São Paulo, 27 de Abril de 2017

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Demissões em 17 redes de varejo atingem 22 mil na capital paulista
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Esse número corresponde a 9% dos comerciários demitidos nos últimos dois anos, de acordo com sindicato. Pão de Açúcar, Casas Bahia e Carrefour lideram ranking de homologações

Após uma década de contínua expansão, o varejo paulistano enfrenta um dos mais devastadores processos de encolhimento de sua história.

Há shopping centers fantasmas, com quase metade das lojas fechadas, aguardando novos improváveis locatários.

Em escala nacional, 18,1 mil pontos comerciais cerraram as portas neste ano -o equivalente a 12,9% dos existentes no universo dos centros de compras.

Em bairros de comércio tradicional, como o Brás, abundam placas de aluga-se. É o retrato de uma prolongada recessão, com desfecho ainda incerto.

Consequência dela, e tão chocante quanto o cenário de vitrines esvaziadas é o acúmulo de demissões, que somaram 244 mil homologações nos últimos dois anos, de acordo com o Sindicato dos Comerciários de São Paulo.

Neste período, 17 das maiores redes varejistas nacionais, dispensaram quase 22 mil funcionários  somente na capital paulista -o equivalente à população de Cunha, distante 230 quilômetros.

LOJA DA MARABRAZ: REDE DISPENSOU 386 FUNCIONÁRIOS NA CAPITAL

Podem ser até 30% maiores, de acordo com estimativa do sindicato, considerando aqueles que perderam o emprego com menos de um ano de casa -casos em que o acerto entre as partes é selado nas empresas, sem registro nas estatísticas.

Convém observar que as 21,7 mil homologações realizadas pelas redes varejistas de janeiro de 2015  até novembro -e que representam 9% do total dos comerciários demitidos na capital -não se traduzem necessariamente pelo fechamento de todas as vagas.

VAGAS FECHADAS

É provável que parte delas tenha sido reposta. Com o agravamento da crise, porém, essa reposição de pessoal, de acordo com o sindicato, diminuiu significativamente.

“Em 2015, ainda havia certa rotatividade de pessoal", diz Josimar Andrade, diretor do sindicato. "O turnover no varejo sempre foi alto, da ordem de 65% no país". A diferença fundamental neste ano, segundo afirma, é de que cresceu o contingente de vagas eliminadas.

De acordo com levantamento da entidade, o Pão de Açúcar lidera o ranking de homologações nos últimos dois anos, com 6.806 dispensas -quase 16% de seus 43 mil funcionários no país.

Seguem-se na lista a Casas Bahia (2.955), Carrefour (2.608), Sonda (1.643) e Lojas Marisa (1.110). Veja abaixo a lista completa de homologações.

Queda de faturamento, aumento de custos, crédito restrito são as principais justificativas informadas pelas empresas aos funcionários na hora das dispensas.

São também as razões que levaram ao fechamento de cerca de 100 mil lojas no país em 2015 e de outras 100 mil que deverão encerrar as atividades neste ano, de acordo com projeção da CNC (Confederação Nacional do Comércio).

A situação financeira do varejo paulistano está tão complicada neste final de ano, de acordo com Andrade, que uma parcela das lojas não conseguiu nem sequer pagar a primeira parcela do 13º salário ao seu pessoal e não tem perspectiva de quitar a segunda.

Neste mês uma das duas lojas da Bongusto, especializada em calçados e bolsas, localizada há 28 anos na esquina das ruas 3 de Dezembro e 14 de Novembro, no centro de São Paulo, também não resistiu à crise e fechou as portas.

LOJA DA BONGUSTO: FECHADA APÓS 28 ANOS NO CENTRO

“Há demissões ocorrendo em dezembro, uma raridade no comércio paulistano, já que esta sempre foi uma época de contratação de temporários”, diz Andrade.

Somente as empresas mais capitalizadas, e que já estavam com o quadro de pessoal ajustado, contrataram trabalhadores temporários.

