São Paulo, 01 de Outubro de 2016

/ Inovação

Brasileiros investem em startup argentina de tecnologia espacial
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Especializado em inovação radical, o fundo liderado pelo cientista Fernando Reinach escolhe um projeto com potencial para render bilhões

Gênio precoce da internet, hacker na adolescência e especialista em segurança digital, o matemático argentino Emiliano Kargieman, de 40 anos, é o fundador da Satellogic, empreendimento escolhido para ser o segundo investimento de alto risco do portfólio do Fundo Pitanga

Conhecido por procurar apenas projetos de inovação radical, o fundo foi criado em 2011 pelo biólogo Fernando Reinach em sociedade com o banqueiro Pedro Moreira Salles, do Itaú Unibanco, e dos donos da Natura, Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos. Ex-diretor do braço de investimentos do grupo Votorantim, Reinach é o responsável por garimpar empresas inovadoras para aplicar os R$ 100 milhões levantados entre os sócios quatro anos atrás. 

Em entrevista exclusiva ao Diário do Comércio em dezembro passado, Reinach explicou por que este grupo de investidores escolheu o caminho de alto risco da inovação radical para investir. “Apoiamos apenas projetos capazes de causar uma ruptura no seu segmento ou setor. Queremos uma ideia que seja tão original que esta originalidade vai garantir que o negócio não terá concorrência por muito tempo.”

Reinach não revela o valor do aporte na startup argentina, mas diz que mais da metade do caixa ainda está disponível. "Demora mesmo, porque estamos em busca de projetos realmente inovadores. Não queremos cópias", diz Reinach. 

Para chegar à Satellogic de Emiliano Kargieman, os analistas do fundo avaliaram quase mil propostas em quatro anos. A empresa de tecnologia espacial para microssatélites criada em 2011 deu ao argentino a fama de “o "sonhador que quer democratizar o universo". 

GIGANTES OBSOLETOS

Faz dois anos que a equipe do Pitanga estuda a Satellogic. A empresa surgiu de um projeto desenvolvido por Kargieman durante um curso na Singularity University, um centro de estudos nos Estados Unidos financiado por instituições como Google e a Nasa. "Lá me dei conta de que a indústria espacial usa engenharia de 50 anos atrás. É terrivelmente avessa ao risco e está dominada por poucas companhias muito grandes, em geral fornecedoras do Estado", disse o argentino, recentemente, ao jornal La Nación. 

Com tamanho proporcional ao de uma Kombi, um satélite de observação convencional leva, em média, 10 anos para ser construído e custa US$ 400 milhões. Na data de lançamento no espaço, a tecnologia da câmera fotográfica instalada no equipamento já está defasada. 

A sacada de Emiliano foi fazer um satélite menor, do tamanho de um microondas, que fica pronto em um ano ao custo de US$ 250 mil. Enquanto os grandes satélites levam 15 dias para passar pelo mesmo ponto do planeta e transmitir aquela imagem, o sistema de minissatélites desenvolvido pela Satellogic, produzidos às centenas, pode transmitir imagens a cada quatro minutos. E tem a mesma capacidade de produzir imagens com resolução equivalente à dos grandes satélites. 

IMAGENS DEMOCRÁTICAS

Um dos potencias do negócio, por exemplo, é a compra das imagens pelo Google. Atualmente, os preços de imagem por satélite variam de US$ 5 a US$ 25 por km² e constituem um produto extremamente caro. Com uma constelação de mais de 300 satélites, a Satellogic quer oferecer fotos com alta resolução a US$ 0,05 por km². De acordo com Reinach, “será possível ver como está o trânsito na Marginal do Tietê antes de sair de casa, monitorar uma área agrícola, o desmatamento da Amazônia ou o nível da Cantareira. As possibilidades são inúmeras." 

Não foram só os brasileiros do Pitanga que identificaram isso. Ao mesmo tempo, a Tencent, que está entre as três maiores empresas de internet da China, ao lado de Alibaba e Baidu, tornou-se sócia minoritária da Satellogic. Com valor de mercado de US$ 140 bilhões, a empresa é dona, por exemplo, do serviço de mensagens mais usado no país, com 400 milhões de usuários. 
    
CORRIDA ESPACIAL

Embora seja um investimento relativamente pequeno em seu portfólio, a empresa argentina representa para a Tencent a possibilidade de participar do que já estão chamando lá fora de "segunda corrida espacial". Segundo a consultoria NewSpace Global, o mercado de satélites cresceu mais de seis vezes desde 2010 e hoje já conta com 800 empresas. 

Até o fim do ano, o investimento privado no setor deve chegar à marca de US$ 10 bilhões. Uma das companhias mais tradicionais do setor é a americana Planet Labs, que levantou US$ 95 milhões em investimentos no início do ano. A SpaceX, do bilionário Elon Musk, fundador do Paypal, acabou de receber US$ 1 bilhão do Google, que no ano passado, surpreendeu ao pagar US$ 500 milhões pela Skybox, que até então tinha lançado apenas um satélite. 

A Satellogic já tem três equipamentos orbitando ao redor da Terra e tem outros cinco em construção. "Sabemos que é arriscado e que temos competidores de peso", diz Reinach. "Mas, se der certo, será um negócios de bilhões de dólares".



No universo das startups, o termo significa criar e expandir um negócio sem recorrer a investimentos externos

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