São Paulo, 26 de Maio de 2017

/ Gestão

Da casa de pau a pique a dona de marca estampada em 81 lojas
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A esteticista Luzia Costa precisou ter quatro empresas - e quebrar uma delas - para sentir o gosto do sucesso com a Sóbrancelhas

Todo mundo já ouviu falar que para ser empresário é preciso ter resiliência. Se esse for o mais relevante pré-requisito para um empreendedor de sucesso, a esteticista Luzia Costa, de 35 anos, já deu provas suficientes da sua competência para os negócios.

Atualmente, Luzia é dona da rede de franquias Sóbrancelhas. O nome ambíguo, um divertido trocadilho, diz exatamente qual a fonte do sucesso da empresária mineira -além de combinar com a personalidade bem humorada da esteticista. 

Com 81 lojas em funcionamento no Brasil e outros 69 contratos já assinados, em fase pré-operacional, a rede já atende a cerca de 30 mil clientes por mês e gera cerca de 150 empregos diretos. Somente em royalties, Luzia fatura aproximadamente R$ 1,7 milhão por ano - sem considerar a taxa de franquia, que varia caso a caso.

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Esse sucesso, no entanto, veio depois de muitos erros. A vida de empresária de Luzia começou cedo, aos 19 anos. Já casada aos 18, buscou uma forma de colaborar com as contas da casa.

Seu primeiro empreendimento foi com um carrinho de lanches pelas ruas de Tremembé, na região do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo. “Vendia hambúrguer e pizza até para o quartel em que meu marido trabalhava”, diz. “Ia vendendo e me virando.”

A coisa deu tão certo que Luzia resolveu dar e se fixar em um ponto na rodoviária da cidade. A lanchonete era pequena e, para tirar um extra, passou a vender passagens também. 

A alegria durou pouco. Após uma denúncia, Luzia foi obrigada a parar com a venda de passagens dentro da lanchonete. Para ela, no entanto, em tudo se dá jeito -naquele momento o jeito foi alugar outro ponto no mesmo lugar para funcionar como uma espécie de agência de viagens. 

“Fiquei em dois segmentos, estava tudo bem bacana”, diz. Mas a empreendedora ainda guardava um forte desejo de se mudar para Taubaté. O marido conseguiu a transferência e ela vendeu seus empreendimentos. Com o dinheiro comprou uma pizzaria na cidade em que ela sonhava morar.

UM PASSO MAIOR QUE A PERNA

Para Luzia, esse foi “um passo três vezes maior que a perna”. O negócio era grande, chegava a faturar R$ 3 mil por noite. Deslumbrada, tocou a pizzaria com uma gestão pouco profissional e cometeu um dos erros mais graves do empreendedorismo: misturou as suas contas com o caixa da pizzaria.

“Não tinha ideia de que se você fatura R$ 3 mil em um dia, R$ 2.500 são para manter a operação ativa”, diz.

Já é possível imaginar o resultado de tamanho descontrole. Um ano foi tempo suficiente para quebrar. Com R$ 30 mil em dívidas, lançou mão de um empréstimo no banco para pagar fornecedores e funcionários. “Quebrei de um jeito que não tem como se reerguer rapidamente. Perdi tudo mesmo.”

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O casamento, que já estava em crise, foi interrompido por dois meses e Luzia acabou voltando com os filhos para a casa dos pais em Passaquatro. Não conseguiu se readaptar e alugou uma casinha “de pau a pique” na beira de um rio entre Passaquatro e Cruzeiro. “Saí do luxo para o lixo, literalmente.”

Um fogão a lenha largado nos fundos da casa foi a inspiração para empreender novamente. Nos tempos da pizzaria aprendeu a fazer tomates secos e então resolveu que venderia a iguaria na região. Pediu uma caixa de tomates, etiquetas e potes para o pai, que comprou os produtos. Luzia voltava à ativa.

Com a venda dos tomates, a empresária conseguiu algum dinheiro e se mudou para Roseira, outra cidade pequena, depois de Taubaté. Lá os tomates não tinham saída então ela precisou se reinventar.

Tinha pouco mais de R$ 1,25 no bolso quando pensou no que poderia investir. A saída foram o pirulitos de açúcar, conhecidos como “espetinhos de vidro”.

Em uma entrega, Luzia foi alertada por uma cliente que havia um curso de estética gratuito na região. Ela, que sempre foi a cabeleireira e maquiadora oficial das primas na infância, resolveu checar a oportunidade. “Com três semanas de curso eu estava fazendo massagem em cima da mesa, porque não tinha maca.”

