São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Gestão

O voluntariado invadiu o mundo corporativo
Imprimir

Os programas de voluntariado em empresas deixaram de ter como pressuposto a doação de recursos para o abatimento de impostos, e cada vez mais aproximam os funcionários da sociedade

Há alguns anos, o trabalho voluntário deixou de ser uma opção pessoal  ou de motivação religiosa e passou a fazer parte do cenário empresarial. Apoiar uma causa, humanizar as relações e envolver os funcionários, além de construir uma imagem positiva perante o mercado, ampliam novas habilidades profissionais e fortalecem a integração entre as equipes. 

Luciana Gama Muniz, 36 anos, coordenadora do CBVE (Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial), diz que o perfil do voluntário mudou nos últimos anos. Em 2001, a ONU o decretou o Ano Internacional do Voluntariado, o que aumentou a visibilidade dos programas nessa área e deu amplitude ao voluntariado em escala global.

“O voluntariado corporativo, em especial, foi impulsionado na última década, com a emergência da responsabilidade social do setor privado e a consolidação de organizações da sociedade civil como forma de mobilização social”, diz ela.  

Para Luciana, os brasileiros estão mais conscientes em relação ao seu papel como cidadãos e na construção de uma sociedade mais justa e responsável. “Eles estão mais ativos e engajados. De um contexto de atuação em entidades religiosas com motivações assistencialistas, passando pela militância política e partidária, o Brasil observou um expressivo aumento no número de voluntários, criação de centros, comitês e programas de voluntariado empresarial.” 

Ela também cita como avanços importantes a institucionalização da prática do voluntariado e a criação da Lei do Voluntário, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998. “Todo esse cenário contribuiu para que a prática do trabalho voluntário passasse a ter um viés mais profissional do que apenas um viés tradicional de caridade.”

25% DOS BRASILEIROS SÃO OU FORAM VOLUNTÁRIOS 

Em 2012, uma pesquisa encomendada ao Ibope pelo CVSP (Centro de Voluntariado de São Paulo) e a Rede Brasil Voluntário revelou que 25% da população brasileira já fizeram ou participam de alguma ação voluntária. Este percentual representa aproximadamente 35 milhões de brasileiros. 

De acordo com a pesquisa, a maioria dos voluntários brasileiros é do sexo feminino (53%), tem 39 anos de idade (22%), pertence a classe C (43%), está empregado (67%) e tem filhos (62%).

SÍLVIA, DA CVSP: "SER VOLUNTÁRIO É UMA MANEIRA INTELIGENTE DE FAZER O BEM A SI PRÓPRIO

Silvia Maria Louzã Naccache, coordenadora do CVSP, comemora o fato de 87% das pessoas que realizam esse tipo de trabalho estarem motivadas a continuar. Destes, 67% revelam que são voluntários por solidariedade. Outros 32% dizem se dedicar ao voluntariado para melhorar o mundo. 

Para Silvia, ser voluntário é se propor a minimizar as dificuldades do outro, muitas vezes tão distantes de seu próprio entendimento e convívio.

“As motivações são as mais variadas, não existe mais importante ou mais chique. Fazer a diferença, deixar a marca no mundo, ocupar um tempo de forma útil, motivações religiosas, fazer o bem, e retribuir algo que recebeu. Ser voluntário é uma maneira inteligente de fazer bem a si próprio.”

18 MILHÕES DE BRASILEIROS VOLUNTÁRIOS
 
O World Giving Index 2014, chamado de Ranking Global de Solidariedade, é considerado o levantamento mais abrangente com relação à doação, e ouviu no último ano 130 mil pessoas em 135 países. 

A pesquisa é feita globalmente levou em consideração se a pessoa doa dinheiro para organizações sociais, é voluntária em uma entidade ou ajudou um estranho ou alguém que precisava de ajuda. O Brasil ficou em oitavo lugar entre os dez países com maior número de voluntários – cerca de 18 milhões. 

POTENCIAL MULTIPLICADOR

Na multinacional Dow, o conceito de responsabilidade social já deixou de ser uma ação pontual e se tornou uma prática permanente. A partir do programa SolidariDow, que promove o voluntariado, principalmente na educação e meio ambiente, os funcionários  já se envolveram em ações como a pintura interna e externa de casas de comunidades, plantio de árvores e palestras educacionais. 

