São Paulo, 08 de Dezembro de 2016

/ Inovação

Pequenas inovadoras: a biotecnologia vai às granjas
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A catarinense Brastax surgiu em uma sala de aula e se tornou uma das grandes vencedoras de prêmios de inovação. Os sócios criaram um método que utiliza microalgas para reutilizar a água de abate de frangos

Muito tempo antes que o termo biotecnologia fosse usado pela primeira vez, a humanidade, mesmo sem saber, já usava microrganismos para produzir vinhos e pães. Desde então, os homens tentam entender e se valer desses pequenos seres vivos para transformar ou criar novos produtos.

Desde então, tecnologia e ciência trabalham juntas. A começar pelo primeiro microscópico que permitiu que os cientistas enxergassem minúsculos organismos vivos, passando pelos trabalhos de hereditariedade de Mendel, até a descoberta da estrutura helicoidal do DNA. As últimas décadas foram marcadas pelo desenvolvimento da engenharia genética. Da teoria à prática, a biotecnologia tornou-se fundamental para alguns setores da indústria e para a agropecuária, mas o Brasil ainda está alguns passos atrás.

De acordo com o “Journal of Commercial Biotechnology”, que dedicou um artigo ao tema, o país ainda precisa avançar na aplicação da biotecnologia. Nos últimos anos, os números de pesquisas, doutores e pedidos de patentes nessa área cresceu, mas a utilização dessa tecnologia nas indústrias não acompanhou o mesmo ritmo.

O desempenho brasileiro nesse setor é considerado fraco quando comparado com outros países em desenvolvimento, como China e Índia. Além disso, as atividades no Brasil são consideradas medianas se comparadas ao potencial que pode ser extraído dos recursos biológicos do país. Um dos principais empecilhos apontados pelo estudo é a falta de interesse do capital privado nas pequenas e médias empresas que atuam no setor. Esse é o principal problema enfrentado pela Brastax, uma pequena empresa de biotecnologia de Itajaí, em Santa Catarina.

DA SALA DE AULA PARA AS GRANJAS

Assim como o Facebook, o Buscapé e outras grandes empresas, a história da Brastax também começou dentro de uma faculdade. Foi em 2012, quatro estudantes de oceanografia da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) – Ariel Rinnert, Lucas Marder, Juliana Pellizzaro e Murilo Canova – formaram um grupo de estudos com o objetivo de empreender. Eles decidiram montar um projeto relacionado ao uso de uma microalga, a Haematococcus pluvialis.

Esse organismo produz a astaxantina, considerada uma das substâncias mais antioxidantes da natureza. O nome da empresa, Brastax, surgiu da junção do nome Brasil com astaxantina. O uso dessas microalgas não é novidade. Esse componente é responsável, por exemplo, por dar a cor rosada para o salmão. Ele é cultivado e muito utilizado fora do Brasil principalmente para servir de alimento para animais e para o uso humano em cápsulas para suplementação alimentar.

O primeiro objetivo dos alunos da UNIVALI era implementar uma fazenda de microalgas em escala comercial no país, mas eles foram além e conceberam um uso diferente para essas algas.

A ideia surgiu após os sócios constatarem um problema comum para os criadores de aves, um negócio comum no interior catarinense. Eles observaram que o gasto com a água nos matadouros é grande –cerca de 20 litros para cada frango que é abatido. Por lei, esses estabelecimentos são obrigados a tratar esses resíduos líquidos antes de serem despejados, pois podem ser prejudiciais tanto para o meio ambiente como para a saúde humana.

O método tradicional além de ser caro não gera nenhum retorno direto para o criador. Eles criaram uma forma alternativa em que a microalga é utilizada para tratar esse efluente. O resultado desse processo gera uma água limpa que pode ser utilizada novamente em processos industriais e uma massa de astaxantina que pode servir para suplementar a alimentação de aves.

FOTOBIORREATOR: EQUIPAMENTO PARA CULTIVO DE ALGAS

Depois que a água é utilizada no abate dos frangos, ela é coletada e entra em uma máquina chamada fotobiorreator. Nesse ambiente, as microalgas –que foram cultivadas em laboratório– vão se desenvolver e eliminar os compostos que são tóxicos ao meio ambiente, como o fósforo, a amônia e o ferro. A próxima etapa é de filtragem em que a água tratada é separa da biomassa, ela também passa por uma secagem. A partir disso, é extraída a astaxantina para a alimentação das aves.

Mercado interessado nessa tecnologia não falta. O Brasil é o terceiro maior produtor de frangos de corte do mundo, e Santa Catarina é responsável por cerca de 26% da produção nacional. “Quando os frangos são alimentados com essa substância a carne fica mais rosada, com mais qualidade e mais saudável para o consumo. A ideia é que esses produtores vendam essas aves como uma linha premium”, afirma Lucas Mader, sócio da empresa.

Dessa forma, além de ser um processo sustentável porque trata a água contaminada dos abatedouros, o resíduo final também é aproveitado. Além disso, a energia utilizada para o fotobiorreator pode ser gerada através de painéis solares, tornado todo o procedimento econômico e ecologicamente correto.

DA TEORIA PARA OS NEGÓCIOS

Uma das principais dificuldades da Brastax é comum a grande parte dos pequenos empresários brasileiros: a falta de investimento para dar pontapé inicial. Os dados da PINTEC (Pesquisa de Inovação Tecnológica) coletados pelo IBGE mostram que a porcentagem de investimentos privados em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) no Brasil é de 0,55% do PIB, contra 1,87% nos Estados Unidos e 2,45% na Correia do Sul.

A solução encontrada pelos sócios foi buscar o capital inicial em prêmios para empresas inovadoras. O primeiro vencido pela Brastax foi o Santander de Empreendedorismo em 2012, na categoria biotecnologia e saúde. O prêmio de R$ 50 mil foi usado para contratar técnicos e estagiários. No mesmo período, a empresa começou a ser incubada no Núcleo de Inovação Tecnológica da Universidade do Vale do Itajaí (Uniinova).

FUNDADORES E SÓCIOS DA BRASTAX, TODOS NA CASA DOS 20 ANOS: PRÊMIOS COM UM NOVO NEGÓCIO DE BIOTECNOLOGIA 

Esse foi o primeiro de muitos concursos que a empresa venceu. Em 2013, a empresa foi a campeã do prêmio Ibero-Americano de Inovação e Empreendedorismo e do concurso estadual de plano de negócios do SEBRAE de Santa Catarina. No ano passado, venceu a sinapse da inovação da FAPESC e o acelera startup, da FIESP. Os prêmios ajudaram a aumentar o capital de giro da empresa, além de proporcionar que os sócios realizassem cursos e conhecessem potenciais investidores.

A empresa pretende faturar R$ 22 milhões nos próximos cinco anos, ajudando a tratar água usada no abate frangos e também cultivando microalgas para outros fins, como a alimentação de trutas em cativeiros. 

Para os produtores de aves, como Antonio Carlos Vieira Ramos, essas novas tecnologias são o avanço necessário para ampliar as exportações de frango em novos mercados. “A preocupação com processos sustentáveis é importante para as empresas estrangeiras, tecnologias, como a da Brastax, podem ajudar os produtores a alcançarem níveis internacionais”, afirma Ramos.



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