São Paulo, 27 de Junho de 2017

/ Gestão

“O bom publicitário deve saber captar as mudanças sociais”
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Para o publicitário Celso Loducca, com mais de três décadas de carreira, a atividade se tornará cada vez mais ineficiente se os anunciantes continuarem focados apenas em cortes de custos

Celso Loducca é um dos publicitários mais respeitados do país. Embora, ele mesmo diga que nunca foi viciado em publicidade e nem mesmo se considera um publicitário, apenas exercia a profissão. E exerceu com maestria.  

Começou a carreira em publicidade em 1984, como redator da Standard, Ogilvy & Mather (hoje Ogilvy). Passou pelas agências e Young & Rubicam, Talent, W/Brasil e FCB Brasil, onde se tornou vice-presidente.

Em 1995, fundou sua própria agência, a Loducca. Na extensa lista de clientes que atendeu, figuram marcas como Yamaha, Pepsico e Ambev. Loducca era o homem de frente da agência, além de presidente, era responsável pela direção de criação. 

Em 2015, vendeu sua participação na agência, que estava em ótima fase. De acordo com levantamento da Kantar Ibope Media, a Loducca foi a 17ª agência que mais recebeu investimento publicitário de anunciantes em 2015 – somando mais de R$ 1,5 milhão. 

Página virada, Loducca focou seu tempo em projetos que já mantinha em paralelo com a vida de publicitário. Há 13 anos, ele é sócio da Casa do Saber, organização que oferece cursos livres em diversas áreas do conhecimento, como música, religião e ciência.

Ele também mantém o programa de rádio "Quem Somos Nós?", transmitido pela rádio Eldorado e disponibilizado em podcast e em um canal no You Tube, onde debate questões humanas com convidados como o filósofo Leandro Karnal e a atriz Maria Fernanda Cândido. 

Loducca será um dos palestrantes do Fórum Empreendedor 2016, promovido pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Em sua palestra, no dia 20 de outubro, Loducca contará um pouco da sua história profissional e abordará conceitos de marketing e vendas.

“A diversidade de conhecimento do evento poderá ajudar o empreendedor a descobrir qual caminho seguir para superar os desafios de sua empresa”, afirma ele. 

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Loducca.

IMPACTO DA CRISE NO MERCADO PUBLICITÁRIO  

As empresas estão vendendo menos. Então, estão enxugando as verbas, inclusive as de comunicação. As agências, com menos receitas, estão adequando suas estruturas para atender os clientes. Mas é preciso haver um limite.

Quando se trabalha principalmente com talentos, estes apoiados por tecnologia e informação, não adianta enxugar e enxugar, pois uma hora o trabalho ficará ruim, insustentável. Mas acredito que as boas agências passarão pela crise.

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A PUBLICIDADE HOJE 

A publicidade é um mercado de pessoas. Se você começa a industrializar os processos, valorizar mais dados do que o talento, pressionar cada vez mais e não remunerar tão bem os profissionais, você perde os melhores talentos – e a publicidade se torna ineficiente. 

É isso que está acontecendo. Tem muita gente bacana saindo da publicidade. Sobra o mediano, que não irá resolver os problemas do cliente.

Então, quanto mais os clientes espremem as agências, mais nocivo é para eles mesmos. Não há espaço para a inovação e surpreender o público fica cada vez mais difícil. 

As empresas tem dificuldade para entender essa questão. As companhias podem economizar milhares de reais em corte de custos, mas acaba prejudicando suas marcas sem boa publicidade. 

A MENTE DO BOM PUBLICITÁRIO

Não existe uma fórmula para ser um bom publicitário. Mas existe um fator fundamental: é necessário compreender o outro, tanto o cliente quanto as pessoas.

É preciso gostar de gente e ter conhecimento profundo e sensibilidade com as pessoas. Pois o trabalho do publicitário é juntar marcas e ideias às pessoas.

Eu também acredito em talento. Na publicidade, pode haver um talento inato que faz com que o profissional enxergue o mundo com outros olhos – o que pode não ser a aptidão de algumas pessoas. 

COMO LIDAR COM NOVOS HÁBITOS DO CONSUMIDOR 

A obrigação de quem trabalha com comunicação é ir para onde o povo está. Então, os novos hábitos das pessoas afetam profundamente a maneira como as empresas se comunicam.  Não são as empresas que ditam as mudanças. Mas sim as pessoas – e as empresas precisam acompanhar essa mudança.

A maneira como as pessoas se relacionam com os meios de comunicação, seja televisão, revistas e até mesmo a internet, tem mudado. Mas isso não é o fim do mundo, só será para as empresas que continuarem agindo como se estivessem no passado. 

Temos que ver as mudanças como naturalidade. Isso faz com que o trabalho em comunicação se torne mais alegre e excitante. Pois nos força a apreender. Esse conceito vale para tudo, não só nos negócios, mas na vida pessoal também. 

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DESCOBERTAS FORA DO MERCADO 

Dei sorte de estar fora do mercado no último ano, pois tem sido bem complicado. Não estou vivendo o estresse e cobrança por resultados. Estou vivendo um sabático, que ainda não sei quando vai acabar. 

Ganhei tempo para cuidar da minha vida pessoal e fazer atividades que gosto, mas que não tinha tempo. Acabei de voltar de um curso de produção de queijos na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Conheci famílias produtoras que estão mudando de vida produzindo queijo. 

Na vida profissional, estou concentrado na Casa do Saber, que mantenho há 13 anos com outros sócios, e ao programa “Quem somos nós”, onde recebo convidados para tratar de temas de natureza humana, como filosofia, história e arte. 

Ter tempo livre me abre espaço mental para vivenciar outras experiências, ver como acontece a vida real, descobrir o que toca as pessoas. Tem sido um aprendizado. Estou me enriquecendo como ser humano, e, por consequência, como publicitário. 

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AINDA SEM SAUDADES 

Trabalhei 32 anos em propaganda. É muito cedo para sentir falta. Primeiro, nunca fui viciado em publicidade – era o trabalho que eu exercia. Não sinto como se tivesse perdido o chão. Não tive essa angústia porque parei em um momento excepcional da minha carreira. Já tinha sido premiado várias vezes, a agência Loducca estava numa ótima fase. 

Talvez, se tivesse parado em outro momento, poderia sentir falta de algo e teria pensando “e agora?”.

FÓRUM EMPREENDEDOR

Um exercício que o profissional de comunicação deve fazer é se colocar no lugar do outro, e, como também sou empreendedor, espero que o evento gere bons conceitos para ajudar os empreendedores nesse momento delicado, onde estamos num barquinho no mar aberto com muita neblina.

Não existem fórmulas ou truques. O importante é o público, ao ouvir minha história, descobrir conceitos de seu interesse e usá-los como parâmetros para construir seu próprio caminho. 



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Reynaldo Saad, sócio para a indústria de bens de consumo da Deloitte, analisa o comportamento dos brasileiros e orienta os empresários sobre o que fazer até que a economia melhore

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A capacidade de se colocar no lugar do outro, enxergar o mundo pela sua perspectiva e compartilhar sentimentos funciona em todas as relações interpessoais, inclusive nos contatos com os clientes

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