Gestão

Troca de comando em empresas familiares: a vez dos profissionais


Pedro Herz, controlador da Livraria Cultura, anuncia que ele e o filho Sergio (foto) serão substituídos por executivos. No Laboratório Sabin, a segunda geração das fundadoras chegou a ser preparada, mas a presidente escolhida é uma prata da casa


  Por Nelson Blecher 07 de Novembro de 2016 às 08:00

  | Superintendente editorial do Diário do Comércio


Empresas familiares de médio porte que nos últimos anos conseguiram escalar um patamar de crescimento passaram a seguir uma bem-sucedida cartilha desenhada em meados da década de 1990 por alguns dos maiores grupos nacionais.

Em busca da perenidade, grupos como Votorantim, Suzano, Pão de Açúcar e RBS trataram de separar a propriedade da gestão.

Ao moldar sistemas de governança sintonizados com exigências do mercado, trataram de separar a propriedade da gestão e despacharam as novas gerações de herdeiros dos fundadores para conselhos de família ou de administração, abrindo espaço para a ascensão de executivos na presidência.

O pressuposto disso é que, para se perpetuar, uma empresa não pode depender de uma família ou mesmo de uma pessoa, como afirmou à época o empresário Abilio Diniz, do Pão de Açúcar, que na década anterior vivenciara um dos maiores conflitos familiares já vistos em empresas brasileiras.

Somente 15% das empresas familiares no mundo permanecem nas mãos da mesma família na terceira geração, de acordo com uma pesquisa do consultor americano John Davis, professor de Harvard que ajudou grandes grupos brasileiros a instalar a transformação na cúpula de grandes grupos brasileiros.

Dois casos exemplares dessa tendência emergiram no 7o. Fórum de Empreendedores promovido pelo Lide em Campos do Jordão, neste fim de semana.

Em sua palestra, o empresário Pedro Herz, de 76 anos, controlador da Livraria Cultura, anunciou que o próximo presidente da empresa não terá o sobrenome da família.

Em 2009, ele promoveu ao cargo que ocupava desde 1969 o primogênito Sergio, de 45 anos. O outro filho, Fabio, de 43 anos, que também ali trabalhava decidiu seguir um caminho próprio e deixou a empresa no ano passado.

Ao passar o bastão, Pedro diz ter se preparado para se ocupar com projetos pessoais. Foi diretor e depois presidente da Sociedade de Cultura Artística, criou um programa de TV no canal Arte 1 e começou a escrever sua autobiografia.

"Eu próprio fui um sucessor e virei um sucedido", diz Pedro, para quem sucessões estão embutidas no DNA de qualquer empresa.

"Cheguei à conclusão de que uma gestão familiar de empresa tem um limite, determinado pelo tamanho", disse ao Diário do Comércio. "E esse limite já atingimos."

Filho de judeus alemães refugiados do nazismo que imigraram para a Argentina e, em seguida, para São Paulo, Pedro acompanhou desde a infância a evolução do negócio da família, surgido da ideia da mãe, Eva, de locar livros no idioma alemão numa época -final dos anos 40- em que eram raros no mercado.

PEDRO HERZ COM OS PAIS EVA E KURT/Álbum de família

De lá para cá, a empresa teve um crescimento exponencial. São atualmente 17 livrarias fincadas em oito Estados, que empregam cerca de dois mil funcionários e devem somar neste ano faturamento de meio bilhão de reais.

Pelo que sugere Herz, o mandato de Sergio na presidência não deverá ser prolongado. Sem indicar um prazo para que seja sucedido por um executivo profissional, ele confirma que já ligou o radar  em busca de um executivo ne mercado, uma vez que, conforme explica, não há nos quadros da Livraria Cultura ninguém habilitado para tal cargo.

PEDRO E O FILHO SERGIO, DA TERCEIRA GERAÇÃO DOS HERZ

"Também estou pensando na minha sucessão", acrescenta ele, que ocupa a presidência do conselho de administração. Ocorre que  recrutar um CEO de alta qualidade não é uma tarefa fácil.

"A perspectiva de longo prazo da empresa familiar deve ser atraente para candidatos talentosos", afirma um estudo da consultoria Pwc. "É preciso dar a eles liberdade de ação e tempo para mostrar a que vieram."

O prazo médio do mandato de um CEO em uma empresa da lista Fortune 500 caiu para menos de cinco anos. Um levantamento da Harvard Business Review confirmou que o mandato ideal de um presidente não é muito diferente (4,8 anos). 

Depois desse prazo, o desempenho começa a cair. "É mais fácil demitir um executivo do que um filho  presidente", afirma Herz.

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O segundo caso em debate no Fórum de Empreendedores contemplou o Laboratório Sabin, sediado em Brasília. Fundado em 1984 pela bioquímica Janete Vaz e sua sócia Sandra Costa não chegou a contar com um representante da segunda geração na presidência.

Cada uma tem três filhos, que vinham sendo preparados para um processo de sucessão familiar quando uma luz amarela acendeu em 2010.

"O crescimento foi tão veloz, que tivemos de rever os planos", diz Janete. Nos últimos dez anos o laboratório cresceu ao ritmo de 30% anuais e dobrou o número de colaboradores.

JANETE VAZ, COFUNDADORA DO LABORATÓRIO SABIN: SUCESSÃO DE GESTORES

Assediado por concorrentes do porte do Fleury e Dasa, num dos setores de maior consolidação no país, o Sabin havia resistido a ser incorporado.

Ao contrário, passou a comprar laboratórios Brasil afora e hoje opera 228 unidades em 10 estados, empregando 3,7 mil funcionários -mais de 70% de mulheres. Projeta faturar R$ 740 milhões neste ano.

Para dar conta da expansão, gestores do Sabin foram convocados a preparar sucessores para dar conta da expansão geográfica mantendo valores e princípios que conferem ao laboratório um currículo estrelado nos rankings empresariais.

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É a empresa brasileira com a melhor gestão de pessoas, de acordo com a mais recente publicação Valor Carreira, o que envolve  índices de engajamento, satisfação e alto desempenho dos colaboradores. Há dez anos sucessivos figura com destaque em uma lista semelhante do Great Place to Work.

Ao longo do processo sucessório, a escolha da presidente do Sabin recaiu sobre a bioquímica Lidia Abdalla, que ali trabalha 15 anos de casa.

Em 2013, Janete e Sandra foram para o conselho de administração. "Perdi noites de sono", diz Janete. "A gente sempre tende a achar que é insubstituível na hora de entregar o bastão."

Segundo afirma, o processo não foi traumático para os seis filhos das fundadoras, uma vez que todos dele participaram.

Dois deles foram destacados para o conselho de administração, e os demais estão sendo preparados para se tornarem membros.

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Os exemplos da Livraria Cultura e do Laboratório Sabin devem proliferar no mercado brasileiro.

De acordo com o levantamento sobre empresas familiares conduzido pela PWc, 52% dos líderes empresariais entrevistados pretendem passar a propriedade da empresa para a próxima geração, mas contratar uma administração profissional.

Sucede que, segundo a mesma pesquisa, apenas 11% das empresas brasileiras têm um processo de sucessão que pode ser qualificado como sólido ante 16% da média global.

FOTOS: Gustavo Rampini e Kazuo Kajihara/Divulgação

*O jornalista viajou a Campos do Jordão a convite do Lide (Grupo de Líderes Empresariais)