São Paulo, 24 de Julho de 2017

/ Gestão

Trabalhador resiste em aderir a programa de demissão voluntária
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Das 164 mil vagas eliminadas no ano passado na indústria da transformação, quase 20% eram de montadoras. É nelas que se concentra o foco de resistência ao PDV.

Ferramenta para atrair trabalhadores quando a empresa precisa eliminar excessos de mão de obra, vários dos programas de demissão voluntária (PDVs) abertos nos últimos meses pela indústria automobilística se mostraram um fracasso.

Sem ter para onde correr em um mercado de trabalho que patina, funcionários recusam ofertas tentadoras, que incluem salários extras e até automóvel de graça, mesmo correndo o risco de ser demitidos mais tarde.

A resistência de trabalhadores em aderir a programas de saída incentivada é um retrato da crise no mercado de trabalho, cujas demissões estão sendo puxadas pela indústria.

"Carro e dinheiro não compensam, pois não conseguiria outro emprego e tem um monte de gente que depende de mim, como filhos, esposa e sogra", diz José Messias de Faria e Souza, de 46 anos, funcionário da General Motors em São José dos Campos (SP) há 23 anos.

Ele estava no grupo de 798 funcionários que ficou em lay-off (suspensão temporária dos contratos de trabalho) por cinco meses e voltou à fábrica há alguns dias. Alvo do PDV encerrado semana passada, o pintor Souza tem restrições médicas.

Para trabalhadores nessas condições, a GM oferecia até 24 salários extras, um Prisma no valor de R$ 45 mil e dois anos de convênio médico. Ao todo, a empresa obteve apenas 97 adesões ao PDV, diz o sindicato local.

Na fábrica de São Caetano do Sul (SP), onde a GM ofereceu o mesmo pacote, só 40 trabalhadores aceitaram o PDV. "Faltam seis ou sete anos para a aposentadoria e, se eu saísse, com certeza não iria conseguir outro emprego", afirma Júnior César de Oliveira, de 48 anos. Ele trabalha como montador há 20 anos. "O mercado de trabalho está muito difícil."

Em 2014, a indústria da transformação eliminou 164 mil vagas, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Só as montadoras e as autopeças contribuíram com 19,2% desse total. Este ano também começou com demissões.

"O trabalhador só vê a situação piorar, vê que o custo de vida está alto e sabe que o emprego na montadora não é um emprego qualquer; por isso faz a opção de não sair, pois sabe que não conseguirá outro igual", diz Antonio Ferreira de Barros, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos. O salário médio de um operário é de R$ 5,2 mil, diz ele.

Segundo Barros, "houve um período em que o PDV era interessante, principalmente para quem estava perto da aposentadoria, mas hoje o trabalhador prefere correr o risco de ser demitido, embora lutemos para que isso não ocorra."

Para o professor José Pastore, especialista em Economia do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP), o PDV só é bem-sucedido quando o trabalhador sabe que tem outro emprego esperando. "Hoje, ele sabe que, se sair, vai ser difícil uma nova colocação e, se conseguir, provavelmente será por salário muito mais baixo."

 



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