São Paulo, 27 de Abril de 2017

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Conheça as cinco armadilhas em que João Doria pode cair
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O novo prefeito paulistano tem pela frente enchentes, ciclovias, dificuldades fiscais e, sobretudo, a contestação do MTST

João Doria Junior, de 59 anos, assume neste domingo (01/01) a Prefeitura de São Paulo. Apesar dos 53,29% dos votos que surpreendentemente o elegeram já no primeiro turno, ele não terá uma tarefa fácil.

As dificuldades serão sobretudo políticas. Se for bem-sucedido, o prefeito beneficiará o projeto de seu único e importante padrinho, Geraldo Alckmin. Caso fracasse, arrastará consigo o governador paulista, candidato a presidente em 2018, permanecendo ou saindo do PSDB.

O fato é que uma gigantesca lupa, com o tamanho exato ao do município, já foi colocada sobre Doria pelo principal concorrente dele e de Alckmin, que é o Partido dos Trabalhadores.

O petista Fernando Haddad, que obteve pífios 16,7% dos votos ao tentar se reeleger em outubro último, não é propriamente o comandante da operação de desmanche da imagem do novo prefeito.

O comando pertence a Luís Inácio Lula da Silva, que em breve reassumirá a presidência de seu partido e anunciará, ainda em 2017, o projeto de também disputar o Planalto. 

Lula pretende produzir muitíssima espuma para tentar, com isso, bloquear uma condenação da Lava Jato.

É bem verdade que esse tipo de operação tem efeitos incertos. Mas Doria entra na mira por ser um personagem imediatamente anexo ao governador que o fez candidato. 

O próprio Lula, durante a campanha, situou abertamente João Doria como candidato do mesmo "golpe" que teria levado Michel Temer à Presidência.

Sites petistas como Fórum, Sul 21, Brasil 247 e o delirante O Cafezinho entraram na mesma acusação, para desqualificar a democrática eleição de Doria e acusá-la de manobra golpista.

Com esse quadro espinhoso do atacado, vejamos como estão, no varejo, os cinco principais problemas do prefeito.

1 - TARIFA DE ÔNIBUS

Doria prometeu em sua campanha que não reajustaria a tarifa de R$ 3,80, cobrada pelos ônibus de São Paulo. Reiterou ainda nesta quarta-feira (29/12) que manterá a promessa.

Com isso, precisará compensar de duas maneiras essa generosidade. Deverá aumentar subsídios - numa época de orçamento apertado pela recessão e seus efeitos fiscais - ou reduzir os benefícios tarifários de passageiros como os idosos, o que traz inconvenientes sérios em termos de popularidade.

Com sua ousadia, Doria acabou arrastando o governo do Estado, que acabou não seguindo o exemplo das prefeituras de Osasco ou Guarulhos, que subiram suas tarifas já agora em dezembro. O metrô e os trens suburbanos da CPTM terão maior custo também para os cofres estaduais.

O que é ruim,  já que, apesar das mesmas dificuldades financeiras que quebraram Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, São Paulo conseguiu cortar despesas e não cair no vermelho.

2 - VELOCIDADE DAS MARGINAIS

Doria prometeu e manteve em grande parte a promessa de adotar velocidades maiores nas marginais Pinheiros e Tietê.

Com isso, dá uma trombada frontal no marketing trabalhado por Haddad e aliados, segundo o qual a redução das velocidades em meados de 2015 salvou vidas e evitou acidentes menores.

Pouco importa, por exemplo, que a mesma redução de vítimas tenha ocorrido na malha estadual de estradas, que manteve seus limites de velocidade, mas registrou menos tráfego em razão da recessão econômica.

A ideia de que Haddad salvou vidas possui, como reverso consensual da mesma moeda, a ideia de que Doria se dispõe a sacrificá-las.

Resta ao novo prefeito cruzar os dedos e torcer para que tal previsão não se confirme. Seria tudo o que ele não precisaria.

E se cair nesse buraco, arrastará também o governador, que não teria nada a ver com isso, mas sofreria com os efeitos do declínio da popularidade do apadrinhado.

