Gestão

O legado de um empreendedor à terceira geração


Como Armindo Dias, fundador dos biscoitos Triunfo, foi da indústria alimentícia ao ramo hoteleiro, e agora se dedica a preparar os dez netos para a vida e o futuro dos negócios


  Por Mariana Missiaggia 08 de Outubro de 2015 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Para enfrentar a retração econômica, o baixo crescimento e a inflação alta, muitos executivos buscam fórmulas mágicas, estratégias inovadoras, meios para reduzir custos operacionais e outras alternativas para resistir ao momento.

Em um cenário adverso para a indústria, com queda nas vendas e na produção, o mercado de massas e biscoitos resiste bem à crise. Dados da Abimapi, a associação de empresas deste segmento, mostram que a receita do setor deve crescer cerca de 5% este ano.

Nos últimos cinco anos, as vendas de biscoitos e massas cresceram 73%, atingindo um faturamento de R$ 32,2 bilhões em 2014 e um volume de vendas de 3,37 milhões de toneladas. Tantos números positivos, porém, não foram suficientes para convencer o português Armindo Dias, 83 anos, fundador da Companhia Campineira de Alimentos, fabricante das bolachas Triunfo, a permanecer no segmento.

Em 1997, quando Dias vendeu 49% da empresa para a Danone, os números eram ainda mais positivos. Naquela época (1997 – 1998), o consumo brasileiro per capita de biscoitos cresceu a uma incrível média de 18,6% ao ano, evoluindo de 2,75 quilos para 4,8 quilos.

“Vi que ter sócio não era a minha praia", afirma Dias. "Para a Danone, a Triunfo era apenas mais uma fábrica e para mim ela era tudo.”

Não demorou para que o empresário vendesse o restante daquilo que parecia ser o seu maior patrimônio com a justificativa de que uma empresa familiar não funciona com outros sócios. 

“A parte mais difícil foi a adaptação. Eu pegava o carro e ia até a fábrica sem perceber”, diz. “Mas, negócios são apenas negócios. Minha família é meu maior amor e, com a venda da Triunfo, consegui preservá-la unida.” 

A FAMÍLIA DIAS: CAMILA, FÁTIMA, CÉLIA, ARMINDO, CRISTINA, E ANTÔNIO

Com o valor da venda, equivalente a cerca de US$ 350 milhões, Dias tinha a missão de prosperar nos negócios, e resolver a sua maior preocupação – a sucessão familiar.  Pai de quatro filhos, ele contratou uma consultoria especializada em governança familiar para costurar um acordo bem definido.

O processo levou um ano e meio. Das reuniões mensais entre os herdeiros com o consultor Renato Bernhoeft, da Bernhoeft Consultoria Societária, definiu-se a estratégia de mercado do grupo Arcel – empresa que congrega todos os negócios da família.

Na época, o setor de hotelaria, em especial no interior de São Paulo, era carente em estrutura para receber grandes eventos.

Foi assim que Dias fugiu do óbvio e investiu o montante em um hotel, em Campinas, e em concessionárias de veículos. A decisão se revelou visionária. Em 2014, o setor de viagens corporativas movimentou US$ 32 bilhões no país. 

TERCEIRA GERAÇÃO

Aos 83 anos, este emigrante português está diminuindo o ritmo. O sonho de perpetuar a sucessão familiar do Grupo Arcel já é uma realidade. 

Os dez netos do empresário – entre 8 e 26 anos de idade – já estão sendo preparados para dar continuidade ao patrimônio da família. 

Toda a diligência do negócio passa por três conselhos. Um de administração, outro de sócios, e o de família. Nesse último, todos os herdeiros se reúnem semanalmente para preparar a governança corporativa da empresa, e se tornarem acionistas.

“Temos muito cuidado com o vínculo da família. A primeira preocupação é que eles se sintam satisfeitos com eles próprios”, diz.

Para Dias, esses encontros passam valores importantes aos mais novos da família, para que se sintam parte desse legado, e a partir de cada vocação contribuam para o crescimento do grupo.

Camila Dias Domingues, uma das filhas do empresário, por exemplo, é formada em design de interiores, e além de braço direito do pai nos negócios, é também responsável pela reformulação dos hotéis da família. 

“Como acionista, cada um deve saber se a sua melhor contribuição é dentro ou fora da empresa – apenas participando de assembléias, e de grandes decisões”, diz Camila.

CRISE

Um empresário como Dias, que já passou por outras crises é tido como referência no mundo do empreendedorismo. Mesmo diante de um cenário de recessão, o império da família não para de crescer.

O EMPRESÁRIO, ARMINDO DIAS

Com a ajuda dos quatro filhos, o empresário é uma fonte de inspiração. Ele vai expandir a rede Royal Palm Hotels & Resort para além do município onde tudo começou.

Outros dois resorts devem ser levantados nos próximos cinco anos. Um no litoral norte de São Paulo, em Bertioga, e outro em Araçariguama, a 50 quilômetros da capital. O valor desses projetos somados é de R$ 855 milhões, dos quais parte virá de investidores e parte será feita pelo grupo familiar.

HISTÓRIA

Com apenas 24 anos, e 250 dólares emprestados, Dias embarcou em um navio rumo ao Brasil. Aqui, tentou de tudo. Teve como primeira oportunidade profissional, a vaga de representante comercial da Lacta.

Inconformado com a condição em que os chocolates transportados desde São Paulo chegavam à Bahia, Dias propôs à direção da Lacta se tornar responsável pelo processo com a compra de um caminhão.

Sem dinheiro, Dias parcelou o caminhão em 36 vezes. Assim, seus negócios – tanto de chocolates, quanto de entregas, começaram a prosperar. Ele comprou o segundo caminhão, e contratou motoristas para não ter mais de viajar, e se focar nas vendas da Bahia. 

Além das vendas diretas, Dias montou um depósito e desenvolveu o sistema pronta-entrega. Assim, ele carregava seus caminhões, deslocava os seus motoristas para visitar comerciantes e fechar os pedidos, que eram prontamente entregues.Em pouco tempo, o empresário já tinha uma equipe para fazer visitas num raio de 50 quilômetros de Salvador.

Cinco anos depois, já com algum dinheiro acumulado e conhecido de muitos empresários em São Paulo, Dias vendeu a transportadora, e seu mudou para a capital paulista, onde trabalhou em uma distribuidora, onde ganhou mais experiência.

Entre tantos contatos profissionais, ele se aproximou do dono da Doces Campineira, uma indústria de balas e doces, em Campinas. Não demorou para que o homem lhe oferecesse parte da sociedade da empresa.

Assim como nos trabalhos anteriores, a dedicação de Dias mudou uma série de processos na fábrica a ponto de desgastar a relação entre sócios, e se tornar o único dono do negócio, que mais tarde viria a ser rebatizada de Companhia Campineira de Alimentos.

Sua história se transformou em livro. São 400 páginas, que contam a obra "Armindo Dias – uma vida dedicada a Deus, à família e ao trabalho", assinada por Elias Awad e editada pela Novo Século. “O mais marcante do Armindo é que ele ainda enxerga o Brasil como o país das oportunidades”, diz Awad.

Mesmo já tendo realizado tanto, Armindo é incansável. Além do sonho de ver a família unida e o sucesso do grupo Arcel, ele quer mais. “Ainda não realizei tudo. Na Campineira, eu empregava 2.400 pessoas. Hoje, eu gostaria de voltar a empregar o mesmo número de pessoas”.