São Paulo, 28 de Setembro de 2016

/ Inovação

Pequenas inovadoras: a empresa que traz a educação para o século 21
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A Geekie criou uma plataforma que adapta os conteúdos escolares de acordo com o perfil de cada aluno e está ajudando a melhorar as notas de milhões de estudantes

Computadores, internet, softwares, aplicativos e todas essas novas tecnologias mudaram a forma como as pessoas se comunicam e trabalham. Um fotógrafo do século XXI, por exemplo, não exerce suas atividades do mesmo jeito que os seus antigos colegas de profissão: as máquinas fotográficas mudaram, a revelação de negativos foi quase extinta e o uso de programas de computador se tornou essencial. O mesmo aconteceu com a maioria das profissões.

A forma de ensinar e aprender, porém, continua basicamente a mesma. As mudanças mais significativas ocorreram na forma como os alunos acessam a informação. Hoje, em vez de volumosas enciclopédias, eles consultam rapidamente os sites de busca quando querem saber algo. Existem pedagogias alternativas, mas a maioria das escolas brasileiras ainda utiliza a forma tradicional –  uma pessoa ensinando para várias que devem absorver esse conteúdo.

Para Eduardo Bontempo, de 31 anos, e Claudio Sassaki, de 40, sócios da Geekie, empresa que oferece soluções teconológicas para setor de educação, existem outras possibilidades para o ensino. Eles se conheceram quando trabalhavam juntos no mercado financeiro e, após alguns anos, decidiram deixar empregos promissores para montar a própria empresa: “Sabíamos que se não fosse naquele momento, dificilmente teríamos outra oportunidade de empreender. Foi por esse objetivo que eu sai do cargo de CFO de uma petroleira e o Bontempo deixou uma carreira no mercado financeiro”, afirma Sassaki.

Além dos bons trabalhos, eles tinham em comum uma ótima formação: Sassaki fez arquitetura e urbanismo na USP; MBA e mestrado em educação na Universidade de Stanford. Bontempo cursou administração na FGV e fez seu MBA no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Ambos compartilhavam a mesma meta: tornar a educação brasileira melhor e mais acessível. “Nós reconhecemos a importância das oportunidades de ensino que tivemos e queríamos retribuir oferecendo educação de alto nível em grande escala para todos as pessoas independentemente de classe econômica”, diz Sassaki.

Começaram a aprofundar a pesquisar sobre a chamada aprendizagem adaptativa – uma vertente da pedagogia com a premissa de que os métodos de ensino devem se adaptar ao aluno e não o contrário. Nos Estados Unidos, eles conheceram empresas que produziam materiais baseados nesse conceito, mas Sassaki e Bontempo queriam ir além. Deram início a uma plataforma online de estudos capaz de captar como cada estudante aprende e, dessa forma, indicar conteúdos que mais se adaptam às necessidades individuais.

Em 2011, o projeto amadureceu. Foi quando fundaram a Geekie, com a proposta de oferecer soluções tecnológicas para o setor de educação. O nome provém da gíria geek --termo que se refere aos aficcionados por livros, filmes e tecnologia. “Como todos que faziam parte do projeto gostavam muito de estudar, pensamos em usar a palavra nerd, mas embutia uma carga pejorativa. Optamos, então, por Geekie, que tem um significado parecido e é uma expressão disseminada entre as novas gerações”, afirma Bontempo.

SUPERANDO OBSTÁCULOS

Logo no início, a dupla se confrontou com um desafio comum à maioria dos empreendedores: a falta de mão de obra qualificada. No caso da Geekie, havia necessidade de funcionários com forte domínio em programação para criar a plataforma. “Tivemos dificuldades para achar profissionais que conseguissem transformar nossas ideias em algo possível na linguagem de computador”, diz Bontempo.

Os sócios decidiram ir direto na fonte e a recrutar dentro de universidades. “Seguimos para o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e para a USP, em busca de estudantes com bom conhecimento técnico, uma excelente trajetória acadêmica e que acreditassem que a educação é o caminho para mudar as coisas”, afirma Bontempo. No primeiro ano, a empresa contava com seis funcionários. Hoje são cerca de 90,  parte deles recrutada em renomadas faculdades.

Com uma equipe qualificada, o próximo problema foi reter esse pessoal. Para resolver essa questão, os fundadores adotaram um modelo de gestão de pessoas que privilegia a qualidade de vida dos funcionários. “Cultivamos uma cultura baseada na confiança. Não temos horários rígidos. Nossa cobrança é pela entrega. Eles podem vir trabalhar usando chinelos e temos uma barraca de fruta à disposição de todos”.

Mas existe outro fator inibe a alta rotatividade de funcionários: o ideal por trás da Geekie. “Além de ser um trabalho, a nossa equipe está comprometida com o propósito maior que a é difusão da educação”, diz Bontempo.

