São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

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Em depoimento ao Diário do Comércio, o empresário Jorge Lopes, sócio da Casa Luzia, conta como os conselhos do tio fundador são seguidos à risca por mais de 60 anos

A Casa Santa Luiza, tradicional supermercado de São Paulo, acaba de dar início a um programa de sucessão familiar, que envolve a contratação de executivos de fora da família.

Mesclar parentes e profissionais de fora foi a maneira encontrada pela família Lopes para fazer com que o negócio, que completa 90 anos em 2016, mantenha o sucesso conquistado até hoje.

Durante mais de seis décadas, o português Jorge da Conceição Lopes e o primo Álvaro Lopes tocaram a loja, fundada, em 1946, por Daniel Lopes, pai de Álvaro.

Leia, a seguir, os principais trechos do depoimento do empresário Jorge da Conceição Lopes.

SOBRE A CHEGADA AO BRASIL

"Com 16 anos resolvi que a minha terra, Figueiró dos Vinhos, um vilarejo em Portugal, era muito pequena para mim. Tinha a opção de ir para a África ou para o Brasil. Pensei: a primeira carta que eu receber de familiares eu vou decidir para onde eu vou. Foi uma carta do Álvaro, que estava no Brasil com a família. Vim para cá com a intenção de estudar, mas acabei me agarrando ao meu tio, que abria a loja às 6h40 e fechava às 22h10, para aproveitar o pessoal que saía da última seção no Cine Paulista".

SOBRE A SOCIEDADE COM O TIO

"Comecei como entregador de bicicleta. Colocava toda a mercadoria no cesto e ia até a casa dos clientes. Na época, eu conhecia os clientes pelo número de telefone, que tinha dois dígitos. O da Santa Luzia era 93.  A loja, que funcionava nas esquinas das ruas Augusta e Oscar Freire, foi crescendo e eu cresci junto. Em 1952, passei a ser sócio, com 4% do negócio. Meu tio foi uma das pessoas mais inteligentes que convivi, tinha uma visão muito completa do negócio. O sucesso da Casa Santa Luzia tem a ver com os alicerces que ele plantou".

SOBRE OS ENSINAMENTOS DO TIO

JORGE LOPES: LOJA SEGUIU À RISCA OS ENSINAMENTOS DO TIO DANIEL

"Ele dizia que a gente tinha sempre de procurar a ser o número um, porque do número dois ao dez não fazia diferença. E que, para ser o número um no setor de alimentos, era preciso ter uma loja, porque, se não, poderíamos perder o controle da qualidade. Tivemos mil e uma ofertas para abrir mais lojas, mas só temos uma.

Ele dizia também que se a gente ganhasse dinheiro, deveríamos aplicar naquilo que conhecíamos, por exemplo, em estoques de mercadorias. Aliás, isso foi a salvação da loja quando o Collor nos deixou com 50 mil cruzeiros. Foi a época mais difícil da empresa. Nós só sobrevivemos porque, ao contrário dos concorrentes, tínhamos estoque já pago".

SOBRE A SUCESSÃO

Por volta de 1970, ao ver que a empresa estava crescendo, fiz pesquisa e vi que as empresas familiares que escapavam da segunda geração não escapavam terceira geração. Cheguei à conclusão de que a terceira geração não assumia a empresa porque a segunda geração não soube prepará-la. Nossa preocupação, minha e a do Álvaro, foi preparar a empresa para ela ter continuidade. Fizemos isso.
O departamento pessoal está andando sozinho, assim como o de importação, a loja e os depósitos. Antes, eu controlava tudo. Nós três resolvíamos lá embaixo na loja todos os problemas da empresa, desde a compra de um depósito até a troca de uma torneira".

SOBRE OS ENSINAMENTOS PARA FILHOS E SOBRINHOS

"Chegar no horário certo, para dar exemplo. Chego entre 7h e 7h15, saio para almoçar às 11h30, volto às 13h e, depois, saio às 18h15. Digo que é preciso ser ético e honesto nas relações comerciais. Outro fator importante é a transparência entre as pessoas da família. O Azuil, filho do Antônio, não pode ter um pingo de dúvida sobre o que o Jorge, meu filho, está fazendo, e vice versa.  É preciso fazer economia, evitar desperdícios. Quando eu via um clips no chão, por exemplo, eu recolhia".

SOBRE AS BRIGAS NA FAMÍLIA

"Eu brigava mais com meu tio do que com meu primo Álvaro, mas era uma briga comercial. Eu tinha uma visão, ele outra e, hoje, a minha filha Ana Maria já tem outra visão ainda. Mas, veja: quando o meu tio saiu da loja para morar no sítio, se um fornecedor desse uma garrafa de vinho para nós, a garrafa de vinho ia diretamente para o meu tio. Por quê? Porque ele era o chefe".

SOBRE HÁBITOS DE CONSUMO

"A maior mudança de hábito de consumo foi quando surgiu o autosserviço. Mas me lembro também que o grande choque para o consumidor foi quando nós passamos a vender frango morto, não vivo. Foi um choque para os clientes, que estavam acostumados a levar frango vivo para a casa. Naquela época, poucas casas tinham geladeira, congelador. O costume do cliente era levar frango vivo para casa, deixar ele lá por três a quatro dias para verificar se o animal não tinha doença para, depois, abater. Era o tempo daquelas grandes cozinheiras".

SOBRE O MOMENTO MAIS DIFÍCIL

JORGE LOPES: ESTOQUE ALTO SALVOU A EMPRESA NO PLANO COLLOR

"Foi o período do Plano Collor, que deixou a gente sem dinheiro. O que nos salvou foi o estoque, e pago, que tínhamos na época, se não, tínhamos quebrado. No último ano do governo Sarney a inflação chegou a 83% ao mês".

SOBRE ASSÉDIO COMERCIAL

"Há muitos anos fomos procurados pelo banco Garantia. Eu disse: se a Santa Luzia valesse dez reais e eles oferecessem  R$ 1 milhão, não levariam a empresa. Amanhã, pode vender por nove, oito, sete, seis, mas, no momento, pode trazer o dinheiro que quiser, não leva. Olha que pena. O supermercado Sé era o mais organizado que existia no setor, desapareceu. O Barateiro desapareceu. Se tivéssemos aceitado a proposta deles, também tínhamos sumido".

LEIA MAIS: Como perpetuar uma empresa familiar?

 

 



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