LEIA MAIS: Em 1,5 ano, 18 redes demitem 20 mil na capital paulista

ÚLTIMO LANCE

A queda de receita e o aumento de custos tiveram impacto tão forte no caixa das empresas que as demissões acabaram sendo a alternativa que restou para tentar manter o negócio, avalia Luís Arrobas, sócio-diretor da 2Get, empresa de consultoria especializada em RH.

Tomada a decisão, Arrobas recomenda que seja feita de uma só vez, para que não gere um clima de incerteza e insegurança capaz de abalar os sobreviventes.

“Do contrário, os profissionais começam a procurar outro emprego e tiram o foco do trabalho, fazendo com que o resultado da empresa piore ainda mais. Vira um círculo vicioso”, afirma.

As categorias profissionais que mais sofreram no varejo, de acordo com o consultor, foram as envolvidas com operação de frente de loja e de compra de produtos, ou seja, vendedores e compradores  São funcionários com salários na faixa de R$ 7 mil e R$ 8 mil até R$ 20 mil por mês.

Demissões, convém lembrar, geram custos extraordinários para as empresas, relacionados com o tempo de casa de cada funcionário.

Quando demite, a empresa se vê compelida a pagar salários, férias e 13º devidos, além de multa de 40% sobre o valor do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço).

“É uma decisão com impacto direto no caixa, já que os valores têm de ser pagosno mês seguinte ao desligamento. É preciso estudar bem se vale a pena fazer as demissões”, diz Arrobas.

Demitir, a seu ver, deve ser o último recurso para uma empresa que precisa cortar custos, na avaliação de César Souza, consultor, palestrante e presidente do grupo Empreenda.

“Essa é uma atitude mais fácil, mas não resolve o problema de caixa. As empresas devem cortar custos reduzindo desperdícios, uso de energia, água, material e estoques”, diz Souza.

SOUZA, DA EMPREENDA: FALTA TREINAMENTO

Se uma loja compra cinco vestidos por mês, mas só vende três, então que passe a comprar três peças, não cinco. “O custo do estoque é altíssimo no Brasil”, afirma.

É fato que as condições macroeconômicas são desfavoráveis às empresas neste momento no país, mas também é fato, na avaliação de Souza, que o varejo não está sabendo atender o cliente e por isso sofre com o fraco ritmo de vendas.

“O vendedor não entende o que o cliente quer porque não está treinado para isso”, diz.

 A Empreenda conduziu uma pesquisa online junto a mais de mil consumidores para avaliar a satisfação deles com a última compra e identificar o que chama de índice de ‘clientividade’.

A consultoria estabeleceu notas de um a dez para avaliar o atendimento, a oferta de produtos, o entendimento do vendedor sobre a necessidade do cliente e até as condições da loja.

O resultado: 66% dos entrevistados cravaram notas de três a seis. “Esse índice de ‘clientividade’ é baixo e revela, por exemplo, que o funcionário não tem a postura de dono do negócio”, diz Souza.

Muito melhor do que demitir, diz ele, é o empresário se concentrar no treinamento de funcionários para que eles sejam capazes de fisgar os clientes.

De acordo com Arrobas, um gerente demora de quatro a seis meses, em média, para se adaptar à empresa e um vendedor, dois meses. "É um custo de aprendizado que as empresas também precisam considerar", diz.

Ao mesmo tempo em que a Alshop, associação que reúne lojistas de shoppings, registra queda real de 9%, em média, nas vendas neste ano, o Mercado Livre informa que o comércio eletrônico terá crescido 40% neste ano.

“Isso mostra que o novo modelo de negócio do varejo não é mais aquele de ficar esperando o cliente atrás do balcão. Não é demitindo que o problema  estará resolvido.”

Não há sinais de grandes mudanças no em 2017, de acordo com Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). “O que pode acontecer é uma redução gradativa das demissões no primeiro semestre”, afirma.

Se os juros caírem, aí sim o processo de demissões poderá estancar, mas a partir do segundo semestre, prevê Solimeo.

LEIA MAIS: Varejo deve terminar 2017 no zero a zero 

FOTOS:Thinkstock e Fátima Fernandes/Diário do Comércio



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