São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Gestão

Gestores de alto e médio escalão são as primeiras vítimas dos cortes
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Atual crise, segundo especialistas em recursos humanos, difere daquela de 2007, quando as dispensas ocorriam sobretudo na base da folha salarial

Em meio ao processo de substituição da mão de obra devido à crise econômica, profissionais de média e alta gestão são os primeiros alvos dos cortes, e as vagas para preenchimento das posições têm salários menores e mais atribuições.

Em setores específicos, no entanto, as demissões começam pelo níveis mais baixos e sobem na hierarquia à medida que a situação econômica se agrava, segundo especialistas em recrutamento.

A reposição das vagas vai ser mais favorável para empregadores que para empregados", disse Cesar Tegon, fundador e presidente da empresa especializada em recrutamento e seleção online Elancers.

Para Ricardo Haag, diretor da Page Personnel, empresa especializada na seleção de profissionais para cargos técnicos e auxiliares, as primeiras demissões têm sido de gestores de médio e alto escalão.

Quando o objetivo é reduzir custos, a redução do quadro de trabalhadores começa pelos mais experientes, que têm salários mais altos.

"Antes, os gestores tinham mais segurança de que manteriam seus empregos. Hoje, não é mais assim", afirmou.

Um reflexo dessa tendência, diz, é o aumento de 40% na procura de profissionais de média gerência por novas oportunidades, seja porque perderam o emprego ou porque sentem que seus cargos estão ameaçados.

O movimento de cortes, no entanto, pode começar no sentido inverso, dependendo da natureza da atividade da companhia.

Tegon, da Elancers diz que os primeiros cortes se dão nas posições mais baixas. "As posições de supervisão e gerência são um pouco menos afetadas porque é preciso ter gente para coordenar o trabalho e ajudar a fazer mais com menos", disse.

Para ele, com a retração da economia e o aumento da ociosidade nas empresas, os funcionários remanescentes podem realizar as funções dos colegas demitidos.

O aumento dos desligamentos, segundo Tegon, já atinge a parte de cima do organograma acompanhando o aprofundamento da crise.

A velocidade com que esse processo se dá depende do porte das empresas: nas grandes, em que é possível demitir mais pessoas nos níveis intermediários, leva mais tempo. Já nas pequenas empresas, com estrutura mais enxuta, o corte pode chegar mais rápido ao alto escalão.

Haag concorda que este tipo de corte foi representativo nos setores automotivos e da construção e traça uma diferença no perfil das demissões nesta crise em relação a outros momentos ruins da economia.

"Os cortes hoje não são só na base como em 2008, mas em cargos de todos os níveis", disse.

Ele diz, porém, que a magnitude das demissões não deve ser a mesma da observada há sete anos. "Lá atrás houve um 'efeito manada' muito forte. Algumas empresas exageraram nos desligamentos e agora estão 'vacinadas'", afirmou.

Com o aumento do desemprego, e profissionais bem qualificados à procura de trabalho, as empresas podem oferecer salários menores do que quando o mercado de trabalho estava pressionado, diz Tegon.

"Não vai ser como era antes, de empresas aumentarem salários para segurar bons funcionários", afirmou. "Quando há pleno emprego, a indústria se mobiliza para aumentar salários, mas agora as pessoas precisam tomar mais cuidado para pedir aumento", alertou.

Os profissionais que assumirem as vagas de quem foi cortado também acabará acumulando funções. "Algumas empresas trocam um diretor ligado à área estratégica por um profissional com até dois níveis de carreira a menos e que tem um perfil de estratégia, mas de ação também", afirmou Augusto Puliti, diretor executivo da DM Seleção, unidade da DMRH responsável pelo recrutamento a partir do nível de coordenação.

Ele diz que é preciso ter perfil "multifacetado, com um balanço entre atuação estratégica e de ação. "O presidente precisa trabalhar como estagiário e o trainee precisa trabalhar como CEO."

Já Andrea Krug, sócia-diretora da Clave Consultoria, avalia que hoje os empregadores têm consciência de que as decisões relativas à mão de obra não podem ser de curto prazo.

Para ela, pesa o fato de levar tempo para as empresas desenvolverem talentos e aumentarem a produtividade de seus funcionários.

"Observo que há nas empresas um processo mais aprofundado do que simplesmente cortar um porcentual do efetivo. Minimamente essa discussão está mais qualificada", disse.

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