“Há pouco mais de um ano reformulamos nosso programa de responsabilidade social e criamos um comitê de voluntariado com 11 funcionários – com um representante de cada setor da empresa”, diz Daniela Grelin, gerente de comunicação corporativa da Dow.

Segundo ela, reunir pessoas de várias áreas da empresa que se interessem pelo voluntariado amplia o potencial multiplicador do programa e automaticamente capta um número maior de voluntários.  

“Desde então, percebemos um engajamento bem maior por parte dos funcionários, pois agora eles de fato participam de toda a estrutura do processo e nos apresentam visões diferentes.”

No momento, por exemplo, a sede de São Paulo da Dow, que reúne 800 assalariados, está envolvida em um projeto educacional em Paraisópolis, na zona sul. Cerca de 30 voluntários darão aulas de inglês em um colégio semanalmente. 

DOW REFORMULOU PROGRAMA DE VOLUNTARIADO E CAPTOU NOVOS VOLUNTÁRIOS

Daniela também diz que ter reunido tantos interessados foi inesperado. “Essa grande participação foi uma surpresa, porque se trata de um prazo longo de comprometimento. Foram tantos interessados que temos uma lista de espera para o segundo semestre”, diz. 

O programa de voluntariado, prossegue ela, é uma forma de se aproximar e dialogar com a comunidade, para que a empresa seja considerada bem-vinda a permaneça naquele ambiente.

 “Por isso, a Dow busca integrar a expertise da empresa e seus funcionários, com a necessidade da comunidade do entorno e novas oportunidades de negócios.”

DESENVOLVIMENTO DE COMUNIDADES 

O objetivo da Dow foi confirmado por um levantamento do CBVE, que mostrou que a principal meta das empresas ao desenvolver o voluntariado é contribuir para o desenvolvimento das comunidades mais próximas ao seu endereço. Cerca de 15 grandes empresas atuantes no país participaram da enquete.

TRABALHO VOLUNTÁRIO DA SHELL EM PARCERIA COM A CBVE/FOTO: COMUNICAÇÃO CIEDS

Em segundo lugar, ficou a contribuição para a melhoria das condições de vida de seus moradores, seguida do fortalecimento da imagem da empresa para os públicos interno e externo.

“A população quer se envolver, mas não sabem onde e como começar. Os programas de voluntariado precisam ser fortalecidos por políticas públicas e pelo poder privado”, diz Luciana.

A coordenadora do CBVE define o voluntário como um ator social que desempenha um importante papel de transformação e construção de redes para a prosperidade.

Como agente de mudança, o voluntário tem o poder de atuar e contribuir para o enfrentamento dos desafios sociais e ambientais. Nesse sentido, o voluntariado empresarial pode representar uma importante contribuição na luta para uma sociedade mais justa.

“Além do mérito e do potencial que o voluntário individual já possui, pode-se observar o aumento do impacto social do trabalho voluntário exercido por um grupo de colaboradores de uma empresa, uma vez que essa contribuição é acompanhada de planejamento, monitoramento das atividades, avaliação de impacto e foco na gestão para resultados.”

CURRÍCULO IMPECÁVEL

O que já é uma tradição nos Estados Unidos tem se tornado quase que obrigatório também no Brasil. Domínio de língua estrangeira, boa aparência, saber trabalhar em equipe e solidariedade compõe hoje a fórmula de um currículo impecável. 

Para Roberto Recinella, especialista em motivação corporativa, ter no currículo a participação em ações de voluntariado é bastante valorizado.

MEDIAÇÃO DE LEITURA VOLUNTÁRIA ORGANIZADA PELA CBVE/FOTO: HENRIQUE AJALA

“Trata-se de uma tarefa que exige muito aprendizado, e 70% dos funcionários de RH pesam muito esse detalhe. Considero o voluntariado uma espécie de escola de lideranças, que isenta o cidadão de seus cargos e funções. Ele não está lá pelo que tem, mas pelo que é. Ninguém quer saber se é CEO ou diretor.” 

Ele também destaca que a ação desenvolve diversas habilidades e competências nos profissionais, como liderança, trabalho em equipe e comprometimento. Para Recinella, o voluntariado tem o poder de colocar todos no mesmo patamar.

“No voluntariado, todas as máscaras caem. Todo mundo é igual.”