3 - CICLOVIAS

As ciclovias não estavam em 2012 na plataforma eleitoral que elegeu Fernando Haddad. Mas acabaram se transformando num poderoso chamativo de suposta "mobilidade urbana", aliás sem terem sido precedidas por consultas aos principais interesssdos, que são os moradores ou lojistas das vias públicas amputadas de uma faixa de circulação.

Doria prometeu, genericamente, que manteria e "aperfeiçoaria" o sistema. O sensato seria imediatamente  mensurar qual o tráfego efetivo dos 414 quilômetros existentes, sem sucumbir à desonestidade que consiste em tomar a avenida Paulista como único exemplo.

Seria sensato acabar com os longos trechos subutilizados, que funcionaram, na paisagem urbana, como instrumento de propaganda administrativa de Fernando Haddad.

4 - ENCHENTES

Doria assume no começo do verão e sabe que tem, pela frente, um período de surpresas explosivas que apenas não foram em 2015 uma dor de cabeça para Haddad, em razão da seca aguda que se abateu no início daquele ano sobre a Região Metropolitana.

O próprio Haddad evitava percorrer em outros momentos os bairros mais atingidos, para se dissociar da imagem das enchentes.

Foi um comportamento oposto ao de seu antecessor, Gilberto Kassab, que se desdobrava para percorrer a cidade e levar algum conforto para a população.

Doria escolheu uma versão profilática de Kassab. Anunciou que já nesta segunda-feira (02/01) chefiará no final da madrugada uma operação destinada a desentupir bueiros e córregos que inundam nas regiões mais pobres.

Na prática, ele comandará 1.200 funcionários e 176 camilhoes e varredeiras mecânicas nessa operação. Sabe que terá uma boa cobertura da mídia. E, em caso de inundações futuras, poderá, na melhor das hipóteses, beneficiar-se dos mesmos mecanismos que permitiram que Geraldo Alckmin não tivesse sua reputação machucada na estigem de 2014/2015.

É a ideia de que o governo fez tudo o que poderia ser feito para diminuir os efeitos da incontrolável natureza (chuva a menos ou chuva a mais).

A operação de Doria também consiste em consertar o asfalto, remover pichações, plantar árvores e partir para um "upleafting" da cidade. 

5 - OCUPAÇÕES DO MTST

São Paulo tem 360 mil moradias a menos do que precisava. Mas não é este o dado que corresponde a uma das maiores dores de cabeça de qualquer prefeito.

Além de orçamentos sempre mais curtos que o necessário para suprir a necessidade das famílias que não têm condições para comprar a casa própria pelos mecanismos de mercado, a encrenca se chama Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST).

Em 2015 o prefeito Fernando Haddad foi interpelado pelo Ministério Público estadual sobre os critérios que o levavam a distribuir as habitações construídas.  A verdadeira questão era, no entanto, se os chamados movimentos sociais estavam furando a fila dos sem-teto cadastrados.

A resposta da prefeitura foi curiosa. Em palavras mais amenas, ela disse que, naquilo que se referia às verbas municipais, a fila era respeitada. Mas em se tratando das verbas federais, do programa Minha Casa, Minha Vida, os critérios eram outros e beneficiavam o MTST e congêneres.

Esse é um espaço de políticas públicas em que as mudanças mais radicais deverão ocorrer. No entanto, como o MTST tem bom poder de pressão, é também a questão com maior número potencial de conflitos, bloqueios de vias públicas e confrontos nos quais se exigirá habilidade para que não ocorra nenhuma morte. O MTST se fortaleceria se tivesse a bandeira de algum "mártir".

O que se sabe, por enquanto, é que o secretário do Verde e do Meio Ambiente, Gilberto Natalini, é um intransigente defensor da desocupação de terrenos em áreas de mananciais, o que ocorreu de maneira ampla e descontrolada na região da represa Guarapiranga, ameaçando a água potável disponível para os paulistanos.

De qualquer modo, temos pela frente uma previsível queda de braço. O MTST não tem o mesmo DNA político que o do prefeito, e há na agenda municipal a desocupação dos prédios (mais de 70) da região central. Veremos como isso acontecerá.

FOTO: Leonardo Benassatto/Estadão Conteúdo