Inquieta e ambiciosa, investiu em uma tenda de massagem na praia, em Ubatuba. A meta era levantar todo o dinheiro necessário para pagar a dívida com o banco. “Queria voltar por cima para Taubaté”, diz.

Para tanto, trabalhava cerca de 12 horas, de manhã na tenda e à tarde fazia atendimentos em domicílio. Longe do marido, morava em um cômodo com seus filhos - uma criança de sete anos e um bebê de um ano. “Morávamos em um lugar menor do que a minha sala no escritório hoje”, diz. “Foi uma época muito difícil. Cheguei a pesar 48 quilos.”

A meta foi alcançada e, como desejava, voltou para Taubaté de cabeça erguida. No entanto, voltar à cidade daquela forma também era voltar à estaca zero. Usou de uma conhecida estratégia para fazer seus serviços conhecido pela cidade - atendia clientes de graça nas escolas públicas da cidade. 

A habilidade de Luzia para fazer sobrancelhas se tornou assunto na cidade e ela começou a atender as clientes em domicílio. “Chegou uma hora em que o trânsito não me deixava atender à toda a demanda que tinha”, conta. “Resolvi alugar uma salinha.”

CENTRO DE TREINAMENTO EM TAUBATÉ. Foto: Divulgação

Nessa salinha, além das clientes também pipocavam interessados em aprender as técnicas de Luzia. Sentia pena de cobrar dessas pessoas, se sentia na obrigação de ensinar sem receber nada em troca.

Com o impulso do marido transformou sua salinha também em um centro de treinamento. Logo o negócio migrou para um espaço maior e ela passou a ser procurada por redes de franquias para dar treinamento aos profissionais de estética. “Fui orar e Deus me deu uma palavra de que eu deveria montar a minha própria rede”, comenta.

Em um shopping, encontrou um ponto para a Sóbrancelhas, inaugurada em 5 de dezembro de 2013. “Peguei o pior espaço do shopping, com coluna no meio para não pagar luva”, lembra. Como sua clientela já estava formada, logo na inauguração o resultado foi bem interessante. 

Em 15 de abril de 2014, Luzia inaugurava sua primeira loja franqueada, gerida por uma antiga cliente que hoje tem três unidades no interior de São Paulo. “Eu só tenho duas lojas próprias, as outras 79 são franqueadas”.

Única mulher entre sete irmãos, Luzia tem seu marido trabalhando no administrativo da Sóbrancelhas. O filho Caio, de 15 anos, é jovem aprendiz registrado, ganha um salário mínimo e com esse dinheiro já paga as parcelas do carro para quando tiver 18 anos.

Acomodar-se não está nos planos de Luzia. Até o final do ano, pretende dar início às operações da Berilos, rede que vai dar atendimento de ponta para as unhas femininas. 

O FRANQUEADO

Todas essas dificuldades vividas por Luzia mostraram para ela o quanto os empresário iniciantes precisam de suporte. A empresária nunca estudou gestão. Seu tino para os negócios veio do pai, que trabalha até hoje com negociação de gado de corte. “Eu nasci com esse dom, mas quero fazer um curso também.”

 

LUZIA NÃO PRETENDE FICAR SÓ COM AS SOBRANCELHAS/Foto: Divulgação

Como nem todos têm essa vantagem competitiva, ela faz questão de acompanhar de perto todas as unidades. “O franqueado monta uma loja, fica deslumbrado, quer montar dez. Eu não posso deixar, eu já perdi muitos negócios, sei como é essa empolgação”, diz. “Eu prefiro não vender a vender mal.” Até agora, nenhuma unidade baixou as portas. 

Atualmente, cada unidade fatura, no mínimo R$ 25 mil por mês. São três modelos de loja disponíveis para franqueados. O quiosque custa cerca de R$ 90 mil, a loja R$ 120 mil e o truck, última novidade, R$ 150 mil. “O truck acaba com o problema do ponto, com as mudanças de trânsito e com aluguel caro”, completa. 

“Quem vende franquia é franqueado satisfeito. Faço questão de fazer com que tudo corra bem”, diz Luzia, que afirma que teria 80% das iniciativas comerciais encerrando em assinatura de contratos se não fosse esse zelo com o franqueado. Fora isso, vende para quem puder - até o pastor da igreja que Luzia frequenta tem duas unidades da Sóbrancelhas



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