São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Gestão

Com perdas pela corrupção, Petrobras tem primeiro prejuízo desde 1991
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Os desvios de recursos, flagrados pela Operação Lava Jato, levaram R$ 6,2 bilhões da estatal segundo balanço auditado

Aguardado com expectativa por investidores e pelo mercado financeiro, o balanço auditado da Petrobras referente ao resultado de 2014 foi divulgado na noite desta quarta-feira (22/4). A estatal teve um prejuízo líquido de R$ 21,587 bilhões - o primeiro desde 1991, quando a petrolífera reportou prejuízo de R$ 92 mil, segundo dados coletados pela consultoria Economática. 

O ano de 2014 foi marcado pelo início da Operação Lava Jato, como foi batizada a investigação da Polícia Federal sobre os casos de corrupção e de cartel na Petrobras. As perdas com a corrupção somaram R$ 6,2 bilhões. O valor, segundo a estatal, foi baseado nas investigações do Ministério Público Federal.

A Petrobras havia informado três meses atrás que adotaria uma metodologia para dimensionar as perdas com práticas fraudulentas. A cifra seria calculada a partir de um percentual médio de 3% sobre o valor de contratos alvo de investigação, conforme sugerido por pessoas investigadas na Lava Jato. Foi justamente esse o modelo adotado pela estatal em seu balanço.

A companhia considerou o percentual de 3% para estimar os gastos adicionais impostos sobre o montante total dos contratos identificados. Além disso, a Petrobras colocou em prática um trabalho de identificação da contraparte do contrato, dos contratos assinados com as contrapartes mencionadas no cartel de empresas que adotaram práticas fraudulentas. Também foi considerado o valor total dos contratos que foram alvo de análise.

O cálculo do peso da corrupção no patrimônio da empresa foi conservador, para dar uma margem que inclua perdas que possam surgir posteriormente. Os cálculos dizem respeito exclusivamente a projetos fechados de 2004 a 2012.

Caso venham a tona denúncias de corrupção em projetos firmados posteriormente a essa data, a perda também poderá ser revista no futuro. 

Durante a apresentação, o recurso desviado foi detalhado. Do total, R$ 3,4 bilhões foram para a área de abastecimento, R$ 2 bilhões ao setor de exploração e produção (E&P), R$ 700 milhões para gás e energia e R$ 100 milhões em outras áreas. 

"Os valores voltarão ao caixa da companhia a partir de maio", afirmou Aldemir Bendine, presidente da Petrobras. O dinheiro será o que foi resgatado em contas no exterior.

Bendine afirmou que já entrou em acordo com a Justiça para que o dinheiro resgatado retorne ao caixa da empresa. Além disso, ele ressaltou que devem ser fechados acordos de leniência com fornecedoras investigadas na Lava Jato.

O que mais levou o resultado da Petrobras ao prejuízo foi a perda de R$ 44,636 bilhões pela desvalorização de ativos (no jargão técnico, impairment ou imparidade).

O impairment é um teste que traz para valor presente o conjunto de ativos para verificar se, no longo prazo, trará receita superior ao que está imobilizado no balanço. Quando o resultado é inferior, deve ser baixado do balanço.

Os setores que concentraram os ativos desvalorizados foram os de refino (por causa da postergação de projetos), exploração e produção (pela queda no preço internacional do petróleo) e petroquímica (por redução de demanda). 

Bendine disse não ver uma relação entre a desvalorização forte dos ativos pelo teste de impairment com a corrupção. 

Considerando a corrupção e o teste de impairment, a Petrobras teve perdas de R$ 50,539 bilhões em 2014.

NOVO PLANO DE NEGÓCIOS 

O presidente da estatal afirmou, após a divulgação de resultados, que a empresa manterá o foco nos desafios de médio e de longo prazos: "O principal deles é a elaboração de um novo plano de negócios, no qual incorporaremos premissas econômicas que refletem o cenário atualmente vivenciado pela indústria do petróleo", disse.

Bendine afirmou que outras mudanças no contexto dos negócios da Petrobras, como o declínio dos preços do petróleo, valorização do dólar e a necessidade de reduzir o nível de endividamento, estimularam uma revisão das perspectivas futuras e, consequentemente, levaram à necessidade de redução no ritmo de investimentos.

"Estamos revendo nossos investimentos com o objetivo de priorizar a área de exploração e produção de petróleo e gás, nosso segmento mais rentável. Almejamos construir um plano sustentável sob a ótica do fluxo de caixa, levando em consideração os potenciais impactos na cadeia de suprimentos e, por conseguinte, na nossa curva de produção", afirmou.

Em 2014, os investimentos da estatal somaram R$ 87,140 bilhões, queda de 17% sobre 2013.

A Petrobras divulgou as premissas para sua operação em 2016, estimando realizar aproximadamente US$ 25 bilhões em investimentos.

De acordo com a companhia, o montante é 37% inferior ao investimento que era previsto para o ano que vem no plano de negócios e gestão 2014-2018 (US$ 39,5 bilhões), divulgado em fevereiro de 2014. Dos US$ 25 bilhões, 82% serão destinados à área de exploração e produção de petróleo.

A companhia também estimou obter US$ 10 bilhões com a venda de ativos. Caso isso se confirme, significa que a Petrobras deverá receber em 2015 apenas US$ 3,7 bilhõs com desinvestimentos, já que o programa 2015-2016 tem como meta US$ 13,7 bi.

De acordo com Bendine, entretanto, isso é apenas uma previsibilidade, um número que pode variar mais positivamente para este ano ou para o ano seguinte. Segundo ele, tudo dependerá das negociações com compradores.

A última vez em que a Petrobras divulgou um balanço auditado foi em agosto de 2014, quando foram apresentados os dados referentes ao segundo trimestre de 2014. Em novembro último, a estatal deveria ter apresentado os números do terceiro trimestre porém, a auditoria PwC não deu aval em função do desenrolar da Lava Jato. 

Esses dados foram divulgados apenas no dia 28 de janeiro deste ano, mas sem a inclusão de baixas contábeis associadas aos casos de corrupção já identificados pela Polícia Federal. Pela mesma razão, a PwC não havia auditado o documento.

Quando considerado apenas o quarto trimestre, a Petrobras reportou prejuízo líquido de R$ 26,600 bilhões, ocasionado pela contabilização de perdas oriundas de operações fraudulentas envolvendo ex-diretores da estatal. 

A estatal também informou prejuízo de R$ 5,339 bilhões no terceiro trimestre ante lucro de R$ 3,087 bilhões divulgado em janeiro. 

O prejuízo do quarto trimestre de 2014 contrasta com o lucro de R$ 6,281 bilhões acumulado no mesmo intervalo do ano anterior.

A Petrobras também reportou Ebitda ajustado de R$ 20,057 bilhões no quarto trimestre, expansão de 28,95% em igual base comparativa. A receita líquida totalizou R$ 85,040 bilhões, alta de 4,95% sobre os três últimos meses de 2013.

Este é o primeiro resultado trimestral divulgado pela nova diretoria da Petrobras, comandada por Aldemir Bendine, que veio do Banco do Brasil, desde o início de fevereiro. Os números de 2014, contudo, foram resultado ainda da administração da ex-presidente Maria das Graças Foster, que deixou o cargo em meio às investigações da Lava Jato.

*Com informações de Estadão Conteúdo

Atualizado às 22h10



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