São Paulo, 08 de Dezembro de 2016

/ Gestão

Como os brasileiros do 3G estão mudando as práticas de negócios nos EUA
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A Anheuser-Busch e a Heinz, controladas por Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles (da esq.para dir.), alargam o prazo de pagamento aos fornecedores, e são seguidas por outras gigantes do setor alimentício

Por Stephanie Strom

Que tal ter 120 dias para pagar seus credores? Adotando uma tática comumente usada pelo 3G Capital – o grupo brasileiro de investimento privado por trás da fusão entre Heinz e Kraft Foods – um número cada vez maior de empresas alimentícias e bens rotineiros está pedindo aos fornecedores até quatro meses para pagar suas dívidas --embora exija de seus próprios clientes pagamento em trinta dias, no máximo.

A tática vem ganhando popularidade desde que uma afiliada ao grupo 3G Capital a adotou após comprar a Anheuser-Busch, em 2008.

No passado, esses prazos estendidos geralmente indicavam que a companhia estava passando por problemas de fluxo de caixa. Hoje, porém, as corporações passaram a impor as novas datas apenas como estratégia comercial, segundo os analistas.

Bea Chiem, analista de crédito que acompanha as empresas alimentícias na Standard & Poor's, oferece vários motivos para o uso da tática: "Pode ser porque o desempenho recente tenha sido sofrível; muitas estão em meio a uma reestruturação e todas estão tentando equilibrar a necessidade de capital com o retorno dos acionistas".

A Diageo, fabricante de bebidas europeia, pede 90 dias para pagar suas contas. A Mondelez, Mars e Kellogg querem 120. A lista de nomes que engrossam a lista parece mais uma versão comercial do Quem É Quem: Church & Dwight, Procter & Gamble e Heinz estão entre as que querem termos de pagamento mais generosos.

A HEINZ, ÚLTIMA AQUISIÇÃO DO 3G, TAMBÉM QUER MELHORES CONDIÇÕES DE PAGAMENTO/THINKSTOCK

 

De acordo com os especialistas, a maioria o faz para tentar maximizar o uso do capital; ao empurrar os pagamentos para 90 ou 120 dias, as empresas têm mais dinheiro para realizar outros projetos.

A Mondelez, por exemplo, está comprando ações de volta. A Kellogg está no meio de uma reestruturação, e a Procter & Gamble, que estendeu seus prazos de quitação para 75 dias em 2013, até agora já engordou seu fluxo de caixa com US$ 1 bilhão.

"Uma hora os custos financeiros adicionais com que os fornecedores têm de arcar por não receberem imediatamente passam a se refletir nos preços ao consumidor", alerta V. G. Narayanan, chefe da unidade de contabilidade da Faculdade de Administração de Harvard.

"GREVE" NO REINO UNIDO

A prática é impeditiva para as empresas, principalmente as menores, que têm pouco estofo de proteção. No Reino Unido, em abril, a Associação de Agências de Marketing estimulou seus membros a "fazer greve" contra a Anheuser-Busch InBev, a gigante do setor cervejeiro, depois que a empresa começou a rever seus termos, incluindo a aprovação de um prazo de pagamento mais longo que 120 dias e pedido de trabalho pro bono.

SEDE DA ANHEUSER-BUSCH NOS EUA: ENFRENTANDO REBELIÃO DE AGÊNCIAS DE PROPAGANDA NO REINO UNIDO/THINKSTOCK

 

Para Martin Sorrell, CEO do Grupo WPP, gigante da publicidade, tais práticas podem transformar fornecedores em credores.

"Não acho que o nosso objetivo seja lidar com transações bancárias, nem termos estendidos de pagamento, muito menos concordar com termos de pagamento de fornecedores a juros baixos; não somos uma instituição bancária", disse ele em entrevista a Advertising Age pouco depois que a Diageo estendeu seus prazos de pagamento para 90 dias.