No primeiro ano, a empresa sobreviveu apenas com o capital dos sócios. Depois que a plataforma estava aprimorada, os fundadores saíram em busca de investidores. “Não tivemos dificuldade para achar fundos dispostos a investir porque já conhecíamos alguns da época que trabalhávamos no mercado financeiro”, afirma Bontempo. “Mas, na verdade, queríamos encontrar um investidor que estivesse alinhado nossos ideais e que não nos cobrasse um resultado imediato”.

Localizaram dois: receberam mais de R$ 6 milhões do Fundo Virtuose e da Fundação Lemann. Agora, a empresa se prepara para uma nova rodada de investimentos.

MAS AFINAL, O QUE A GEEKIE FAZ? 

Os produtos da Geekie são ferramentas que ajudam os alunos a estudar e os professores a compreender quais são  as dificuldades de cada estudante. O fato é cada indivíduo aprende de um modo diferente. Sucede que no modelo tradicional de ensino todos são submetidos à mesma forma de aprendizado. Para que o aprendizado se torne mais personalizado, a Geekie oferece para as escolas dois programas: o Geekie Teste e o Geekie Lab.

O primeiro é um simulado. Após fazer a prova, os professores recebem um relatório individual de cada aluno. Nesse documento são apontados os conteúdos que o estudante apresentou mais dificuldade. “Com o resultado dos testes, os docentes conseguem perceber quais são as lacunas de aprendizado e fazer um planejamento dos temas devem ser enfatizados durante as aulas”, afirma Silvana Leporace, diretora-geral pedagógica do colégio Dante Alighieri, que utiliza esse sistema da Geekie. “A ferramenta também permite que os alunos conheçam seus pontos fortes e fracos e, dessa forma, eles sabem o que devem priorizar durante os estudos”.

O segundo programa é mais completo. O Geekie Lab é uma plataforma de aprendizado em que o aluno faz uma avaliação diagnóstica e recebe um plano de estudos personalizado baseado em seus conhecimentos e na forma como ele aprende. Dentro da ferramenta, os alunos encontram exercícios, textos e vídeos. Todos os passos dados pelo estudante ficam registrados no sistema. Na medida em que ele vai avançando dentro dos temas, as atividades vão se ajustando às suas novas necessidades. O professor também tem acesso a essas informações e pode acompanhar a evolução dos estudantes.

“Se um aluno tem dificuldade com cartografia, por exemplo, a plataforma vai propor que ele leia textos ou que assista vídeos sobre esse tema. O professor também pode reforçar aquele conteúdo em sala de aula”, afirma Angélica Larcher, professora e coordenadora do colégio Internacional EMECE, que utiliza as ferramentas da Geekie desde 2012.

Além dos colégios citados, a empresa também presta serviço para outras grandes instituições de ensino de São Paulo, como o Bandeirantes, Visconde de Porto Seguro, Vértice e Lourenço Castanho. Não ficam de fora os filhos de famílias de baixa renda: para cada escola particular que se torna cliente, a Geekie doa uma plataforma para um colégio público.

Outra ferramenta da empresa que está ajudando os estudantes tanto da rede pública quanto da particular é o Geekie Games. Essa plataforma foi disponibilizada gratuitamente para todos os estudantes do Brasil. A ferramenta usa os mesmo princípios de ensino adaptativo para ajudar alunos a se preparem para o ENEM. Entre os meses de junho de novembro de 2014, os alunos se cadastravam no site e faziam uma prova para diagnosticar quais eram os pontos fortes e fracos nos temas específicos que são abordados na prova. Da mesma forma que o Geekie Lab, o programa formulava um plano de estudos individual que era adaptado à forma como o aluno aprendia.

Neste ano, o Geekie Games recebeu mais de 3 milhões cadastros. O projeto já havia sido realizado no ano passado e conseguiu melhorar o desempenho dos estudantes.“Identificamos que 70% dos pontos fracos dos alunos foram sanados após uso recorrente da plataforma. Percebemos também que os estudantes que concluíram todas as tarefas disponíveis apresentaram um desempenho até 30% maior do que aqueles que não usaram”, diz Sassaki.

Os resultados são positivos nas notas dos alunos e também nos números da empresa. A Geekie cresceu aproximadamente dez vezes em 2013, em relação ao ano anterior, registrando um faturamento de R$ 1.5 milhão em 2013. O número de clientes também aumentou. Das seis escolas atendidas em 2012, 650 instituições utilizam atualmente as ferramentas da empresa.

O reconhecimento também está nos prêmios que a Geekie recebeu nos últimos anos. A empresa foi considerada a melhor startup do Brasil pela IBM e venceu o prêmio empreendedorismo social promovido Folha de S.Paulo. Além disso, Eduardo Bomtempo foi eleito um dos dez inovadores com menos de 35 anos pela revista MIT Technology Review.

Assista ao vídeo que explica mais sobre a Geekie:

Veja a galeria de fotos que mostra como a plataforma da Geekie funciona:

 



A fundação está em busca de ideias inovadoras. Os interessados têm prazo até 31 de outubro para apresentar propostas

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