São Paulo, 11 de Dezembro de 2016

/ Inovação

Pequenas Inovadoras | ToLife acelera atendimentos de emergência em hospitais
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Como Leonardo de Carvalho, o rapaz da foto acima, criou uma plataforma que faz classificação de risco dos pacientes em apenas um minuto e meio e organiza o fluxo em serviços de emergência

O que a cidade de Manchester e o Estado de Minas Gerais têm em comum? Quase nada, exceto que, na na cidade inglesa, foi elaborado, em 1994, um sistema inovador de classificação baseado em cores para descongestionar o fluxo de pacientes e hierarquizar o atendimento em pronto-socorros de acordo com a gravidade da emergência –o chamado “Protocolo de Manchester.”

Já no Brasil, um mineiro especialista em TI desenvolveu um software baseado nesse sistema de classificação. Também inovador, uma vez que serviu para agilizar a implantação e a gestão desse Protocolo, que chegou ao Brasil em 2005, em unidades públicas e privadas de saúde.  

Foi com a criação de uma empresa, a ToLife, que Leonardo Lima de Carvalho, 37 anos, realizou o sonho de infância de trabalhar na área de saúde. Fundada em 2009, a startup, com sede em Belo Horizonte (MG), surgiu para fornecer soluções tecnológicas para o setor. A plataforma Trius e o software Emerges, de apoio à triagem de pacientes em um minuto e meio, foram o resultado disso.

Mas, lá atrás, ninguém imaginaria que Leonardo não acompanharia a vocação da família, repleta de médicos. Convicto de que seguiria a carreira, no ensino médio passou a acompanhar a irmã mais velha às aulas de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para se ambientar.

Foi quando descobriu que gostar demais da área não era sinônimo de clinicar. “Descobri aos 45 do segundo tempo que não queria ser médico. Como eu tinha uma pegada forte de exatas, escolhi Ciências da Computação, que era outra área promissora e me atraía muito.”

Como profissional de tecnologia da informação, pós-graduado em engenharia de softwares, Leonardo passou por empresas do porte da Stefanini, e organizações como a Fumsoft (de apoio ao desenvolvimento de pequenas empresas). Em 13 anos de profissão, trabalhou como analista de programação até chegar a gerente de projetos.  

Até que, em 2008, chegou um convite do governo mineiro que ele assumisse um projeto pioneiro: a implantação da primeira Rede de Atenção às Urgências e Emergências do estado – que incluíam a implementação do Protocolo de Manchester, com aval do Ministério da Saúde.

FALANDO A MESMA LÍNGUA

Era a chance de fazer o que ele mais gostava. A meta era implantar o Protocolo todos os 853 municípios do estado, com o desafio de gerir e fazer a manutenção do sistema de triagem nos pacientes que davam entrada nos hospitais e unidades de saúde.

Ocorre que,  além de ferramentas básicas como aparelhos de pressão, medidores de glicose e termômetros, também faltava o aparato tecnológico necessário, além do treinamento de pessoal para realizar o atendimento em questão de minutos.

“Eram diversos fornecedores, cada um prestando um serviço e com assistências técnicas diferentes. Era difícil manter uma unidade de saúde desse jeito, inclusive sob outros aspectos, como furtos de equipamentos ou desvio de função para outros setores”, conta Leonardo. 

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Foi quando ele teve a ideia de desenvolver o sistema específico para classificação de risco, que teria que unir equipamentos, agilidade no processo de atendimento aos pacientes e possibilidade de auditoria individual. Começava a surgir o embrião da ToLife.

E lá foi ele se reunir com uma pequena equipe de bambas em tecnologia para desenvolver o software. Pesquisou patentes semelhantes no mundo – que não existiam. Montou um plano de negócios com a Fumsoft e levantou capital junto a amigos, parentes e investidores-anjo.  

Ao contrário de outras startups, a ToLife não foi incubada nem acelerada, mas reuniu recursos de forma “muito amadora”, segundo Leonardo. “Não conseguimos ninguém com cultura de investir em equity. Foi tudo na raça”, lembra.

Obteve R$ 1,25 milhão para investir no software, mas precisou de “certo endividamento” para concluir o protótipo do Trius. Em 2009, o posto de triagem da ToLife que classificava o risco dos pacientes com o software Emerges, fez todas as unidades de saúde onde foram instalados falarem a mesma língua.

NEGÓCIOS COM PROPOSTA DE VALOR

Com a inovação reconhecida, a ToLife logo recebeu um aporte de R$ 120 mil da Finep através do programa Primi para profissionalizar a gestão.  Daí em diante, virou história: o Trius saiu de Minas Gerais para ganhar o país, e atualmente está presente em 5 mil unidades de saúde públicas e privadas, 800 municípios e 14 estados brasileiros (incluindo o Distrito Federal).  

Além de agilizar o atendimento e os processos, o retorno do investimento, formatado com exclusividade para cada unidade da saúde, é de “mais de 5000% em cinco anos”, conforme afirma o fundador da ToLife. “Em um momento de crise como agora, é claro que se justifica (a implantação do sistema), pois gera corte de custos com aumento de produtividade.”

Em 2012, Leonardo se tornou Empreendedor Endeavor e, em 2013 recebeu o prêmio Empreendedor do Ano – Categoria Emerging, da Ernst & Young Terco. Com a Endeavor, assumiu o compromisso de se envolver e apoiar projetos de outros empreendedores, para contar sua história e trocar ideias sobre os erros e acertos de investir em um negócio próprio. 

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Com investimento em P&D de R$ 4,5 milhões e faturamento na casa de R$ 10,5 milhões em 2014, 40 funcionários e um registro de patente de produto por 15 anos em vários países, a ToLife hoje é considerada um “modelo de negócio com proposta de valor”.

Em seis anos, porém, nem tudo foi bem-sucedido. Segundo Leonardo, a internacionalização precoce quase prejudicou o negócio. A ideia era entrar com a ToLife no México, em 2012. Era o momento errado, pois a empresa não estava consolidada no Brasil.

“Faltou a maturidade necessária. Apesar de ter mercado fora, protocolos internacionais e etc, não é tão simples se expandir em outro País”, diz ele, cuja experiência rendeu até um estudo em conjunto com a Fundação Dom Cabral.

Agora, Leonardo diz que o foco é a expansão nacional, com expectativa de dobrar o faturamento em 2015, e de lançar novos produtos inovadores em 2016.

Pensando como empreendedor, Leonardo diz que suas maiores características são a resiliência e o foco, já que, como muitos iguais a ele, soube agarrar a oportunidade quando surgiu a sua.

“Ainda somos uma startup, e os nossos desafios são contínuos. Quando falta dinheiro para a saúde, as empresas que sobrevivem são as que têm proposta de valor. Por isso que, apesar da crise, nosso plano de crescimento é agressivo. Empreender é isso: continuar sempre, com energia e otimismo. E não só pelo dinheiro, mas pelo impacto que causa nas pessoas”, afirma.



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