Stephen Brock se declara surpreso pelo fato de a revolta contra a Anheuser-Busch InBev não ter acontecido antes. Ele sabe o que diz, pois, dono da Supplied Industrial Solutions, de Granite City, em Illinois, fornecia válvulas, instrumentos processadores e sistemas mecânicos para a fabricante da Budweiser e outras cervejas.

BROCK, UM DOS FORNECEDORES: PREFERIU PERDER O CLIENTE/ANDREW SULLIVAN/THE NEW YORK TIMES

 

A Anheuser-Busch foi comprada por uma entidade controlada por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, também responsáveis pela 3G; a fusão com a InBev veio em 2008. Um ano depois, Brock foi avisado de que não receberia mais pelo fornecimento de seus produtos em trinta dias. Na verdade, o novo conglomerado lhe impôs um período de 120 dias.

A corporação representava cerca de 5% do volume total de vendas de Brock – até que ele concluiu que seria melhor perder o negócio do que esperar quatro meses para ser pago.

"Na verdade o efeito nos lucros é péssimo; para piorar veio no meio da recessão. Levamos um ano e meio para recuperar as perdas", conta ele.

Ele ainda faz negócio com a corporação, mas em uma escala bem menor, e recebe através de cartão de crédito.

"Os bancos estão restringindo os financiamentos, principalmente para pequenas empresas como a minha, então a coisa fica ainda mais complicada de administrar. Continuo tendo que pagar funcionário, fornecedor, conta de luz de água… eles não podem esperar quatro meses para receber."

Até agora a pressão mais forte parece recair sobre os chamados periféricos – os que fornecem embalagens, equipamentos, são responsáveis pela publicidade etc.

A Diageo, por exemplo, pediu prazos estendidos dos fornecedores de componentes europeus para suas fábricas, mas não para os abastecedores de açúcar, o tipo do ingrediente que não dá para passar sem. Além disso, é difícil encontrar alternativas imediatas de provedores.

Porém, isso também pode estar mudando: duas grandes companhias que entregam matérias-primas como café, farinha, açúcar e cacau para os maiores nomes da indústria alimentícia confirmaram que muitos clientes já exigem ciclos de pagamentos mais longos.

Irit Tamir, do programa Oxfam America – que procura garantir que as multinacionais não tirem vantagem de pequenos produtores e fornecedores nos países em desenvolvimento, se confessou preocupada, pois empresas como Cargill, Bunge, Grupo Noble e Archer Daniels Midland, estão sendo pressionadas.

"A tendência é que essas coisas acabem se refletindo na cadeia de fornecimento e sabemos que os pequenos agricultores de óleo de palma, café, cacau e outras matérias-primas já têm que lidar com um risco considerável no dia a dia", diz ela.

EM BUSCA DE CRÉDITO

Diane Shand, diretora do grupo de produtos ao consumidor da S&P, diz que as empresas que hoje pedem prazos maiores geralmente se esforçam para ajudar os fornecedores a suportar o impacto. Os bancos, inclusive, desenvolveram "práticas de fornecimento" que liberam financiamentos ao abastecedor nos mesmos termos que seus grandes clientes; podem também "comprar" o valor a receber, com um pequeno desconto, para que ele não fique parado nos seus livros.

"É mais uma permuta que essas empresas grandes oferecem; dizem aos fornecedores que vão pagar só depois de 120 dias – em vez de 60 ou 90 – mas oferecem mais oportunidades de negócios ou pagamento em cinco ou sete dias se tiver um pequeno desconto", explica ela.

Contudo, fora do setor financeiro, poucos aprovam a tendência. "Acho que a ideia, de forma geral, é muito ruim. Basicamente o que essas empresas estão fazendo é se voltar para os fornecedores em busca de crédito, em vez de procurar os bancos – e para gigantes da indústria como elas, confiáveis, inclusive, isso é ridículo", conclui Narayanan de Harvard.

LEIA MAIS: Por que as lições de Lemann e seus sócios são valiosas para sua empresa

 



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