no mundo dos negócios virtuais. 

Em 2013, Spiegel rejeitou uma oferta de compra de US$ 3 bilhões de dólares proposta pelo Facebook. Desde 2012, Facebook e Instagram têm lançado funcionalidades com conteúdos casuais similares aos do Snapchat.

Um dos aplicativos foi o Poke, que possibilita o envio de textos, imagens e vídeos que se autodestroem em poucos segundos – quanta coincidência. 

Para especialistas do mercado digital, hoje o Facebook tenta isolar o Snapchat no segmento de adolescentes e jovens – uma forma de evitar que o concorrente ganhe popularidade entre os mais velhos e provoque uma migração de usuários entre as redes. 

A dúvida que permanece é se o Snapchat conseguirá manter a relevância numa era de transformações digitais e, principalmente, em meio a jovens que costumam mudar constantemente de hábitos.  

*FOTO DE ABERTURA: Tech Crunch/Creative Commons



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