São Paulo, 11 de Dezembro de 2016

/ Inovação

“Criatividade sem educação não gera inovação"
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É o que diz a especialista Ana Carla Fonseca, para quem a economia criativa somente irá deslanchar quando os gargalos forem eliminados com ações do governo

Envolvida com a economia criativa desde o surgimento do conceito na Inglaterra, na década de 1990, a economista Ana Carla Fonseca é, ela própria, um exemplo vivo da profissional criativa multidisciplinar. Com sólida bagagem acadêmica, empreende com a consultoria Garimpo de Soluções, orienta empresas e governos, mantém uma agenda de palestrante internacional, colabora com agências da ONU para a disseminação do novo setor e participa de inúmeros fóruns ligados à sustentabilidade, inclusão, questões urbanas e inovação no Brasil e no exterior. Recebeu o Prêmio Cláudia 2013, na categoria Negócios. Nessa entrevista, Carla diz o que falta para a economia criativa deslanchar no país e o que ainda atrapalha a vida de quem quer empreender e trabalhar a partir da criatividade.

Qual o papel do governo para o fortalecimento da economia criativa como um setor estratégico do mercado?

Para começar, o governo precisa assumir a tarefa de levantar dados e estudos com regularidade sobre todos os campos de atividade criativa. Só dispondo deles há condições de fazer diagnósticos, criar e monitorar políticas públicas. Por enquanto, tivemos apenas estudos pontuais, raros e quase todos realizados por instituições não governamentais.

Como a falta de dados repercute sobre o setor?

A grande beleza da economia criativa é o seu efeito dinamizador sobre os setores tradicionais e ele só poderá ser plenamente aproveitado se os elos da cadeia - e seus gargalos - forem conhecidos.

Por que é importante olhar a cadeia de produção e não apenas a atividade? Pode dar um exemplo?

Vamos pegar uma das atividades criativas, a moda e sua cadeia produtiva, que inclui áreas da economia tradicional, como a indústria têxtil, indo até a produção de algodão. Sem ter um mapeamento da cadeia, corre-se o risco de dar força apenas à sua ponta visível, ou seja, ao grande estilista, e não à rendeira da ponta ou ao plantador de algodão.

Isto não contraria a ideia de que a economia criativa tem alta capacidade de inclusão social?

A inclusão não é intrínseca à economia criativa assim como a sustentabilidade também não é. Esses são equívocos muito repetidos, muitas vezes por desconhecimento das dinâmicas econômicas. Os países mais dedicados ao tema invariavelmente concluem que, ao investir em um setor criativo sem ter visão de cadeia e sem resolver seus gargalos, acaba-se favorecendo os profissionais mais bem capacitados e que, portanto, já tinham maior probabilidade de ingressar e se concretizar no mercado. O Peru é um exemplo de solução. Incentivou a gastronomia, mas não se limitou à valorização dos chefs. Olhou toda a cadeia, até envolver o pequeno agricultor que vive com um dólar por dia. Hoje, Lima é capital mundial da gastronomia pela UNESCO e o projeto se tornou ponta de lança de uma série de outros programas - da internacionalização da imagem do Peru à atratividade de turistas qualificados.

Quais são os gargalos mais presentes, especialmente pensando no Brasil?

Os gargalos são inúmeros, de educação e dificuldade de acesso a crédito até a falta de marcos regulatórios. Criatividade sem educação não gera inovação, nem produtividade - das quais o Brasil precisa urgentemente.

O que falta ser resolvido para que empresas e profissionais se beneficiem da dinâmica da economia criativa?

Sabemos de inúmeros casos de talentosos trabalhadores dos setores criativos que, apesar de preparados, determinados e dedicados, não vingam. Claro que isto acontece em todas as profissões, mas nos setores criativos há obstáculos adicionais por conta de suas peculiaridades. E também pelas enormes diferenças que existem entre cada indústria criativa. Não dá para tratar o setor de forma homogênea, seja para levantar dados ou estabelecer políticas públicas. Nesse contexto, é bem mais fácil ser um artesão informal do que um trabalhador do audiovisual, que precisa estar formalizado e ter nota fiscal para participar de editais ou produções. Para não falar do pessoal de ciência e tecnologia, cuja realidade é ainda outra, frente à do artesão ou à dos gestores culturais.

Como os obstáculos adicionais atrapalham o setor?

É difícil ter acesso a crédito com base em uma boa ideia, sem que isso seja associado a um enorme grau de risco e, portanto, a juros escorchantes. Ainda hoje, os bancos entendem a lógica de uma clínica médica ou de uma startup, mas não sabem valorar o trabalho de um artesão ou de um coletivo de dança. Há dificuldades trabalhistas e fiscais em razão das peculiaridades. Sem que elas sejam entendidas, não há como favorecer sua condição ou mesmo formalização. Veja o exemplo de um produtor audiovisual, que leva três anos para fazer um longa, da pesquisa à distribuição. Salvo condições especiais, para a Receita Federal ele paga nada de imposto nos dois primeiros anos e uma bolada no último, quando finalmente lança seu projeto. Se essa dinâmica de recebimento fosse mais bem conhecida, o recebimento poderia ser distribuído ao longo de três anos e a alíquota tributária possivelmente fosse menor. Idem para bailarinos, que, contrariamente aos profissionais de outros setores, começam a trabalhar muito cedo e terminam sua carreira solo também muito jovens. O INSS está preparado para lidar com isso? Não creio.

Há iniciativas positivas em curso para fazer o setor avançar?

Um passo importante foi a criação da Secretaria da Economia Criativa, dentro do Ministério da Cultura, por institucionalizar o assunto e dar maior visibilidade a muito do que já vinha ocorrendo na economia e na sociedade, sem participação governamental. Há uma tentativa do ministério de estabelecer parcerias dentro da estrutura do governo federal, com a Apex e o Sebrae. Alguns estados reconheceram a importância de sensibilizar a sociedade para o tema, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Bahia, Goiás e Tocantins. Enquanto isso, algumas federações de indústria e comércio, como a Fecomercio, a Fiesp e a Firjan abraçaram a causa e têm gerado eventos, congressos, estudos etc. Mas falta articular essas iniciativas em uma política público-privado integrada, sistêmica e que parta de um mesmo conceito de economia criativa para o Brasil, sem mistificações nem panaceias. 

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